As dimensões política, militar e midiática da reunião Trump-Kim

Declaração conjunta traz apenas quatro pontos. Mas resultado da cúpula inédita, realizada em Singapura, vai muito além do que consta no papel

 

 

Depois de cinco horas de reuniões e de declarações superlativas à imprensa, os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Coreia do Norte, Kim Jong-un, divulgaram o resultado da cúpula até a tarde de 12 de junho de 2018: uma declaração conjunta composta por quatro pontos. São eles:

  • Estabelecer relações entre os EUA e a Coreia do Norte para a busca da paz e da prosperidade
  • Unir esforços para a construção de um regime de paz e de estabilidade na Península Coreana
  • Trabalhar na direção da completa desnuclearização da Península Coreana
  • Encontrar e repatriar restos mortais resultantes das hostilidades militares ativas que marcaram a relação entre as Coreias no período entre 1950 e 1953

O documento sucinto foi assinado por ambos na Ilha de Sentosa, localizada no sul de Singapura. O encontro entre Trump e Kim teve início às 9h04 desta terça-feira (12), no horário local, o que corresponde às 22h04 desta segunda-feira (11), no horário brasileiro.

Alguns elementos fizeram com que esse encontro tenha sido considerado histórico por seus protagonistas, para além do próprio acordo assinado:

  • Os presidentes dos dois países nunca haviam se encontrado
  • EUA e Coreia do Norte não mantêm relações diplomáticas
  • A reunião ocorre no auge das tensões nucleares entre os dois países: americanos e norte-coreanos possuem arsenais atômicos e vinham fazendo ameaças públicas de usá-los.

Para os EUA, o objetivo era o fim do programa nuclear norte-coreano. Para a Coreia do Norte, era o fim dos exercícios militares americanos na fronteira e o levantamento dos embargos e sanções impostos ao país.

Nada disso foi anunciado com clareza ao fim do encontro. Entretanto, existe a partir de agora um compromisso público mútuo de continuar trabalhando nessa direção.

Há ainda outras dimensões importantes a entender. Porém, é preciso saber, primeiro, qual o caminho que levou americanos e norte-coreanos até o presente momento.

 

Qual a história da guerra entre as Coreias

A Península Coreana foi dominada pelo Japão de 1910 a 1945. Após a Segunda Guerra Mundial (1945), os japoneses, derrotados, se retiraram, e a Península foi dividida entre duas das potências vencedoras: os Estados Unidos e a União Soviética.

 

Os soviéticos passaram a controlar o norte, comunista, e os americanos, o sul, capitalista. A partir de 1950, coreanos das duas partes se engajaram numa guerra aberta, que se manteve ativa até 1953. A guerra era considerada uma “guerra por procuração”, na qual os beligerantes representam em grande medida o interesse de potências estrangeiras, que não estão, elas mesmas, com forças sobre o terreno.

Os interesses em jogo diziam respeito às disputas em curso na Guerra Fria de maneira geral, com os EUA e a URSS (União das Repúblicas  Socialistas Soviéticas) tentando expandir suas áreas de influência, cooptando aliados, mudando regimes e levando ao poder líderes que fossem simpáticos a suas causas.

A separação da Península Coreana entre um lado comunista (o norte) e outro capitalista (o sul) nunca chegou a um desfecho que tenha levado a uma vitória definitiva de qualquer um dos dois lados. A divisão persiste até hoje.

 

Em 1953 foi assinado um armistício entre o norte e o sul. O documento determina a suspensão das hostilidades, mas não é um tratado de paz definitiva. A URSS foi extinta em 1991, e a Coreia do Norte se manteve um país fechado, que fez de seu programa nuclear um instrumento de ameaça e de defesa. Já os EUA continuaram a municiar a Coreia do Sul e a realizar exercícios militares que simulam a invasão da Coreia do Norte.

 

De onde veio o programa nuclear norte-coreano

As raízes do programa nuclear norte-coreano vêm de 1962. Naquele ano, o país começou a desenvolver essa tecnologia com fins pacíficos, com apoio da URSS e da China – as duas maiores potências comunistas do mundo.

Em 1986, a Coreia do Norte construiu sua primeira usina nuclear e, entre os anos 1990 e 2000, o regime norte-coreano importou cientistas saídos de ex-repúblicas soviéticas que começaram.

Mapa mostra a localização da Coreia do Norte
Mapa mostra a localização da Coreia do Norte
 

A queda do Muro de Berlim, em 1989, havia dado início à ruína do bloco comunista. O fim da URSS, em 1991, selou esse processo, provocando uma espécie de diáspora de cientistas atômicos pelo mundo.

Um dos maiores nomes desse grupo era o do paquistanês Abdul Qadeer Khan. Ele era o pai do programa nuclear do Paquistão e um cultuado herói nacional em seu país de origem, formado num tempo em que as relações entre a URSS e o Paquistão eram estreitas.

Em 2002, o Paquistão reconheceu que os norte-coreanos tiveram acesso a segredos do programa militar nuclear paquistanês por meio de Khan. Em 2004, o próprio Khan confessou ter assessorado programas nucleares não apenas na Coreia do Norte, mas também no Irã e na Líbia.

Nunca ficou claro se Khan estava agindo por conta própria ou a mando do governo paquistanês. Além dele, outros 15 cientistas foram investigados. Khan passou um tempo em prisão domiciliar, mas acabou libertado em 2009. A Coreia do Norte, a Líbia e o Iraque haviam sido classificados, em 2002, pelo então presidente americano George W. Bush como membros de um “eixo do mal”.

 

Desses três países, só a Coreia do Norte permanece nas mãos do mesmo regime, pois tanto na Líbia como no Iraque seus respectivos líderes foram depostos e executados.

 

Quais os impactos da negociação de Singapura

 

Há pelo menos três dimensões a serem consideradas no encontro entre Trump e Kim: política, militar e midiática. São três dimensões interligadas. Uma não existiria sem a outra.

Para chegar a essas três dimensões, é preciso levar em conta que uma parte importante do caminho já havia sido trilhado antes pelo presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que, no dia 27 de abril, protagonizou um encontro inédito com Kim na fronteira entre os dois países.

 

A partir daí, o presidente sul-coreano foi um importante articulador da aproximação entre a Coreia do Norte e os EUA. Mesmo quando Trump ameaçou desmarcar o encontro com Kim, em maio de 2018, Moon Jae-in se manteve ativo nos bastidores.

Qualquer acordo que venha a ser implementado na Península Coreana dependerá desses três países: EUA, Coreia do Norte e Coreia do Sul, embora o encontro mais comentado tenha sido este, mais recente, entre Trump e Kim.

 

Dimensão política

 

Os presidentes dos EUA e da Coreia do Norte abriram um canal de diálogo pessoal, no mais alto nível, sem intermediários. Até então, os dois só se falavam por meio de publicações no Twitter, no caso de Trump, e de declarações na imprensa oficial, no caso de Kim.

 

Não existia representação diplomática americana na Coreia do Norte. Por isso, os EUA dependiam de países considerados “neutros” quando queria, por exemplo negociar a libertação de prisioneiros americanos.

 

Trump se referia a Kim como “pequeno homem foguete”. A Coreia do Norte respondia com ameaças de aniquilar “de forma impiedosa” os americanos.

 

Agora, as palavras agressivas e os insultos deram lugar a elogios mútuos. Mesmo que não leve à paz no futuro, a distensão já tem reflexo imediato para o clima de medo vivido nos países que estão mais imediatamente ao alcance dos mísseis norte-coreanos, como o Japão e a Coreia do Sul, aliados dos americanos.

 

Além disso, Kim se apresenta como um líder de estatura internacional, apto a negociar diretamente com o líder da maior potência. Trump, por sua vez, busca contornar o mau resultado de sua participação no encontro do G7 (grupo que reúne algumas das mais poderosas nações do mundo), ocorrido na véspera, no Canadá, e, ao mesmo tempo, reforçar a imagem de um defensor da paz e até candidato ao Prêmio Nobel.

 

Trump não fez qualquer menção às violações de direitos humanos cometidas pelo regime norte-coreano. Kim deve usar esse momento a seu favor, vendendo internamente a imagem de um líder respeitado. Trump valorizará o papel do presidente americano que age certo ao endurecer, apostando em sanções, ameaças e embargos que forçariam seus antagonistas a ceder nas negociações.

 

Dimensão militar

 

O documento assinado por Trump e por Kim não traz detalhes sobre o fim do programa nuclear norte-coreano. Trump disse apenas, na entrevista a jornalistas, que isso ocorreria “muito rápido”. Na mesma entrevista, o presidente americano também avisou que Kim havia aceitado desativar um local de testes nucleares, mesmo que esse compromisso não tivesse sido expresso na declaração final.

 

 

Especialistas no programa nuclear norte-coreano, como Siegfried Hecker, estimam que a completa desnuclearização da Península não leve menos de 15 anos, mesmo depois de tomada a decisão política de seguir nessa direção.

 

A declaração conjunta assinada em Singapura reafirma os termos da Declaração de Panmunjon, de 27 de abril de 2018, segundo a qual os dois lados (norte e sul) prometem trabalhar pela “completa desnuclearização da península”.

 

 

O documento diz também que o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, equivalente ao ministro de Relações Exteriores, deverá se reunir “na data mais próxima possível” com altos funcionários da Coreia do Norte, para dar seguimento prático ao acordado.

 

Do ponto de vista norte-coreano, o programa de mísseis balísticos e de ogivas nucleares (os EUA estimam que existam entre 30 e 60 delas) é uma forma de se proteger contra uma possível invasão de americanos e de sul-coreanos.

 

Trump disse que há 32 mil militares americanos na região e que está disposto a “trazê-los para casa” em algum momento. Por enquanto, prometeu que os “jogos de guerra” vão acabar – se referindo aos exercícios e simulações de invasão na fronteira.

 

As sanções e embargos, no entanto, vão continuar “até termos certeza de que as armas nucleares [norte-coreanas] não são mais efetivas”, disse Trump.

 

Por fim, Kim aceitou recuperar restos mortais de prisioneiros de guerra sul-coreanos, da guerra de 1950-1953, e repatriar imediatamente os que já tenham sido identificados.

 

Dimensão midiática

 

Mais de 2.500 jornalistas de diversos países do mundo foram à ilha de Sentosa acompanhar o encontro entre Kim e Trump. A cada gesto dos dois presidentes, pipocavam dezenas de flashes. O barulho das máquinas fotográficas competia com as vozes dos dois líderes em alguns momentos.

 

O encontro foi ritualizado do começo ao fim – com bandeiras dos dois países e com um menu que combinava elementos orientais e ocidentais – além de uma coreografia previamente acordada para evitar que um ou outro presidente parecesse superior a seu interlocutor.

 

A palavra “encontro histórico” foi usada à exaustão, tanto pela imprensa como pelos protagonistas da reunião. A enorme atenção que o encontro atraiu põe em evidência a imagem dos dois líderes – independentemente da efetividade do acordo no futuro.

 

Como parte do pacote midiático, a Casa Branca produziu um vídeo que simula uma espécie de trailer hollywoodiano, no qual um locutor de voz grave se refere à reunião como se ela fosse parte de uma grandiosa obra de ficção.

O vídeo cinematográfico projeta o que poderia ser um futuro capitalista para a Coreia do Norte, exibindo lanchas de luxo, carros e empreendimentos imobiliários.

Trump mostrou o vídeo a Kim na reunião que ambos mantiveram a portas fechadas. Em seguida, o mesmo vídeo foi exibido aos jornalistas.

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