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Como funciona o filme editado pelas ondas cerebrais do espectador

Experimentos do artista Richard Ramchurn permitem que nível de atenção de quem assiste altere o que se vê ou ouve

 

Em um futuro não tão distante, pode se tornar comum que um piscar de olhos ou a mera desatenção do espectador altere instantaneamente elementos do filme ao qual se está assistindo.

Isso já é realidade para os espectadores de “The Moment”, novo filme de Richard Ramchurn, cineasta, artista e estudante da Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

Na etapa final do processo de edição, o filme de 27 minutos é controlado pela mente do espectador, que assiste a ele equipado de  fones de ouvido com sensores de ondas cerebrais. A narrativa explora um futuro sombrio em que interfaces cérebro-computador se tornaram a norma.

Enquanto finaliza “The Moment”, o diretor tem exibido um trailer do filme na cidade de Nottingham, em uma sessão para seis ou até oito pessoas, na qual a atividade cerebral de apenas uma delas comanda o filme, enquanto as demais apenas assistem.

 

Ramchurn vem experimentando com a interface cérebro-computador (“metatema” de seu filme) aplicada ao cinema desde 2013.

O cineasta não é o único interessado na interatividade. Em abril, a Fox anunciou uma parceria com a empresa Kino Industries, para realizar uma adaptação cinematográfica interativa da série de livros “Choose Your Own Adventure”. Nesse caso, porém, alterações no enredo serão feitas a partir da votação do público em um aplicativo.

O mecanismo

O dispositivo usado pelo espectador é um NeuroSky, um fone eletroencefalográfico que custa cerca de US$ 100 e monitora o nível de atenção de quem o utiliza, por meio da medição da atividade elétrica cerebral. Há uma gama de frequências que se acredita corresponder à atenção.

Cientistas ainda questionam a precisão do monitoramento realizado por dispositivos como esse.

A medição é enviada para um laptop por meio de uma conexão sem fio. No computador, um software desenvolvido por Ramchurn usa o dado para alterar a montagem das cenas, animações e a trilha sonora.

A atenção do espectador oscila a cada seis segundos, aproximadamente. As baixas naturais detectadas sinalizam o momento de fazer o corte da cena. De acordo com a atividade cerebral do espectador, o filme alterna entre três narrativas.

Foto: Reprodução
Cartaz do filme 'The Moment'
 

O diretor avalia que haja por volta de 101 trilhões de versões diferentes do filme, considerando todas as possibilidades de alteração conduzidas pela mente, segundo disse à MIT Technology Review.

Para tornar o filme interativo de 27 minutos de duração possível, Ramchurn teve de produzir o triplo de material bruto de imagem em relação ao que teria filmado normalmente, e gravou seis vezes mais áudio do que teria sido necessário para uma versão não interativa.

O cineasta também tem realizado experimentos para tornar a exibição viável para um número maior de espectadores simultaneamente.

As tentativas envolveram a competição entre espectadores para eleger o “controlador principal da narrativa”, ou usar a média das reações para determinar o que se passa na tela.

O modelo que funcionou melhor, segundo Ramchurn, foi um modo colaborativo no qual a mente de pessoas diferentes ficou responsável por controlar aspectos distintos do filme, como a trilha sonora, o corte de cenas e outros.

Experiências prévias

O primeiro filme de Richard Ramchurn controlado pelo cérebro foi “The Disadvantages of Time Travel” (As desvantagens da viagem no tempo, em tradução livre), produzido entre 2014 e 2015.

Mais abstrato que “The Moment”, o curta alterna sonho e realidade sob o ponto de vista do protagonista.

Nesse primeiro filme, o fone eletroencefalográfico usado pelo espectador monitorava suas piscadas para determinar o corte de uma cena para a seguinte, e seu nível de atenção e meditação indicavam o momento de trocar cenas de fantasia pelas de realidade e vice-versa.

O controle determinado pelas piscadas foi deixado de lado pelo diretor porque prejudicava a experiência interativa, ao deixar o espectador excessivamente consciente de sua fisiologia.

O primeiro filme interativo

Criado na antiga república da Tchecoslováquia, o “Kinoautomat” foi a primeira experiência interativa de cinema na história de que se tem conhecimento. Fez sua estreia na Exposição Universal de 1967, em Montreal, no Canadá.

Concebido pelo diretor e roteirista Radúz Činčera, foi resultado do trabalho de uma numerosa equipe que viabilizou as projeções do filme “One Man and His House” (Um homem e sua casa, em tradução livre).

Na sala de 123 lugares, customizada com um botão verde e outro vermelho em cada poltrona, espectadores podiam optar algumas vezes durante a sessão, apertando um dos botões, entre dois caminhos narrativos diferentes.

A votação era transmitida e colocada em prática por meio de um aparato eletromecânico. Fios vindos das poltronas transmitiam as escolhas para um painel que contabilizava os votos e, na sala de projeção, projetores com rolos de filme diferentes se alternavam, dependendo da vontade da maioria.

 

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