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O choro de Neymar. E a saúde mental no esporte de alto nível

A postura do camisa 10 no jogo contra a Costa Rica ganhou visibilidade por causa do histórico recente de jogadores da seleção brasileira

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    A vitória do Brasil sobre a Costa Rica por 2 a 0, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo da Rússia, foi definida apenas nos acréscimos. Os gols de Philippe Coutinho e Neymar, naquele que ficou marcado como o jogo mais complicado da era Tite, permitiram que o Brasil passasse a depender apenas de si para avançar à fase mata-mata do mundial da Fifa.

    Foi uma cena do término da partida, porém, que roubou boa parte da atenção da imprensa nacional e internacional. Após ouvir o apito final, Neymar agachou sozinho no centro do gramado e, cobrindo o rosto, chorou - acompanhado de perto pela equipe de transmissão da Fifa.

    Mostrando-se irritado em campo, tanto em relação às chances desperdiçadas quanto à postura da arbitragem e dos adversários, Neymar protagonizou uma exibição conturbada.

    Entre ofensas dirigidas aos costarriquenhos, uma simulação de pênalti (acusada pelo árbitro de vídeo) e um soco enfurecido na bola, o camisa 10 chegou a discutir com o árbitro holandês Björn Kuipers, pedindo que “não o tocasse”. Aos 35 minutos do segundo tempo, Neymar foi punido com cartão amarelo por reclamação.

    Sobrou até para Thiago Silva, capitão da seleção brasileira, que, quando o placar ainda apontava 0 a 0, colocou a bola para lateral tendo em vista o atendimento médico de um jogador da Costa Rica. O fair-play do zagueiro brasileiro provocou a ira de Neymar, como destacado por esta reportagem do portal UOL Esporte.

    “Hoje fiquei muito triste com ele, porque no momento em que eu devolvi a bola ele me xingou muito. Mas eu acho que ele, teoricamente, estava certo, porque eles estavam fazendo muita cera. Acabei por devolver a bola porque não era aquela bola que ia nos fazer ganhar”, disse Thiago Silva, depois da partida.

    Após a vitória, Neymar usou suas redes sociais para fazer um desabafo sobre as críticas que vem recebendo por conta de seu desempenho. Recuperando-se de uma fratura no pé sofrida no final de fevereiro de 2018, o jogador do Paris Saint-Germain disputou apenas sua quarta partida oficial desde o retorno aos gramados.

     

    Por conta da postura de parte dos seguidores, que usavam a internet para cobrá-lo, Neymar adotou uma política restritiva em seu Instagram nos últimos dias: só quem é seguido pelo jogador pode, atualmente, postar comentários nas fotos que compartilha.

    ‘Mentalmente fortes’

    A postura de Neymar e seu choro ao final da partida contra a Costa Rica ganharam maior visibilidade por conta do histórico psicológico recente da seleção brasileira. O zagueiro Thiago Silva, que reconquistou sua vaga na seleção com o início do trabalho de Tite, em 2016, ficou marcado na seleção por chorar antes da disputa de pênaltis da partida contra o Chile, pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2014. O choro de David Luiz, também zagueiro da equipe, se tornou um dos símbolos da derrota brasileira por 7 a 1 para a Alemanha, na mesma edição do torneio.

    Ainda que a necessidade de preparação psicológica tenha ganhado maior destaque desde então, a seleção não conta com um profissional da área para a atual edição de Copa do Mundo. Como afirmou a assessoria da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ao jornal O Globo, o torneio mundial, por conta de sua curta duração, não permite que se crie “vínculo de confiança entre o atleta e o profissional da área”. Não haveria, portanto, tempo para desenvolver um trabalho de forma coletiva.

    Quem assumiu o papel de “psicólogo”, então, foi Tite, refer��ncia de bom relacionamento e trato próximo aos atletas. A necessidade de se manter “mentalmente forte”, frase recorrentemente utilizada pelo técnico em entrevistas, virou uma espécie de mantra para a seleção, e, nessa edição da Copa do Mundo, apareceu em diferentes momentos também no discurso dos atletas.

    “O professor [Tite] conversa com a gente nas reuniões, ele é como se fosse um psicólogo. Ele conseguiu colocar isso na nossa cabeça, de estar mentalmente forte. É uma coisa muito importante, acho que a gente tem que continuar assim. Esse é o segredo, a chave. Vamos enfrentar pedreiras, o próximo jogo já é uma delas e temos que estar mentalmente fortes.”

    Philippe Coutinho, meio-campo da seleção brasileira, em entrevista do dia 19 de junho

    “Isso tudo é passado pelo Tite, conversado, talvez seja um dos grandes pontos fortes dele, saber trabalhar a cabeça do atleta. Ele sempre falou em estar mentalmente forte e jogar em alto nível, preparar para todas as situações do jogo. Num campeonato de tiro curto, temos de estar preparados para tudo. Hoje podíamos ter perdido o jogo.”

    Renato Augusto, volante do Brasil, referindo-se ao empate contra a Suíça

    “Isso é o mais importante, é o que temos de fazer, seguir mentalmente fortes. Não foi o resultado que queríamos, mas temos mais dois jogos importantes e vamos continuar trabalhando forte, da mesma maneira, para conseguirmos as vitórias.”

    Willian, meio-campo da seleção, comentando o desempenho da equipe na estreia do torneio

    “Todo trabalho psicológico demanda tempo. Não existe intervenção instantânea, imediata. Não é um trabalho motivacional. O trabalho psicológico envolve avaliação, intervenção, acompanhamento”, pontuou ao Nexo Katia Rubio, coordenadora do Observatório de Psicologia do Esporte da EEFE-USP (Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo) e fundadora da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. “O psicólogo, nas boas equipes, tem o mesmo status do fisiologista, nutricionista, preparador físico.”

    De acordo com Cristiano Barreira, professor da USP, diretor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto e presidente da Abrapesp (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte), os resultados de um trabalho de acompanhamento psicológico costumam aparecer a médio-longo prazo.

    “Por ser um torneio curto a gente pode considerar, sim, que um psicólogo tem pouco a fazer. Mas não se trata apenas de um torneio curto; temos um técnico com dois anos de trabalho. Ele poderia ter tido acompanhamento de um profissional de psicologia”, disse, em entrevista ao Nexo.

    Caso implementado desde a fase de eliminatórias, esse aconselhamento poderia abranger aspectos como a convocação e treinamento dos atletas, que poderiam, assim, se basear em um panorama mais completo também de sua condição clínica.

    O que explica o choro de Neymar

    “O fenômeno do choro equivale a uma inundação emocional, normalmente associada à fragilidade. É um descontrole corporal, mas pode não necessariamente significar que uma pessoa é descontrolada. [O choro] pode ser consentido e desejado, no sentido de se conectar com os próprios sentimentos, inclusive”, explica Barreira.

    Para Katia Rubio, a forma como a narrativa em torno de Neymar foi construída aponta para uma exploração de sua imagem, bem como do momento da carreira do camisa 10 brasileiro. “Hoje, o Neymar é um grande produto, que foi preparado para ser vendido na Copa do Mundo, com um valor agregado muito alto”, diz.

    “Eu assisti àquela cena do choro com muita desconfiança. Uma coisa é você chorar um pênalti perdido, uma vitória decisiva. Mas um segundo jogo de fase de grupos contra a Costa Rica?”, argumenta. “Foram necessários alguns minutos para que a equipe percebesse que ele estava ali. Então, ele foi alvo dos meios de comunicação do mundo inteiro. Se a ideia era chamar atenção, ele conseguiu.”

    Barreira argumenta que, por conta do distanciamento natural do caso, algumas leituras feitas pela imprensa e por torcedores podem incorrer em generalizações ou, até mesmo, preconceitos.

    “O que é injusto nisso [na avaliação] diz respeito, primeiro, a não considerar o que aquele choro significa para a pessoa. Segundo, a fazer uma leitura culturalmente localizada, que pode ser expressão de machismo, de concepção de valores do que significa ser um atleta, um herói que está sempre sob controle psíquico.”

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