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O avanço do HIV entre homens que transam com homens. E as políticas relegadas

Trabalho destaca diminuição de repasse de verbas a ONGs e recuo em políticas focadas na prevenção

 

Nos últimos anos, pesquisas têm apontado a aceleração do avanço do HIV no país, em especial sobre homens que fazem sexo com outros homens -o grupo não é composto apenas pelos que se identificam como gays.

Realizado com apoio do Ministério da Saúde e publicado em junho de 2018 na revista Medicine, um novo artigo afirma que um em cada cinco homens que fazem sexo com outros homens pesquisados em capitais no Brasil está infectado com o vírus. A estimativa para a população brasileira total é de 0,37% infectados.

18,4%

Dos homens que fazem sexo com outros homens pesquisados em 12 capitais brasileiras estavam infectados com o HIV. Em 2009, a proporção era de 12,1%

Como a pesquisa foi feita

O trabalho foi realizado entre junho e dezembro de 2016 com 4.176 pessoas de 12 capitais: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Campo Grande, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Ele atualiza uma pesquisa similar, feita em 2009.

A pesquisa focou em homens com 18 anos de idade ou mais, que afirmaram ter feito sexo oral ou anal com outros homens nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Os próprios pesquisados participaram do processo de recrutamento de mais pessoas, da seguinte maneira: cada um recebia R$ 25 para fazer parte da pesquisa e outros R$ 25 para cada outro homem que trouxesse para participar do trabalho.

O público era jovem: 58,3% tinham menos de 25 anos. A maior parte, ou 83%, eram solteiros.

Dos 4.176 participantes, 3.958 concordaram em realizar testes de sangue em busca de indícios de HIV. Nos casos em que o vírus era detectado, um segundo teste de confirmação foi realizado. Quando se considera apenas esses participantes, a proporção de pessoas com HIV foi de 17,5%.

Quando se contabiliza também os participantes que não realizaram testes de sangue, mas que informaram que tinham HIV e tomavam antirretrovirais usados para combater o vírus, a proporção de pessoas infectadas atingiu 18,4%. O aumento frente a proporção de 12,1% medida em 2009 foi marcante.

HIV em 12 capitais brasileiras

 

Por que sexo entre homens é mais vulnerável

Em entrevista concedida em 2016 ao Nexo, Ester Sabino, do Departamento de Moléstias Infecciosas da Fmusp (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenadora do projeto Reds (Estudo de Avaliação de Epidemiologia de Recipientes e Doadores), afirmou que homens que fazem sexo com outros homens têm mais risco de infecção porque essa população é uma minoria.

Como há menos parceiros potenciais e uma proporção alta de pessoas afetadas, a probabilidade de se fazer sexo com alguém com HIV e de se infectar é maior. Conforme a epidemia se espalha nessa minoria, o risco de infecção aumenta para quem não está infectado, em um ciclo vicioso.

Além disso, a mucosa anal é a mais sensível à transmissão do HIV. Pessoas que fazem sexo anal receptivo (passivo) estão mais sujeitas a serem infectadas pelo vírus presente no sêmen quando comparadas a mulheres que fazem apenas sexo vaginal, ou quando comparadas a homens que realizam apenas ato sexual insertivo (ativo). O vírus continua, no entanto, avançando também entre essas populações com outros hábitos sexuais.

A pesquisa financiada pelo Ministério da Saúde destaca algumas mudanças em políticas públicas que podem ter contribuído para a recente aceleração da propagação do vírus entre essa população mais vulnerável.

 

Diminuição da verba de ONGs

Publicado em 2016 pela Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar Sobre Aids), a coletânea de estudos “Mito vs realidade sobre a resposta brasileira à epidemia de HIV e Aids” classifica a resposta inicial à epidemia de Aids no país como “burocratizada” e sem tato. 

O período entre 1985 e 1991 foi marcado por motes que mais assustavam do que informavam, como “se você não se cuidar, a Aids vai te pegar”, diz o trabalho.

Em um segundo momento, no entanto, a resposta governamental passou a ser articulada com ONGs que tinham participação das populações mais afetadas, ou que possuíam acesso a elas. Verbas de estatais e de instituições internacionais chegaram não só a grupos LGBT, mas também a entidades dedicadas à questão das drogas e à prostituição.

O artigo “Contribuição a um futuro trans?” publicado em 2013 na “Revista Lationamericana Sexualidade Saúde e Sociedade” relata que, em 1992, um grupo de travestis que se prostituía na praça Mauá, região portuária do Rio de Janeiro, e se reunia como parte de um programa contra Aids foi responsável por formar a primeira associação travesti do país, a Astral (Associação das Travestis e Liberados).

Grupos homossexuais também se engajaram no combate ao HIV e passaram a ser irrigados com esses recursos, e esse período foi um marco no movimento LGBT brasileiro.

Em entrevista ao Nexo, o vice-presidente da Abia, Veriano Terto, afirma que “esses grupos conseguiam chegar a lugares frequentados pela população mais vulnerável com camisinhas, gel, cartazes e material educativo. Eles construíam redes de apoio social e psicológico contra estigma e preconceito. Tudo isso se perdeu”.

Terto acompanha a estratégia contra o HIV no Brasil desde 1989, e avalia que as ONGs perderam fontes de renda. Por exemplo: em 2017, a sede do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids) fechou em Porto Alegre, após o dono do imóvel pedir a reintegração de posse - o governo do estado, que era responsável pelo aluguel, não fazia o pagamento havia oito anos.

Fundado em 1989, o Gapa se tornou referência na luta contra Aids e HIV na década seguinte. O trabalho sobre prevalência de HIV entre homens que fazem sexo com homens no Brasil também ressalta a diminuição no financiamento de ONGs que haviam feito parte da estratégia de combate:

“ONGs que abordavam homens que fazem sexo com homens e prevenção da Aids perderam fundos, removendo espaços para a organização comunitária em torno de prevenção e testagem, assim como para o fomento da solidariedade entre comunidades de homens que fazem sexo com outros homens.”

Estudo “Prevalência de HIV entre homens que fazem sexo com homens no Brasil: resultados da segunda pesquisa nacional”

Menos campanhas públicas

A diminuição da verba destinada às ONGs reduz o número de campanhas locais de conscientização. As campanhas também sofrem com a inação do Estado.

O trabalho avalia que o avanço de grupos conservadores na política tem diminuído ações diretas do Estado ligadas à sexualidade e a grupos de homens que fazem sexo com outros homens.

“O aumento do apoio no governo brasileiro para a bancada da ‘bala, boi e bíblia’, no Congresso mais conservador da era democrática do Brasil, levou a uma agenda de gênero e sexualidade regressiva e à redução do apoio a programas que focam em necessidades de homens que fazem sexo com outros homens”

Estudo “Prevalência de HIV entre homens que fazem sexo com homens no Brasil: resultados da segunda pesquisa nacional”

O trabalho “Mito vs realidade: sobre a resposta brasileira à epidemia de HIV e Aids” tem avaliação similar. Ele destaca casos no âmbito federal, em que a pressão de legisladores conservadores teria levado ao abandono de campanhas voltadas a populações vulneráveis.

No início de 2012, um comercial voltado a homens que fazem sexo com outros homens promovendo a prevenção contra o HIV foi tirado do ar pelo Ministério da Saúde, e deixou de ser divulgado. Entidades ligados ao combate ao vírus encararam o caso como uma concessão à pressão conservadora -o que o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, negou.

Em junho de 2013, uma campanha contra HIV voltada a outro grupo vulnerável, as prostitutas, que tinha como mote “sou feliz sendo prostituta”, foi retirada do ar.

Em seguida, Dirceu Greco, então diretor do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida e Hepatites Virais, foi demitido por Padilha.

Em entrevista publicada em junho de 2018 na Folha de São Paulo, Lígia Kerr, professora da UFC (Universidade Federal do Ceará) e coordenadora do trabalho sobre a taxa de HIV entre homens que fazem sexo com outros homens, afirmou que houve “uma pressão muito grande da bancada conservadora que a gente chama de ‘bala, boi e bíblia’. Cartilhas que falavam sobre sexualidade e que já estavam impressas foram proibidas de ser distribuídas nas escolas. Foram proibidas propagandas de TV. É como se a Aids tivesse desaparecido”.

Em sua opinião, isso faz com que jovens iniciem sua vida sexual sem nada que os lembre sobre a Aids, o que contribui para a propagação da doença.

Terto afirma, no entanto, que há exemplos recentes positivos de campanhas governamentais focadas em LGBT, como a de setembro de 2017 estrelada pela cantora drag queen Pabllo Vittar.

 

Contenção da Aids e abordagem medicalizada

O trabalho ressalta que o avanço da tecnologia resultou em tratamentos que contêm o vírus, impedindo que ele debilite o sistema imunológico. Esse avanço é positivo, mas, por outro lado, pode contribuir para tirar o enfoque de políticas de prevenção. A pesquisa afirma que a tecnologia “resultou em uma abordagem medicalizada que trata a infecção por HIV como uma doença crônica”.

Em seu trabalho de 2016, a Abia elogia os tratamentos médicos, mas afirma que pode haver falta de enfoque nas políticas de prevenção:

“Os enormes avanços na terapêutica de tratamento da Aids se, por um lado, devem ser saudados com entusiasmo, por outro, vêm produzindo o estreitamento da resposta nacional, cada vez mais marcada por uma compreensão biomédica da doença, que então teria sua cura derivada apenas de comprimidos e tratamento”

Há dois marcos recentes nas políticas públicas focadas em tratamento médico no Brasil.

Meta 90-90-90

Seguindo recomendações da ONU, o país adota desde 2014 a meta de fazer com que ao menos 90% das pessoas com HIV no Brasil sejam identificadas, 90% dessas sejam tratadas com antirretrovirais e, dessas, 90% tenham a carga viral reduzida a níveis indetectáveis. Pesquisas indicam que, quando isso acontece, a pessoa soropositiva não só não desenvolve a Aids, como deixa de ser capaz de transferir o vírus.

O Ministério da Saúde estima que, no país, 84% da população com HIV tenha sido diagnosticada. Dessa parcela, 72% passaram por tratamento. E, destes, 91% haviam tido redução da carga viral a níveis indetectáveis.

Profilaxia pré-exposição

No final de 2017, o SUS (Sistema Único de Saúde) iniciou, experimentalmente, a distribuição de um tratamento com remédios que servem como prevenção e reduzem drasticamente a chance de contaminação por HIV, mesmo em casos de sexo sem proteção com uma pessoa infectada.

Patenteado pelo laboratório americano Gilead, o remédio é vendido comercialmente com o nome de Truvada. Quem adere precisa tomar uma pílula por dia, todos os dias. A terapia é focada em grupos vulneráveis, como é o caso de homens que fazem sexo com outros homens e prostitutas. O objetivo é proteger pessoas que, na prática, não estão se protegendo com a camisinha

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