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Como a tenista Maria Esther Bueno marcou o esporte mundial

Eleita a melhor atleta do mundo em quatro temporadas, durante as décadas de 1950 e 1960, Bueno era pouco celebrada no Brasil

Maria Esther Bueno, a maior tenista brasileira, morreu na noite de sexta-feira (8), em São Paulo, aos 78 anos.

Internada há duas semanas na ala oncológica do Hospital 9 de Julho, na capital paulista, a ex-atleta apresentou complicações decorrentes de um câncer de boca. Bueno estava sedada desde quarta-feira (6), com o agravamento no quadro de saúde.

Seu corpo é velado no Salão Oval do Palácio dos Bandeirantes neste sábado (10).

Ícone de uma geração em um país de baixa inserção feminina em esportes competitivos, Bueno foi reconhecida mundialmente por ter, nas décadas de 1950 e 1960, conquistado 19 títulos de Grand Slam (12 vezes em simples, 7 vezes em duplas), nome dado aos torneios mais importantes no circuito internacional do tênis: US Open, Wimbledon, Roland Garros e o Aberto da Austrália.

Maior tenista do Brasil

Décadas antes do tenista Gustavo Kuerten vencer Roland Garros e virar ídolo nacional, no final dos anos 1990, e numa época em que raras mulheres tinham acesso ao esporte, Bueno esteve no topo da modalidade.

Primeira não-americana a ganhar o US Open e Wimbledon no mesmo ano (1959), ocupou o primeiro lugar do ranking do tênis em quatro temporadas, nos anos 1959, 1960, 1964 e 1966. Só na grama de Wimbledon, Bueno levantou o troféu oito vezes.

Ainda hoje, “Maria Bueno”, como é chamada no exterior, fica atrás de apenas outros três tenistas. Em número de Grand Slams conquistados nas individuais, só perde para a australiana Margaret Smith Court, a americana Serena Williams e o suíço Roger Federer.

A fluidez dos movimentos durante as partidas, em saques e voleios, lhe fez ganhar o apelido de “bailarina do tênis”. Outra alcunha que recebeu foi o de “andorinha de São Paulo”, dado pelo jornalista esportivo da BBC britânica, John Barrett, pelo modo como tomava conta da rede.

“Ela parecia como uma exótica gata siamesa na quadra. Maria é sinuosa, elegante e feminina. É a Rainha de Wimbledon.”

Gwen Robyns

no livro “Wimbledon: The Hidden Dream”

“Entre 1959 e 1964 fomos presenteados com três vitórias magnânimas da raquete artística da elegante rainha do tênis brasileiro, Maria Bueno. Ali estava a poesia em movimento, em que cada movimento combinava a graça de uma bailarina com o controle de uma ginasta de ponta.”

John Barrett

no livro “100 Wimbledon Championships: A Celebration”

Atletas estrangeiros e órgãos ligados ao tênis lamentaram sua morte.

 

Em nota, o Comitê Olímpico Internacional declarou ser “um dia muito triste para o esporte. O Brasil e o mundo perderam uma verdadeira lenda do tênis”. Os tenistas brasileiros Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni também prestaram homenagens a ela, em suas contas de Instagram.

Trajetória

Maria Esther Andion Bueno nasceu em São Paulo em 1939. Aprendeu sozinha a jogar tênis, ainda na infância.

Ganhou campeonatos nacionais durante a adolescência e, em 1958, aos 17 anos, venceu em Wimbledon por duplas, jogando com Althea Gibson. No ano seguinte, em 1959, levou o primeiro título individual no mesmo torneio, na quadra que costumava chamar de “a catedral”. Ao final da partida sentou-se perto da cadeira do juiz e chorou. Seu prêmio: um voucher para comprar meias e munhequeiras.

Bueno nunca teve treinador. Até vencer em Wimbledon em 1959, viajava com apenas uma raquete de madeira, que lhe fazia forçar os golpes e provocou uma lesão no ombro, o que a afastou das quadras em meados dos anos 1960.

A consagração mundial transformou a tímida Maria Esther em celebridade, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Depois de Wimbledon, em 1959, Bueno desfilou de carro aberto pelas ruas de São Paulo e sua imagem estampou selos comemorativos no Brasil.

“Eu não sou boa”, disse ela à Associated Press, depois de ser nomeada Atleta Feminina do Ano. “Tenho medo de todo mundo com quem jogo.”

Em 1964, fez um dos 10 jogos mais emocionantes da história do tênis, ao derrotar Margaret Smith Court, a maior tenista da história. O último grande título veio em 1968, quando venceu em duplas, jogando ao lado da própria Margaret Court.

Bueno entrou para o Hall da Fama do Tênis em 1978.

O sucesso nas quadras internacionais chegava ao noticiário brasileiro, mas Bueno era preterida por outros esportes de maior relevo no país, como o futebol. Com o tempo, as conquistas acabaram esquecidas.

Foi a partir das vitórias de Gustavo Kuerten, com o levantamento da história do esporte no país, que jornalistas e praticantes amadores voltaram a ouvir falar de Maria Esther Bueno. A jogadora passou a comentar partidas em torneios nacionais pelo canal SporTV e na rádio BBC.

Bueno não pôde jogar em Olimpíadas porque o tênis só retornou ao programa olímpico em 1988. Ainda assim, carregou a tocha olímpica pelas ruas de São Paulo em 2016.

“Na época, os meus títulos foram muito comentados no Brasil. Mas [as pessoas] não sabiam exatamente a importância. Foi difícil atender a todos e explicar o que tinha acontecido. Não tinha muito tempo para isso, além de ser muito tímida. Confundiram isso com arrogância.”

Maria Esther Bueno

Em entrevista à Folha de S.Paulo em 1997

 Tênis, profissionalização e gênero

Como em todos os esportes, a presença feminina sempre foi tema de análise.

Billie Jean King, que fez campanha histórica pela igualdade das mulheres no tênis, declarou em 2009 que Maria Esther Bueno foi uma das jogadoras responsáveis por tornar o tênis um esporte “menos masculino”. “Maria era uma grande estrela que chamou grande atenção dos fãs, em um tempo em que os homens dominavam os holofotes. Ela merece ser reconhecida.”

Embora fosse descrita como uma jogadora de movimentos graciosos, característica mais ligada ao estereótipo feminino, Maria Esther Bueno dizia que seu estilo de jogo era resultado de jogar sempre com homens. “Só tenho essa velocidade porque treinava com homens. As pessoas dizem que eu pareço não me esforçar, mas isso é porque eu jogo com homens.”

Não tinha como ser diferente. Até a década de 1960, o tênis era um esporte amador, com rankings confusos e regras abrangentes, sem uniformidade, e de baixíssima presença feminina.

Em 1968, entretanto, iniciou-se a “era aberta” - todos os jogadores puderam competir em todos os torneios -, marcada pela profissionalização.

Em seguida, para defender os interesses dos jogadores, foi criada a ATP (Associação de Tenistas Profissionais). Billie Jean King capitaneou a criação da Women’s Tennis Association (WTA), associação de tenistas mulheres, em 1973.

Hoje, o grande desafio é igualar o valor milionário dos prêmios em todos os torneios, reclamação recorrente das atletas mulheres - entre elas Serena Williams, que está entre as melhores jogadoras da atualidade - e também entre os homens, que não consideram justa a equiparação salarial.

Um dos poucos torneios com prêmios de mesmo valor para os campeões das chaves masculina e feminina é Wimbledon, que mudou as regras em 2007, não sem polêmica.

 

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