As fontes originais da Bauhaus. E o projeto que as recria para o digital

Trabalhos inacabados de mestres da histórica escola alemã voltam à vida atualizados por designers, dentre eles uma brasileira

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    Em 1933, o regime nazista alemão fechou as portas da Bauhaus, uma das mais importantes e influentes escolas de design do mundo. Fundada há quase 100 anos, em 1919, logo após o término da Primeira Guerra Mundial, a escola de construção, arquitetura e design gráfico revolucionou ao derrubar a parede entre as belas-artes e as chamadas artes visuais aplicadas. “O artista é uma elevação do artesão”, dizia seu manifesto.

    Nesta segunda-feira (11), a empresa de software Adobe tornou público o projeto que resgatou, nas suas palavras, tesouros e trabalhos inacabados e perdidos para o mundo, feitos por professores e artistas que passaram pela icônica escola alemã antes do abrupto fechamento.

    Os tais “tesouros” são cinco fontes tipográficas originais, desenhadas sob os fundamentos da Bauhaus pós-1925, já na sua nova sede em Dessau, por professores e alunos de então como Joost Schmidt, Xanti Schawinsky, Carl Marx, Alfred Arndt e Reingold Rossig.

    O projeto atual partiu desses trabalhos das décadas de 1920 e 1930 e escalou uma equipe de cinco estudantes de design – que conta com uma brasileira, a carioca Flavia Zimbardi –, coordenados pelo experiente tipógrafo alemão Erik Spiekermann, para fazer os ajustes necessários a fim de tornar essas tipografias aptas para serem usadas hoje no ambiente digital.

    “Fazer algo no computador é diferente de desenhar num pedaço de papel milimetrado [graph paper] com uma régua e esquadro. Mas esse é o ponto da coisa”, disse Spiekermann, comentando o trabalho feito pela equipe.

    Fontes Bauhaus

    O tipógrafo à frente do projeto diz que a meta é chegar a tipografias que consigam manter o espírito industrial da época e “inspire uma nova geração de designers”.

    Originalmente, como definiu o professor László Moholy-Nagy – citado pelo professor e pesquisador americano Philip B. Meggs, no seu fundamental “História do Design Gráfico” (1983) –, uma tipografia deve ser uma ferramenta de comunicação “em sua forma mais intensa”, focada na “clareza absoluta” e nunca prejudicada “por um estética a priori”.

    “Queremos criar uma linguagem da tipografia cuja elasticidade, variabilidade e vitalidade de composição tipográfica [sejam] ditadas exclusivamente pela lei interna de expressão e pelo efeito ótico.”

    László Moholy-Nagy

    Professor da Bauhaus

    As fontes feitas originalmente por Schmidt (autor do histórico poster de 1923 da escola) e Schawinsky já estão disponíveis para download no site da Adobe. As demais serão disponibilizadas “em breve”.

    Foto: Reprodução/Adobe
    Joschmi

    Joschmi

    A primeira fonte liberada pela Adobe, batizada de Joschmi, tem como base o trabalho do tipógrafo alemão Joost Schmidt (1893-1948). O material original consistia em um esboço com as seguintes letras, apenas: a, b, c, d, e, g. O desafio de concluir todo o restante da tipografia mantendo o conceito original – baseado em formas geométricas e na técnica do estêncil –, caiu nas mãos da brasileira Flavia Zimbardi. “Nem nos meus sonhos mais loucos eu me imaginei fazendo isso. Mas aconteceu”, ela disse pelo Twitter.

    Foto: Reprodução/Adobe
    Xants

    Xants

    A segunda, chamada Xants, parte do trabalho do suíço Xanti Schawinsky (1904-1979), que em 1932 criou um alfabeto inteiro moderno, com contraste de strokes (os elementos retos ou curvilíneos que compõem uma letra) e o estilo estêncil. O desenvolvimento restante – pontuações, símbolos matemáticos ou de moedas atuais – foi todo feito pelo designer italiano Luca Pellegrini.

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