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Por que avós têm papel central na evolução humana, segundo estas pesquisas

Cientistas contestam ideia tradicional dos homens como 'provedores' do alimento da comunidade

     

    As avós têm um papel especial na perpetuação da espécie humana desde a época em que éramos caçadores-coletores. Na contramão da ideia tradicional dos homens como “provedores” da comunidade, mulheres pesquisadoras vêm propondo uma outra visão nas últimas décadas.

    O biólogo evolutivo americano George C. Williams foi um pioneiro da teoria conhecida como “hipótese da avó”, em 1966. A hipótese tenta entender por que fêmeas humanas vivem muitos anos depois do fim de sua capacidade de reprodução.

    A teoria ganhou força com as pesquisas da antropóloga americana Kristen Hawkes, iniciadas na década de 1980. Hawkes, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, estudou grupos de caçadores-coletores como os Hadza, da Tanzânia, e os Aché, do Paraguai.

    No caso dos Hadza, ela observou que raramente os homens voltavam com um grande animal de suas caçadas. Ela constatou que, ainda que saíssem todo dia, os caçadores eram bem-sucedidos em apenas 3,4% de suas empreitadas.

    A equipe da pesquisadora percebeu que o alimento nesse povo era trazido principalmente pelas mulheres. Mães, avós e outras mulheres faziam incursões diárias para escavar tubérculos, a principal fonte de alimentação da comunidade. Tubérculos são trabalhosos de desenterrar então o crescimento de uma criança se correlacionava com a capacidade de uma mãe de conseguir extrair esse tipo de alimento. Quando um segundo filho nascia, o papel da avó em ajudar a prover comida se tornava ainda mais importante para a sobrevivência de uma família. A descoberta, segundo Hawkes disse ao site da rádio pública NPR, é “assombrosa”.

     

    Entre os primatas, os humanos são a única das espécies grandes em que as mulheres vivem bastante tempo depois de sua idade reprodutiva. Provavelmente, a seleção natural permitiu que mulheres cada vez mais velhas sobrevivessem, pois isso teria impacto na sobrevivência da prole.

    Evolução e cooperação

    Sarah Hrdy, autora de “Mãe natureza: uma visão feminina da evolução”, também enfatizou a importância da ajuda de outras pessoas além da mãe para o sucesso da espécie humana do ponto de vista evolutivo. Primatologista na Universidade de Davis, Califórnia, ela defendeu essa visão em “Mothers and others: the evolutionary origins of mutual understanding” (Mães e outros: as origens evolucionárias do entendimento mútuo, em tradução livre)

    Em entrevista à NPR, a pesquisadora afirmou que “um primata que produz uma cria tão trabalhosa e de lento desenvolvimento como nós não poderia ter evoluído se as mães não tivessem bastante ajuda”. Para ela, as avós estariam entre as ajudantes mais importantes.

    A cientista acredita que essa descoberta ajuda também a entender nossa propensão à socialização e à empatia, mais do que a necessidade de se unir para grandes caçadas ou para combater povos inimigos. Hrdy lembra que nossos atributos “sociais” aparecem bem cedo: bebês interagem com outras pessoas além da mãe nos primeiros meses, diferentemente de orangotangos e chimpanzés.

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