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Esta pesquisa estima o tempo até pobres obterem renda média no Brasil

Relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico traz recomendações de políticas públicas que levam à queda de desigualdade

 

Com sede em Paris, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) tem entre seus 34 membros algumas das maiores economias do mundo.

O Brasil não tem status de membro pleno do bloco, mas sim de “parceiro-chave”. Isso faz com que muitos dos relatórios sobre sociedade e economia feitos periodicamente pelo grupo abordem também a realidade brasileira.

No dia 15 de junho, a OCDE lançou um relatório que fala sobre desigualdade e mobilidade social, focando nas populações que compõem os 20% mais pobres e os 20% mais ricos em 30 países analisados.

Intitulado “Um elevador social quebrado? Como promover mobilidade social”, o documento analisa a questão a partir de dois ângulos: o quanto uma pessoa pobre tende a ascender durante sua vida, e o quanto os descendentes de famílias pobres tendem a ascender com o tempo em cada país. Ou seja, analisa tanto mobilidade individual quanto intergeracional.

O documento ressalta que o Brasil experienciou queda na desigualdade de renda desde os anos 2000, ao contrário de outros países não desenvolvidos que fazem parte da análise, como China, Indonésia e África do Sul, que ficaram mais desiguais.

Segundo a pesquisa, a mobilidade social de pessoas que fazem parte dos 20% mais pobres durante o período de suas vidas é relativamente alta, enquanto entre os 20% mais ricos a mobilidade é média. São, no entanto, recorrentes períodos de baixa renda no Brasil, devido a desemprego, por exemplo.

Por isso, pessoas que ascendem da renda baixa para a média retornam, frequentemente, à pobreza, e a mobilidade não se transforma em uma mudança profunda na sociedade, diz o relatório.

  • No Brasil, 35% das pessoas cujos pais estão entre os 20% mais pobres se mantiveram dentro dessa parcela da população entre o período de 2011 a 2014. Na média dos países da OCDE, 31% permaneceram nessa parcela da população.
  • Desse grupo, apenas 7% passaram a integrar os 20% mais ricos entre o período de 2011 a 2014. Na média da OCDE, 17% chegaram a essa parcela

O Brasil se sai pior em se tratando de mobilidade entre gerações. O relatório analisou quanto tempo demoraria para que os filhos das famílias que compõem os 20% mais pobres da população atingissem a renda média, em cada país.

Dos 30 países analisados, o Brasil é o segundo pior, empatado com a África do Sul.

A estimativa é que o tempo para atingir renda média seria de nove gerações. O pior colocado, ou seja, o país em que se levaria mais tempo para que famílias ascendessem socialmente das faixas mais pobres para as médias, é a Colômbia, com estimativa de 11 gerações, ou 300 anos.

O trabalho destaca que permanecer entre os 20% mais pobres em países que não são desenvolvidos significa obter uma renda ainda menor do que a dos 20% mais pobres de países desenvolvidos.

Pobres e renda média

 

Por que a mobilidade social é desejável

O relatório aponta que há sinais de que a mobilidade social tem diminuído desde os anos 1990 no conjunto dos países da OCDE.

Para o conjunto do grupo, uma proporção maior do que anteriormente daqueles que estão no topo ou na base da distribuição de renda tende a manter essas posições durante suas vidas. O mesmo vale para seus descendentes.

O trabalho aponta alguns pontos que fazem  a mobilidade social ser desejável, dentre eles:

Desenvolvimento pessoal

A falta de mobilidade significa que muitos talentos em potencial não se desenvolvem plenamente por falta de acesso a recursos.

Desenvolvimento da economia

Isso vale também para investimentos em negócios que deixam de se concretizar. ‘Isso prejudica a produtividade e o crescimento econômico’, afirma o relatório.

Desigualdade

A falta de mobilidade social também significa que as mesmas pessoas ou famílias tenderão a concentrar propriedades. Consequentemente, concentrarão também ganhos a partir do trabalho daqueles que estão abaixo. Isso pode acontecer diretamente, com funcionários de uma empresa, ou indiretamente, com o pagamento de aluguel, por exemplo.

Segundo o documento ‘a acumulação de oportunidades é ruim para a sociedade e leva a altos custos em eficiência’.

Satisfação pessoal

De acordo com o documento, há estudos sugerindo que a perspectiva de mobilidade social para cima contribui para uma maior satisfação de vida e sensação de bem estar.

Por outro lado, o risco de mobilidade social para baixo e perda de status tende a reduzir a satisfação das pessoas e autoestima, além ‘do sentimento das pessoas de que suas vozes contam, particularmente entre aqueles de renda média ou baixa’.

Isso pode levantar questionamentos sobre o funcionamento do sistema que gere o país, levando a perda de coesão social.

De acordo com o relatório, não há sinais de que uma desigualdade maior levaria a maior mobilidade de renda de uma pessoa durante sua vida, ou no decorrer de gerações, pelo contrário.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, o que pode ser um dos pontos que contribuem para a sua baixa mobilidade.

O que o relatório recomenda

“Não há nada inevitável em relação à vantagem ou desvantagem socioeconômica ser passada de uma geração para outra”, ou se manterem durante a vida de uma pessoa, afirma o relatório. Há políticas públicas com poder de influenciar esse cenário. Entre aquelas recomendadas pelo trabalho estão:

Educação

O relatório recomenda garantir educação de qualidade para crianças e criar mecanismos para impedir o abandono das escolas, e afirma que o sistema educacional brasileiro é ‘certamente uma das razões’ para a persistente desigualdade. Segundo o documento, a qualidade da educação é baixa, e o acesso a creches é difícil, em especial para famílias pobres. O trabalho sugere uma distribuição melhor dos gastos públicos. Por exemplo: transferindo recursos do ensino superior para os níveis inferiores.

Saúde

Doenças graves podem significar custos para indivíduos e suas famílias, que têm que pagar por tratamentos e eventualmente perder a renda que provinha do salário de quem adoece. A garantia de seguros-saúde para famílias pobres amortece esse fardo financeiro e diminui o risco de que escorreguem para camadas ainda mais baixas. O trabalho recomenda focar os gastos em saúde nos problemas mais importantes dos mais pobres.

Transferência de renda

Programas de garantia de renda, como o seguro desemprego, também amortecem os choques financeiros pelos quais famílias podem passar. O trabalho recomenda a realocação de recursos para programas voltados aos mais pobres, como o Bolsa Família.

Menos acumulação

O trabalho também recomenda políticas fiscais que privilegiem a distribuição de renda. Entre elas, sistemas de impostos progressivos, que favorecem uma taxação maior de acordo com a renda; e impostos sobre herança, que diminuem o volume de recursos que permanece indefinidamente em uma mesma família privilegiada.

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