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Os diários inéditos de Albert Einstein que revelam racismo e misoginia

Alguns dos escritos do físico reunidos durante suas viagens por China, Índia e Japão são ‘desagradáveis’, ‘desumanizantes’ e misóginos

     

    Em 1946, o famoso físico alemão Alberto Einstein fez um discurso memorável a formandos da Universidade de Lincoln, umas das universidades negras dos Estados Unidos.

    Embora seu registro na íntegra tenha se perdido, alguns trechos foram resgatados, como o que ele comenta a política de segregação racial vigente até 1964 no país:

    “Há uma separação de pessoas de cor [negras] e brancas nos EUA. Essa separação não é uma doença das pessoas de cor. É uma doença das pessoas brancas. Eu não pretendo ficar quieto sobre isso.”

    Albert Einstein

    Essa versão combatente e contrária ao racismo destoa do Einstein de duas décadas anteriores. Em seu diário, entre 1922 e 1923, o cientista fez anotações durante uma viagem à China que “revelam Einstein estereotipando membros de várias nações” e “levantam questões sobre suas atitudes em relação à raça”.

    Os comentários acima são do australiano Ze’ev Rosenkranz, pesquisador do Instituto de Tecnologia da Califórnia e diretor do Einstein Papers Project, que reúne e publica escritos inéditos do físico. O exemplo mais recente é o livro que reúne os diários inéditos de uma viagem de cinco meses e meio de Einstein e sua então esposa Elsa por regiões e países como Hong Kong, Singapura, Espanha, Palestina e China.

    Segundo Rosenkranz, há no livro (veja trecho) relatos sobre seu discurso na Hebrew University, em Jerusalém, sobre uma festa no Japão que contou com a presença da então imperatriz ou uma reunião com o rei da Espanha. Além de comentários do recém-laureado Nobel sobre filosofia, arte, política e, claro, ciência.

    Já suas impressões sobre chineses, bem como seus pensamentos sobre japoneses e indianos “nos parecem bem desagradáveis”, diz Rosenkranz.

    Imundos e estúpidos

    Sobre chineses, ele anota se tratarem de um povo “imundo e estúpido”. “Mesmo as crianças são desanimadas [spiritless] e parecem burras [obtuse]”, escreveu. Ele comenta como os chineses observados por ele comiam agachados, “como os europeus fazem quando se aliviam no mato”.

    O físico fez comentários depreciativos sobre a quantidade “abundante” de filhos gerados pelos chineses e disse:

    “Seria uma pena se esses chineses suplantarem todas as outras raças. Para a nossa gente, a mera ideia é indescritivelmente sombria.”

    Albert Einstein

    No livro “The Travel Diaries of Albert Einstein - The Far East, Palestine, and Spain, 1922 - 1923”

    Einstein ressalta o caráter trabalhor da população na China da década de 1920, mas de modo nada enaltecedor. “Até aqueles que se resumem a trabalhar feito cavalos nunca dão a impressão de um sofrimento consciente”, diz classificando-os de “rebanho” que mais parecem “autômatos do que pessoas”.

    Rosenkranz nota que, além do caráter xenófobo dos comentários, Einstein deixou anotações que demonstram “extrema misoginia”. “Eu percebi o quão pequena é a diferença entre homens e mulheres”, escreveu o físico sobre os chineses. “Eu não entendo que tipo de atração fatal as chinesas possuem que encantam os homens a tal ponto que eles são incapazes de se defender contra a formidável benção de gerar filhos.”

    Suas observações sobre a população japonesa são bem diferentes. Para Einstein, os japoneses são “modestos, decentes e muito atraentes”. “Almas puras como em nenhum outro lugar”, anotou, antes de dizer que era difícil não “amar e admirar esse país”. Ainda assim, o físico questionou se havia uma explicação “natural” para uma suposta maior capacidade artística do que intelectual do povo do Japão.

    Intolerância relativa

    O pesquisador Ze’ev Rosenkranz diz que Einstein escreveu sem a intenção de ter os comentários à vista do público algum dia. E, também por isso, contrastam com a imagem pública do cientista, associada com frequência a de um “grande ícone humanista”.

    Para Rosenkranz, a publicação vem em momento oportuno, em razão do “ódio pelo outro” ainda tão constante “em tantos lugares do mundo”. “Até mesmo Einstein parece ter tido muita dificuldade em se reconhecer frente ao mundo.”

    O especialista diz que os comentários de Einstein, relacionando origem biológica com inferioridade intelectual, são claramente racistas e desumanizantes.

    “As outras pessoas são retratadas como sendo inferiores biologicamente, uma marca clara de racismo”, diz Rosenkranz, na introdução do livro. “O inquietante comentário de que chineses podem ‘suplantar todas as outras raças’ é também muito revelador disso.”

    Ao jornal inglês The Guardian, Rosenkranz diz que considerar os registros de Einstein como racistas não é cometer um anacronismo, ou seja, julgar suas ideias na época por valores atuais. “Essa é a reação que eu costumo receber: ‘Nós temos que entender, ele estava no zeitgeist, parte do seu tempo’. Mas acho que eu tentei aqui e ali dar um contexto mais amplo. Havia outras visões por aí [na época], visões mais tolerantes.”

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