Quem foi Jalal Nuriddin, poeta celebrado como um dos pioneiros do rap

Artista morreu em junho de 2018. Trabalhos seus com Last Poets e como Lightnin' Rod influenciaram tanto gangstas como rappers políticos

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    O poeta e músico americano Jalal Mansur Nuriddin é chamado por muitos de “avô do rap”. Ele morreu em 4 de junho de 2018, aos 74 anos, de câncer do pulmão. Trabalhos seus da década de 1970, com os Last Poets ou como Lightnin’ Rod, são reverenciados por gerações de rappers dos Estados Unidos como fundamentais para a forma e o conteúdo de seu gênero musical.

    Nos Estados Unidos da década de 1960, jovens poetas negros inspirados nos movimentos pelos direitos civis, começaram a tomar o microfone para enviar mensagens de denúncia e resistência. Intitulavam-se os Last Poets, os “últimos poetas”, nome inspirado em versos do poeta sul-africano Keorapetse Kgositsile que anunciavam o fim da poesia diante do avanço das armas.

    Entre os vários jovens poetas que formaram grupos utilizando o nome, Jalaluddin Mansur Nuriddin foi um dos mais proeminentes. Inicialmente assinando como Alafia Pudim, ele adotou o nome árabe em 1973 depois de se converter ao islamismo.

    Nuriddin teria aprendido a declamar na época em que foi ficou preso. O motivo da detenção nunca foi conhecido, mas sabe-se que na juventude o músico fez parte de uma gangue de rua do Brooklyn, em Nova York. Algum tempo depois, aceitou uma oferta de redução de sentença, mediante alistamento para a Guerra do Vietnã. Foi preso novamente quando se recusou a saudar a bandeira americana durante uma parada militar.

    A palavra engajada dos Last Poets

    Em um documentário para TV de 2010, um dos Last Poets, Gylan Kain, explica que a referência inicial para os trabalhos do grupo veio de um formato muito popular no circuito alternativo de Nova York: poetas “beat” declamando sobre bases de jazz.

    Os discos e shows dos Last Poets eram sempre falados, ou “spoken word”, na classificação em inglês. Entretanto, graças a performances dinâmicas dos integrantes e à sonoridade rítmica dos músicos que os acompanhavam, os Last Poets colocaram a poesia num lugar muito vivo e animado.

     

    O primeiro álbum, “The Last Poets” (1970), deixa clara que a mensagem do grupo vinha sem atenuantes. Na faixa “Niggers are scared of revolution” (negros têm medo de revolução, em tradução livre) o grupo questiona o suposto progresso representado pela conquista da igualdade nos direitos civis. “Negros sempre passando por mudanças enganosas/Mas quando chega a hora da mudança verdadeira/Negros têm medo de revolução”.

    O disco seguinte, “This is madness”, falou sobre um tema atual, a tecnologia que oprime e aliena, em “The mean machine”: “Fico triste de ter de cumprir obrigações/Com a programação que noticia mentiras douradas/Seus olhos não podem acreditar/Imaginam a mágica do Demônio no mais novo aparelho da Máquina Maldosa”.

    Depois de uma série de álbuns na década de 1970, discos dos Last Poets saíram em ritmo menor nos anos 1980 e 1990. Após um hiato de duas décadas, 2018 viu o lançamento de “Understand what black is”.

    Influência no hip hop

    Em 1973, sob a alcunha de Lightnin’ Rod, Nuriddin lançou “Hustlers convention”. As músicas do disco contam a história de dois garotos do gueto envolvidos em uma vida de crimes e ostentação. O álbum é visto como um precursor do arquétipo “gangsta” adotado na década de 1990 por artistas do rap como Tupac Shakur e Eazy-E.

    No nascedouro do hip hop - as festas de rua do Bronx -, os Last Poets já estavam lá, em apresentações no microfone ou com sua música tocada pelos DJs. Figuras proeminentes do rap, como Nas, Wu-Tang Clan, Beastie Boys e Public Enemy reconheceram a importância do trabalho do grupo. Para Chuck D, do Public Enemy, “Hustlers convention” era uma “bíblia verbal” para quem queria entender a vida nas ruas do gueto.

    Nuriddin não se impressionava muito com isso. “Nem penso sobre rap”, disse ao site Noisey. Para ele a indústria impunha aos MCs que falassem sobre “bobagem, reclamassem da vida, se gabassem sobre suas mulheres, drogas, dinheiro, ego - contanto que não seja relevante para a libertação dos corações e mentes das pessoas”.

     

    Em mais de uma ocasião, Nuriddin lembrou que raras vezes foi pago por artistas mais novos que samplearam sua obra. Uma exceção teria sido Questlove, do The Roots, com quem mantinha amizade. Durante um período de dificuldades, o poeta e músico recebeu a ajuda financeira de US$ 1.000 do rapper.

    Outros músicos, como Miles Davis e Quincy Jones, eram admiradores do trabalho dos Last Poets. Nuriddin também chegou a gravar com Jimi Hendrix. A colaboração entre suas rimas e a guitarra de Hendrix foi lançada como single na década de 1980, acrescida de uma batida mais moderna.

    ESTAVA ERRADO: Na primeira versão desta matéria, Questlove foi identificado como membro do A Tribe Called Quest. A correção foi feita às 12h05 de 21 de junho de 2018.

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