O guia das ‘incríveis artistas vistas como menos importantes que os maridos’

Novo livro de artista visual Beatriz Calil reúne 16 biografias de mulheres ofuscadas pelas figuras dos companheiros, como Camille Claudel e Zelda Fitzgerald

    Foto: Reprodução
    Imagem de capa do 'Pequeno guia de incríveis artistas mulheres que sempre foram consideradas menos importantes que seus maridos'
     

    Com lançamento marcado para o dia 16 de junho de 2018 em São Paulo, o livro “Pequeno guia de incríveis artistas mulheres que sempre foram consideradas menos importantes que seus maridos” é o primeiro publicado pela artista visual Beatriz Calil.

    Foi editado pela editora independente Urutau, baseada em Bragança Paulista, em São Paulo, com uma pequena tiragem, mas, segundo a editora, alcançou projeção inesperada a partir do evento de lançamento no Facebook.

    A publicação surgiu de histórias que a artista já conhecia, como a da escultora Camille Claudel.

    Claudel nasceu na França, em 1864. Foi aluna do também escultor Auguste Rodin. Com 19 anos, tornou-se amante do artista de 43. Quando começou a expor suas obras, no início do século 20, seu mérito como escultora passou a ser reconhecido, mas sempre associado e mesmo atribuído a Rodin.

    Diagnosticada com um transtorno mental anos antes, a artista foi internada à força por seu irmão, Paul Claudel, em 1913, em um hospício na França. Permaneceu na instituição até sua morte, em 1943. Foi enterrada lá mesmo, em uma vala comum.

    Antes da internação, destruiu muitas de suas obras e acusou Rodin de ter roubado várias outras, assinadas como se fossem dele.

    Foto: Reprodução/Imagem cedida ao Nexo pela editora
    Foto de Camille Claudel ao lado de Rodin, apagado pela artista Beatriz Calil, presente no 'Pequeno Guia'
     

    Por Calil trabalhar com fotografia e intervenções em imagens, o projeto do livro partiu de uma série de fotos das artistas com seus companheiros.

    “Todo esse meu trabalho partiu, na verdade, das fotos das artistas com os maridos. Comecei a interferir nessas imagens. Em muitas delas, fica claro que o importante ali é o marido. A mulher está sorrindo olhando para ele, ou ele está em maior destaque. E muitas são divulgadas com legendas como ‘Picasso e a amante’, ‘fulano e a esposa’”. Comecei a buscar inverter isso na própria imagem.”

    Beatriz Calil

    Em entrevista ao Nexo

    As pesquisas sobre outras artistas com histórias semelhantes e os textos para o livro surgiram em um segundo momento. 

    Calil selecionou 16 artistas estrangeiras, nascidas no século 19 e 20. “Estou preparando um outro trabalho só com artistas brasileiras, então deixei para esse só as estrangeiras”, disse Calil, em entrevista ao Nexo.

    “Exemplos de artistas apagadas ou ofuscadas pelos maridos são infinitos”, disse Calil. “Na verdade, minha intenção é falar de uma coisa global, não específica. O livro é muito mais sobre artistas mulheres do que sobre essas artistas mulheres, especificamente.”

    Foto: Reprodução/Imagem cedida ao Nexo pela editora
    Foto de Eleonora Carrington ao lado do companheiro, apagado pela artista Beatriz Calil
     

    Em cada um dos textos biográficos curtos, a estrutura do texto se repete: apresenta a trajetória da artista e, no último parágrafo, sintetiza a opressão que sofreu, suas realizações e competências e, por último, a alcunha de namorada, esposa ou “amante de”.

    “Zelda foi vítima de um marido abusivo e autoritário. Zelda foi escritora, foi bailarina, foi pintora. Zelda é mundialmente conhecida como ‘esposa do escritor Scott Fitzgerald’”, diz o texto sobre a artista Zelda Fitzgerald.

    Foto: Reprodução/Imagem cedida ao Nexo pela editora
    Foto de Zelda Fitzgerald ao lado de F. Scott Fitzgerald, apagado pela artista Beatriz Calil, presente no 'Pequeno Guia'

    “O que liga essas artistas e muitas outras é que são mulheres com uma competência artística incrível, que não puderam aparecer ou por estarem dentro de casa, cuidando do lar e dos filhos, ou pelo comportamento abusivo dos maridos”, disse a autora.

    “As que estão no livro de uma certa forma ainda conseguiram ficar famosas, mas muitas devem ter sumido.”

    Mulheres artistas hoje

    No epílogo, a autora apresenta dados atuais e locais da desigualdade de gênero na arte, levantados por ela própria.

    Foto: Reprodução/Imagem cedida ao Nexo pela editora
    Foto de Frida Kahlo ao lado de Diego Rivera, apagado pela artista Beatriz Calil, presente no 'Pequeno Guia'
     

    São estatísticas de artistas homens e mulheres representados por galerias de arte de São Paulo (elas são minoria em todas as dez listadas), das galerias brasileiras presentes na edição de 2017 da SP Arte e o levantamento de exposições individuais de artistas homens e mulheres nas instituições paulistanas Masp, MAC, Pinacoteca de São Paulo e Instituto Tomie Ohtake.

    “Como feminista engajada, quero e preciso crer que [desde a época das mulheres abordadas no livro] a coisa melhorou. Mas não resolveu. Está um pouco menos grave do que era nessa época. Fiz esse epílogo porque o problema persiste”, disse a autora.

    O Nexo reproduz abaixo esse último levantamento, segundo o livro:

    Masp (de 2007 a 2017)

    31

    exposições individuais de artistas homens

    6

    exposições individuais de mulheres

    MAC-SP (2008 a 2017)

    27

    exposições individuais de artistas homens

    2

    exposições individuais de mulheres

    Instituto Tomie Ohtake (2013 a 2017)

    17

    exposições individuais de artistas homens

    7

    exposições individuais de mulheres

    Pinacoteca de São Paulo (2010 a 2017)

    75

    exposições individuais de artistas homens

    19

    exposições individuais de mulheres

    “Em todo museu, galeria, feira de arte em que a gente entrar hoje em dia, a gente vai ver que a imensa maioria ainda [de artistas] é homem. E claro que não é porque os homens são melhores ou mais interessados em arte. É porque as mulheres são apagadas”, disse Calil.

    “Como artista visual mulher, me deparo com isso [essa desigualdade] todos os dias. Eu e minhas amigas artistas sempre comentamos que quando a gente se inscreve em um concurso ou edital, a gente sabe que a nossa chance é menor. Isso é dado. Os museus e galerias priorizam os homens, mesmo que não de forma consciente”, complementou. 

     

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