Como o encontro do G7 pode mudar o eixo das potências mundiais

Trump retira assinatura de declaração final e coloca EUA em posição de isolamento e de antagonismo em relação a seus maiores parceiros

     

    O presidente dos EUA, Donald Trump, retirou sua assinatura da declaração final do encontro do G7, ocorrido na sexta-feira (8) e no sábado (9), em Charlevoix, no sudeste do Canadá.

    O G7 é formado por EUA, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Japão. Os encontros do grupo se repetem todo ano, salvo por interrupções extraordinárias, e têm por intenção aproximar posições políticas e econômicas dos países envolvidos.

    Em 2018, a cúpula do G7 foi marcada pela posição de antagonismo do governo americano em relação aos governos dos demais países que compõem o grupo. A retirada da assinatura de Trump da declaração final foi a expressão mais clara do distanciamento entre os EUA e seus tradicionais parceiros.

    A principal razão desse antagonismo foi a decisão tomada pelos EUA de impor barreiras à importação de aço e alumínio estrangeiros. Um dos países mais afetados por essa política protecionista americana foi o Canadá, cujo primeiro-ministro, Justin Trudeau, foi o anfitrião do encontro do G7.

    Como Trump entrou e saiu da declaração

    Apesar dos atritos em torno das barreiras de importação, os líderes dos países presentes em Charlevoix conseguiram chegar a uma posição comum no sábado (9) e redigiram uma declaração final de consenso. Essas declarações são praxe em cúpulas internacionais dessa natureza.

    Coube ao premiê canadense, como anfitrião, apresentar essa declaração final à imprensa. Na apresentação, Trudeau criticou a imposição de barreiras tarifárias americanas aos produtos canadenses.

    Trump já havia deixado o encontro, no Canadá, e se dirigia a Singapura, onde, na manhã desta terça-feira (12) – noite de segunda-feira (11) no Brasil – participa de uma reunião bilateral com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, cujo assunto é a desnuclearização da Coreia do Norte.

    Quando ainda estava em trânsito, Trump anunciou por sua conta no Twitter que havia ordenado que os EUA se retirassem da declaração final. O presidente americano também se referiu a Trudeau como “desonesto e fraco”.

    Foto icônica traduz isolamento

    No fim da cúpula, uma imagem traduzia a posição de Trump: sentado, atrás de uma mesa, sendo interpelado pelos demais líderes. Para os críticos do presidente americano, a imagem reflete uma posição de isolamento e de intransigência. Para os apoiadores, uma posição de firmeza e de apego a seus próprios princípios.

    O isolamento ficou evidente nas declarações dos demais líderes. Nenhum deles manifestou apoio pela decisão de Trump de retirar sua assinatura da declaração final.

    Representantes canadenses disseram que não houve nada de novo na declaração de Trudeau, nada que já não tivesse sido dito antes. O ministro das relações exteriores alemão, Heiko Mass, disse que o mais importante é que os europeus mantenham posição de unidade diante da “ofensiva” de Trump.

    As consequências da posição americana para o futuro

    O Nexo fez quatro perguntas a dois pesquisadores da área da relações internacionais que se dedicam a estudar precisamente a política externa americana. São eles:

    • Fernanda Magnotta, professora de relações internacionais da FAAP, em São Paulo
    • Leonardo Ramos, professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais

    O comportamento de Trump - de assinar uma declaração final e, pouco depois, retirar a própria assinatura do documento – tem antecedentes na história? Ou esse foi um acontecimento político e diplomático completamente inédito?

    Fernanda Magnotta A decisão do presidente Trump de não endossar o comunicado produzido pelo G7 é um ato sem precedentes neste século. Trata-se de um comportamento incomum em reuniões de cúpula, articuladas diretamente pelo primeiro escalão dos representantes dos Estados, e especialmente considerando que se trata de negociações produzidas entre aliados de mais de 70 anos. Episódios minimamente análogos remontam a momentos de grande instabilidade do sistema no século 20, particularmente em períodos que antecederam grandes crises ou mesmo guerras.

    Leonardo Ramos Eu não me lembro de um acontecimento dessa natureza. Tendo em vista a própria importância do ator que não assina, o fato de ser o presidente Trump, de ser o presidente dos Estados Unidos, tudo fica ainda mais complicado. No que diz respeito à história do G7, o mais próximo disso foi em relação a uma declaração do final da década de 1970, na qual houve uma discordância muito grande entre os autores envolvidos e, na declaração, houve uma menção de que alguns Estados achavam importante que tivessem discussões adicionais de um ou de outro tema, mas, ainda assim, todos assinaram. Ou seja, isso de, num encontro do G7, você ter um líder que se nega a assinar a declaração final é, salvo engano, inédito na história dessa cúpula.

    A situação de isolamento na qual Trump se colocou pode ter consequências reais para a política, a economia e a segurança internacional? Ou trata-se de um gesto mais simbólico, sem grandes consequências práticas?

    Fernanda Magnotta A política de Trump remonta a um paradigma unilateralista, que, no passado, já contribuiu para desgastar a relação dos Estados Unidos com outros países, corroendo a credibilidade internacional do governo norte-americano e gerando dificuldades para diálogo e articulação de iniciativas conjuntas. Além do gesto simbólico per se [“em si”], essa decisão consolida Trump como um dealbreaker [“rompedor de acordos”, literalmente], expressão que tem sido largamente empregada para descrever sua doutrina de política externa.

    Além disso, sugere uma abordagem amparada em premissas de matiz realista, como o balanço de poder entre grandes potências e a necessidade de tomar decisões em um contexto de desconfiança, self-help [“autoajuda”] e inevitável soma-zero. Finalmente, os Estados Unidos de Trump caminham no sentido de enfraquecer as estruturas de governança global existentes, incluindo regimes e instituições internacionais. Tudo isso, na prática, aumenta a instabilidade no diálogo entre os países e dificulta a criação de consensos no campo político, econômico e da segurança.

    Leonardo Ramos Seguramente haverá impacto na política internacional. Aliás, já está tendo impacto. Mas os EUA não passarão a ter um papel secundário. A grande questão é que teremos um G7 com importância e relevância reduzidas, um G7 transformado num fórum sem importância para as negociações internacionais americanas.

    Porém, eu considero importante analisar também o seguinte: Trump tem de responder àqueles que o elegeram. Há uma questão de política doméstica aí, de um setor da sociedade americana que tem tradicionalmente perdido em relação ao padrão de globalização no qual os EUA se inserem. Além disso, é preciso notar que Trump até tem uma certa afeição pelo livre comércio, mas não pelo multilateralismo. Ou seja, Trump se apresenta como alguém que é favorável ao livre comércio – e, nesse sentido, as barreiras que ele impõe são formas de restabelecer negociações dentro do espírito do livre comércio. É um pouco o que [o ex-presidente americano] Richard Nixon fez nos anos 1970 para lidar com o deficit americano. Não chega a ser um protecionismo que coloque o próprio livre comércio em discussão. Porém, ele faz isso sem compromisso com o multilateralismo, o que pode ter consequências extremamente significativas para o arranjo da política internacional contemporânea.

    É possível que haja uma mudança no eixo das potências no mundo, e que se construa a partir do governo Trump uma nova ordem na qual os EUA passem a ter um papel secundário, periférico?

    Fernanda Magnotta Do ponto de vista da estabilidade do sistema internacional, os custos de não incluir os Estados Unidos em qualquer arranjo de governança são muito elevados e, por isso, é improvável pensarmos estruturas que excluam o país e ainda assim sejam eficazes.

    Além das capacidades norte-americanas não serem desprezíveis em nenhuma esfera (militar, econômica, em termos de soft power, etc), não há clareza de que outros países (como os europeus, por exemplo) estejam dispostos a arcar com as responsabilidades que surgem com a criação de uma nova ordem. Além disso, mesmo no contexto de uma multipolaridade emergente, em que é esperado que diversos países busquem ocupar vácuos de poder, eles enfrentam, em geral, rivalidades regionais, o que dificulta a criação de alianças e sua projeção de poder em escala global. É o caso de Rússia e China, por exemplo. Dado o fato de que a ordem vigente foi erigida sob os valores norte-americanos e é muito dependente do capital político dos Estados Unidos, em momentos nos quais eles agem como “superpotência solitária”, como se referiu Samuel Huntington [cientista político americano, morto em 2008] ao país no passado, o cenário costuma ser de imprevisibilidade e instabilidade generalizada.

    Leonardo Ramos É possível que essa atitude do presidente Trump no G7 seja vista como a expressão de um processo mais amplo de reestruturação da ordem, mas é uma reestruturação que já vem de algum tempo, vem de uma ou duas décadas. Há uma mudança de eixo, em alguma medida, mas isso não é culpa do Trump. Talvez ele seja mais uma expressão desse processo do que o iniciador desse processo.

    Temos presenciado o ressurgimento de potências que foram importantes em outros momentos da história mundial, e que agora reassumem uma importância muito grande, como China e Rússia. Não é uma coincidência que, ao mesmo tempo em que o G7 estava reunido no Canadá, você tinha a cúpula entre Rússia, China, Índia e Paquistão [além de outros países que eram parte da URSS] na Cúpula da OSX [Organização de Cooperação de Shangai], que ocorreu [nos dias 9 e 10 de junho, em Shandong, no leste da China] sem complicação, sem tensão, com muitos acordos entre Rússia e China. Ao mesmo tempo, no Canadá, estava ocorrendo um encontro do G7 cheio de contradições e de tensões, com os EUA adotando posições unilaterais.

    Que ameaças ou oportunidades esses acontecimentos apresentam para o Brasil?

    Fernanda Magnotta Considerando que a vocação da política externa brasileira se ampara sob os princípios da cooperação e do multilateralismo, é desfavorável ao Brasil que a ordem liberal dos anos 1940 esteja em crise, pois é por meio dela que o país dialoga, negocia e dirime os seus eventuais conflitos.

    O enfraquecimento dos regimes e organizações internacionais afeta diretamente a estratégia de inserção de países que não têm condições ou interesse de se impor pela força e que atribuem credibilidade aos canais diplomáticos para a criação de consensos. Para um país que já passa por instabilidade política, crise econômica e relativa apatia na política exterior, esse cenário representa uma ameaça considerável no que concerne à efetividade do diálogo do Brasil com o mundo. Em contrapartida, poderia ser uma oportunidade para que o Brasil reforçasse um papel de liderança regional na América do Sul ou buscasse a aproximação com outros parceiros internacionais, principalmente no eixo Europa-Ásia.

    Leonardo Ramos Estamos falando de uma grande potência, que tem importância muito grande na pauta exportadora brasileira, principalmente para este governo, que tinha um plano de reengajamento com os EUA.

    Pode ser que se abram algumas possibilidades no curto e no médio prazos, em termos de redução de tarifas em alguns setores, dependendo das negociações. É possível que isso aconteça, principalmente, a partir de determinadas reações desses atores do G7, desses parceiros tradicionais dos EUA. Se for assim, pode ser que os americanos se voltem para a América Latina como forma de contornar um possível deficit. Consequentemente, podemos vir a ter um impacto, mas é preciso ter em mente que seria um impacto no setor primário, já que Trump está dedicado a garantir empregos no setor de manufatura por lá. Seria um ganho, portanto, no campo da exportação de bens primários. Só.

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