Em qual contexto o Vaticano usou o termo LGBT pela primeira vez

Documento que antecipa temas de destaque no próximo encontro de bispos fala sobre ‘jovens LGBT’ e da demanda por debate aberto sobre sexualidade

    Pela primeira vez em sua história, o Vaticano usou o termo “LGBT” para se referir à comunidade de sexualidade ou identidade de gênero diversas. Por meio de um documento chamado “Instrumentum Laboris”, a instituição disse que “alguns jovens LGBT” gostariam de seguir fazendo parte e recebendo “maior atenção” da Igreja, além de se “beneficiar de maior aproximação” com ela. 

    O texto, publicado nesta terça-feira (19), antecipa temas que estarão presentes em encontro de bispos com o Papa (chamado de sínodo) em Roma, em outubro de 2018, que terá a juventude como tema principal.

    Em uma seção voltada a temas como “afeição e sexualidade”, o documento diz que “muito jovens católicos não seguem o que é indicado pelos ensinamentos da Igreja sobre moralidade sexual”. O texto diz que nenhum bispo oferece “soluções ou receitas” para a situação, mas “muitos são da opinião de que questões sobre sexualidade devem ser mais abertamente discutidas e sem preconceito”.

    O jornal americano The Washington Post aponta também para a importância simbólica da escalação do padre novaiorquino Jim Martin – “feroz defensor de uma imagem mais positiva e maior engajamento com católicos gays” –  para o discurso de abertura do Encontro Mundial das Famílias, grande evento católico que neste ano acontecerá na Irlanda, em agosto.

    Avanços

    O uso da sigla foi entendido por observadores da Igreja Católica como um sinal de boa vontade do Vaticano em promover uma maior aceitação a membros da comunidade LGBT. No documento oficial, a instituição fala sobre como a igreja pode se tornar uma “comunidade aberta e acolhedora a todos”.

    Em casos anteriores, o Vaticano havia usado a expressão “pessoas com tendências homossexuais” para se referir à população em questão.  

    O responsável apontado pela mudança de postura é o próprio Papa Francisco, que em 2013 se tornou o primeiro pontífice a usar a palavra “gay” em público. “Quem sou eu para julgar os gays?”, disse ele a jornalistas na época. Em maio de 2018, o Papa também teria dito ao chileno Juan Carlos – abusado sexualmente por padres católicos em seu país – que “não importava” o fato de ele ser gay. “Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O Papa te ama assim. Você precisa estar feliz com quem você é.”

    “Essa mudança na linguagem indica que os representantes da Igreja estão começando a entender que eles devem tratar as pessoas LGBT com respeito, referindo-se a eles com termos mais apropriados”, disse Francis DeBernardo, diretor da New Ways Ministry, uma organização que trabalha pela aproximação da Igreja Católica com pessoas de identidade de gênero e sexualidade diversas.

    À National Catholic Reporter, jornal americano dedicado à cobertura do Vaticano, um cardeal amenizou o uso do termo pois ele teria sido um gesto de “respeito” ao vocabulário presente em um relatório sobre “temas polêmicos” enviado por jovens católicos após reunião preparatória em março de 2018.

    Palavras e ações

    Embora a adequação de vocabulário possa ser vista com otimismo, o diretor da New Ways Ministry diz que no documento “não há nada” que indique qualquer vontade do Vaticano em mudar as políticas da Igreja Católica quanto à população LGBT propriamente.

    “Esta abordagem pastoral [por meio do documento] é importante, mas o alcance da Igreja não pode terminar aí”, escreveu Francis DeBernardo. Para ele, a instituição terá de dar provas das suas boas intenções no próprio sínodo, permitindo que representantes dos católicos LGBT tenham voz no encontro católico. 

    “Como eles conduzirão de fato o sínodo e, principalmente, o que o documento final do sínodo dirá é muito mais importante”, disse DeBernardo ao jornal americano.

    Mulheres, fake news e abusos

    Além da diversidade sexual, outros temas propostos por jovens católicos à Igreja deverão fazer parte do encontro de bispos com o Papa em outubro. Entre eles, desemprego, aborto, uso de contraceptivos, fake news e maior presença de mulheres em postos importantes da Igreja.

    “Jovens consideram necessário lidarmos com certas dificuldades do nosso tempo, como o reconhecimento e o apreço pelo papel das mulheres na Igreja e na sociedade”, diz o texto do Instrumentum Laboris, que ainda nota o pedido de jovens para que o Vaticano “fortaleça sua política de tolerância zero contra abuso sexual”, em referência a casos envolvendo padres católicos. 

    “Para trilhar esse caminho, temos de estar abertos ao novo, ter coragem de explorar, resistir à tentação de reduzir o novo ao já conhecido (...) Um caminho assim construído nos convida a perguntar e provocar questionamentos sem sugerir respostas pré-elaboradas.”

    Vaticano

    Instrumentum Laboris

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