Ir direto ao conteúdo

A doença que ameaça a produção mundial de bananas

Fungo TR4 vem destruindo plantações na Ásia e pode chegar à América Latina em breve. Embrapa está em alerta contra chegada da infecção ao Brasil

     

    Uma doença causada por um fungo se tornou uma preocupação nesta década para governos, entidades e produtores de banana graças a seu potencial de devastar o cultivo de uma das frutas mais consumidas do mundo.

    O fungo TR4, uma variação tropical do Fusarium wilt, entra na planta pela raiz e depois avança pelo chamado pseudocaule. As folhas da bananeira ficam amareladas e murchas, culminando na morte da planta.

    O TR4 foi detectado pela primeira vez em 1994, em Taiwan. Até esta década, estava restrito ao sudeste asiático. Em 2014, entretanto, foram registrados casos na Jordânia e na África. Especialistas acreditam que é questão de tempo até ele chegar à América Latina, a maior região bananeira do planeta.

    US$ 5 bilhões

    Prejuízo anual causado pelo mal-do-Panamá, segundo a FAO

    No Brasil, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), ligada ao Ministério da Agricultura, já alerta sobre a chegada do fungo ao país desde 2014. Em 2017, o órgão incluiu o TR4 em sua lista de pragas quarentenárias, o que significa que portos e aeroportos devem ser monitorados no sentido de impedir a chegada do fungo no país por meio de mudas, solo ou fibras contaminadas.

    “Ele pode ser trazido até em artesanato feito com fibras do pseudocaule, que é justamente onde o fungo fica”, explicou ao Nexo Fernando Haddad, fitopatologista e pesquisador do Embrapa e especialista.

    A gravidade da doença

    O mal-do-Panamá ou fusariose da bananeira é considerado a doença mais destrutiva da cultura da banana. É causada por fungos, entre eles Fusarium oxysporum. A primeira variante registrada do fungo, chamada “Raça 1”, devastou plantações da banana Gros Michel, a variedade mais consumida mundialmente até a década de 1950. Duas décadas depois, o Raça 1 praticamente aniquilou a banana-maçã da paisagem brasileira.

    Segundo especialistas, a melhor estratégia para o controle do fungo é a “resistência genética”

    O nome da doença advém do fato de ter sido detectada pela primeira vez no Panamá. Ela vem se espalhando por outros países da América Central, tradicionais exportadores de banana. Em algumas décadas, havia atingido proporção de epidemia.

    A destruição causada pelo fungo foi tamanha que a única saída foi migrar para um cultivar de banana resistente a ele. Chamado Cavendish, a fruta é considerada menos saborosa que a Gros Michel. Atualmente, a banana Cavendish, que inclui a nossa nanica, é uma das variantes mais consumidas do planeta.

    Essa variedade entretanto, não é imune ao TR4, que já infectou “dezenas de milhares de hectares” de plantações de Cavendish na China, Indonésia, Malásia, Filipinas e Austrália, de acordo com o site Panama Disease, mantido e apoiado por entidades governamentais e de comércio de todo o mundo, incluindo a Embrapa.

    Nas Filipinas, a infecção contribuiu para fazer a exportação cair de 3,7 milhões de toneladas, em 2014, para 1,9 milhões de toneladas no ano seguinte.

    Como controlar o fungo

    Segundo especialistas, a melhor estratégia para o controle do fungo é a “resistência genética”, ou seja, a criação de espécimes com capacidade de resistir ao agente infeccioso. Agrotóxicos (ou defensivos agrícolas) não aparecem citados como recurso contra o mal do Panamá em sites especializados.

    “Se ela entrar, será muito difícil de erradicar”

    Fernando Haddad

    Pesquisador do Embrapa

    Cientistas em vários países tentam desenvolver variedades geneticamente modificadas que resistam ao TR4. O jornal britânico The Guardian recentemente destacou a pesquisa de uma start-up inglesa chamada Tropic Biosciences. A empresa conseguiu fazer a edição genética de uma célula da bananeira para que resista ao fungo.

    De acordo com Haddad, a Embrapa realiza pesquisas de aprimoramento genético há muito tempo, por meio de cruzamentos entre plantas para seu “melhoramento preventivo”, mas apenas em relação à Raça 1 do fungo. Para o especialista, a variação TR4 é mais problemática e agressiva. “Se ela entrar, será muito difícil de erradicar”, alertou Haddad.

    A Embrapa afirma que mantém parcerias com centros de pesquisa de países onde a doença já existe, como a Universidade de Queensland, na Austrália, e a Academia de Ciência de Guangdong, na China, ou em locais que possam manipular o TR4 sem riscos, como a Universidade de Wageningen, na Holanda. O desenvolvimento de um método de diagnóstico específico para o fungo está entre os projetos que resultaram das parcerias.

    Existem hoje pelo menos 50 variedades suscetíveis ao TR4, o que converte esse patógeno em uma séria ameaça para a bananicultura mundial. Entre elas está a variedade mais consumida no Brasil, a prata, que é um tipo diferente da Cavendish.

    Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), em alerta de 2014 sobre o mal-do-Panamá, a doença pode causar prejuízos de US$ 5 bilhões ao ano ao mercado de banana. O mercado de exportações da fruta é avaliado em US$ 13 milhões.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão da linha fina deste texto afirmava que o mal-do-Panamá poderia atingir a América Latina em breve. Na realidade, é o fungo TR4 que pode chegar ao continente. O texto foi corrigido às 17h10 de 29 de junho de 2018.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!