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Os números de raça e gênero entre curadores e jurados no cinema brasileiro

Homens brancos formam maioria nas curadorias. Mulheres brancas os superaram por pouco na composição dos júris

     

    Divulgado no dia 5 de junho de 2018, o boletim “Raça e Gênero Na Curadoria e No Júri de Cinema” analisa a composição da curadoria e do júri de 19 festivais e mostras de cinema ocorridos no Brasil em 2017, segundo as variáveis raça e gênero.

    O levantamento foi realizado pela cientista social Cleissa Regina Martins, pesquisadora colaboradora do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

    Seu propósito é, segundo o boletim, questionar quem seleciona quais filmes entram nas mostras e festivais de cinema, sendo responsáveis pelos indicados e vencedores desses eventos.

    Além da necessidade de se avaliar a representatividade entre aqueles que fazem filmes e de quem aparece neles, “é urgente observar quem escolhe os melhores e aptos a serem premiados e quem decide o que o público verá nos festivais, que são uma janela importante para o audiovisual autoral e não-comercial”, diz o estudo.

    “Os festivais que têm mais dinheiro e maior visibilidade são os de filmes de ficção sem recorte. Eles continuam muito homogêneos e as poucas pessoas negras que aparecem são nomes que se repetem”, disse a pesquisadora Cleissa Regina Martins, em entrevista ao Nexo.

    Segundo Martins, uma consequência importante de se aumentar o número de curadores negras e negros em festivais é a formação de público.

    “É importante formar um público que esteja mais atento ao cinema negro. Esses curadores podem ajudar a introduzir filmes de realizadores negros na programação dos festivais sem que seja em sessões voltadas especificamente para a questão de raça. Isso faz com que mais e diferentes pessoas assistam aos filmes e também coloca o cinema negro numa outra posição, atentando mais para suas questões fílmicas e não só para o recorte”, disse.

    O que fazem curadoria e júri

    A curadoria de um festival ou mostra de cinema escolhe os filmes que serão exibidos, direcionando as possibilidades de escolha do público e aumentando a circulação de filmes que podem não chegar às salas de cinema comercial.

    Já o júri escolhe (de maneira geral, quando a decisão não cabe ao público) os melhores filmes nas mostras competitivas dos festivais. A decisão dos jurados dá notoriedade e reconhecimento aos filmes e às equipes que os produziram, o que, com frequência, proporciona aos diretores e produtores a possibilidade de conseguir financiamento para novas obras.

    “Num momento em que esses grupos [mulheres e negros] vêm tendo conquistas consideráveis no campo da produção audiovisual, como as cotas em editais de produção da Ancine e do Ministério da Cultura, é preciso pensar também na recepção (...) Se histórias mais diversas serão contadas, é preciso que olhares mais diversos analisem, avaliem, selecionem e ordenem essas histórias; bem como as premiem.”

    Cleissa Regina Martins

    No boletim “Raça e Gênero Na Curadoria e No Júri De Cinema”

    Metodologia

    Foram selecionados festivais que ocorrem em território nacional e exibem filmes brasileiros com base nos bancos de dados do Mapa de Mostras e Festivais da Ancine e do Painel Setorial dos Festivais Audiovisuais do Fórum Nacional Organizadores de Festivais de Cinema.

    Festivais voltados exclusivamente para curtas-metragens ficaram de fora da análise.

    Dos 19 analisados, dois são voltados para documentários e um para documentários e filmes experimentais. Três deles possuem algum tipo de recorte específico para a seleção dos filmes: são festivais de cinema negro, feminino e periférico.

    A cor de jurados e curadores foi classificada de acordo com as categorias do IBGE (branca, preta, parda, amarela e indígena), por meio de imagens encontradas na internet. Apenas um homem não foi identificado racialmente por falta de imagens.

    De acordo com o estudo, quando houve dúvida sobre a cor do indivíduo a opção mais escura foi escolhida. “Isto é, se há alguma distorção em nossa análise, ela se dá no sentido de aumentar a presença de pretos e pardos e não de subestimá-la”, diz.

    O que diz o levantamento

    Sobre a curadoria

    Foram levantados 84 curadores no total, dos quais apenas um homem não teve seu grupo racial evidenciado. Os curadores foram identificados por meio dos sites dos eventos. Quando o termo “curador” não era usado pelo festival, foram considerados programadores ou membros da comissão de seleção.

    56,6%

    dos responsáveis pela escolha de filmes exibidos nos festivais de cinema brasileiro em 2017 foram homens brancos

    A proporção de pessoas pretas nas curadorias não chegou a 4%.

     

    O levantamento também analisou gênero e raça de curadores em mostras diferentes dentro dos festivais.

    Dividindo a curadoria em “curadoria geral e de longas-metragens”, que diz respeito à seleção dos filmes de todo o festival e/ou os longa-metragens e “curadoria especial e de curtas-metragens”, das mostras especiais, secundárias e/ou de curtas-metragens, homens brancos continuaram a ser maioria em ambos os casos: 55,8% e 58, 1% respectivamente. 

    Na categoria de curadorias gerais e de longas-metragens, porém, pessoas negras tiveram maior participação. Entretanto, das 8 pessoas negras observadas nessa curadoria, metade estava em festivais com recortes (racial e de periferia).

    “O cinema negro não consegue chegar ao circuito comercial. O circuito de festivais é super importante para esses filmes. Se você não tem uma curadoria que entenda essas questões, consiga avaliar melhor esses filmes, saber que são feitos com menos dinheiro e colocá-los bem nas mostras, eles não conseguem avançar”, disse a pesquisadora.

    Sobre os júris

    45,1%

    das pessoas que ocuparam a posição de jurado nos festivais e mostras analisados são mulheres brancas

    Homens brancos tiveram participação muito próxima, de 44,4%. Pessoas pretas e pardas perfazem 10,8%.

     

    “É interessante ver que as mulheres brancas têm participação maior no júri. É pouquíssima coisa maior do que os homens brancos, mas já é alguma coisa”, disse a pesquisadora. “Acho que já se entende que a questão de gênero é importante e por isso incluem mulheres no júri.”

    Sobre festivais de documentário

    O Cachoeira.Doc, festival de documentários realizado na Bahia desde 2010, foi o responsável por grande parte da participação de pretos e pardos, tanto na curadoria geral quanto no corpo de jurados oficial.

    Por conta dessa descoberta, o estudo comparou os festivais voltados para a exibição de obras de ficção, sem recorte, e festivais especializados nos documentários.

    Na curadoria, festivais de ficção sem recorte tiveram maioria (66,1%) de homens brancos. Os de documentário tiveram maioria (47%) de mulheres brancas.

    A subrrepresentação de pessoas pretas e pardas aconteceu em ambos os casos, mas os festivais de filmes de ficção sem recorte não tiveram nenhuma pessoa preta entre os curadores.

    A pesquisadora levantou algumas hipóteses para explicar esse dado.

    Uma delas é a de que o Cachoeira.Doc, que aumentou a representatividade geral das mulheres na curadoria de festivais de documentário, é um festival recente, encabeçado por uma mulher. “Talvez, por isso, consiga acompanhar melhor essas questões”, ponderou Martins.

    Outra possibilidade é a de que há mais mulheres e pessoas negras envolvidas na produção de documentários - por ser em geral mais barata, mais acessível para esses grupos - o que faz com que essas pessoas também estejam mais presentes na curadoria desses filmes.

    Sobre os festivais ‘com recorte’

    Os três festivais com recorte analisados foram os mais diversos e todos estavam próximos ou alcançavam a paridade de gênero. No festival que exibia filmes de mulheres, porém, só havia mulheres brancas tanto na curadoria quanto entre as juradas.

    “É um pouco uma surpresa, porque a gente espera que esses festivais sejam o mais representativo possível. Ao mesmo tempo, a questão de gênero está sempre mais em evidência que a de raça, é uma coisa que a gente está acostumada a ver”, disse Martins. “É importante que esses festivais deem um passo à frente. Por outro lado, é entendível que, num primeiro momento, por serem mais recentes, acabem olhando especificamente para os seus recortes.”

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