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Quem é o novo presidente da Petrobras. E quais seus desafios

Ivan Monteiro era responsável pelas finanças na gestão de Pedro Parente e promete manter a política de preços da estatal

     

    A Petrobras perdeu na sexta-feira (1º) seu presidente e principal representante da política de recuperação das finanças da companhia. Pedro Parente, nome de confiança dos investidores, pediu demissão ao presidente Michel Temer depois de duas semanas de pressão sobre a política de preços dos combustíveis da empresa.

    Parente era o símbolo símbolo maior da ideia de que o preço dos combustíveis no Brasil devem acompanhar a cotação em dólares do barril de petróleo no mercado internacional.

    Com os sucessivos aumentos tanto no petróleo quanto no dólar, os combustíveis subiram muito nos últimos meses, o que foi o estopim para a greve de caminhoneiros que paralisou o país no fim de maio.

    Após o anúncio da demissão de Parente, as ações da Petrobras chegaram a cair 20%, um problema para um governo que tem o discurso de manter uma gestão independente, que priorize a saúde financeira da empresa estatal. A escolha para tentar conter os danos foi anunciar rapidamente um substituto técnico.

    No mesmo dia do pedido de demissão de Parente, o governo anunciou o então diretor financeiro e de relação com investidores, Ivan Monteiro, como presidente interino. Ele foi logo aprovado pelo Conselho de Administração da empresa.

    Poucas horas depois, a Petrobras anunciou que o governo confirmava a indicação de Monteiro como efetivo. O nome de Monteiro foi aprovado pelo Conselho de Administração na manhã de terça-feira (5). O Conselho é a instância máxima da estatal em que o governo tem votos suficientes para impor suas escolhas.

    “Declaro que não haverá qualquer interferência na política de preços da companhia, e Ivan Monteiro naturalmente é a garantia de que esse rumo permanece inalterado”

    Michel Temer

    presidente da República, em anúncio na sexta-feira (1º)

    Qual o histórico do novo presidente

    Ivan Monteiro é engenheiro por formação e fez a maior parte de sua carreira no Banco do Brasil. Ele está na Petrobras desde 2015, quando foi chamado para ser diretor financeiro na gestão de Aldemir Bendine, que também vinha do Banco do Brasil.

    Era o início do segundo governo de Dilma Rousseff que, na época, escolheu Bendine para presidir a estatal e iniciar o processo de recuperação das finanças depois consolidado por Parente. Bendine foi condenado em março pelo juiz Sergio Moro por corrupção acusado de cobrar propina de R$ 3 milhões da Odebrecht em troca da manutenção de contratos na Petrobras..

    A situação que Monteiro encontrou na diretoria financeira em 2015 era problemática, uma vez que a Petrobras não tinha ainda divulgado o balanço de 2014. O balanço do ano anterior estava parado porque auditores independentes haviam se recusado a assinar o balanço. O resultado foi divulgado já na gestão de Ivan Monteiro como diretor e nele a Petrobras contabilizou perdas com corrupção e desvalorização de ativos.

    Como executivo da Petrobras, ele foi punido pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por ter deixado de divulgar publicamente uma informação relevante da empresa: o valor da venda de um gasoduto. Monteiro fez um acordo para pagar R$ 200 mil ao órgão responsável pelas regras no mercado de capitais no Brasil.

    O que o governo vê no executivo

    Monteiro era diretor executivo nas áreas de finanças e de Relacionamento com Investidores da Petrobras. Isso significa que ele era o responsável pelo caixa da empresa, pelo controle do endividamento e pela interface com os investidores. Os petroleiros que protestavam contra Parente veem em Monteiro a continuidade de um processo que eles chamam de “desmonte da Petrobras”.

    Foram nas áreas chefiadas por Monteiro que aconteceram as maiores mudanças durante a gestão de Parente: a Petrobras vendeu ativos e aumentou o combustível porque priorizava o caixa e a recuperação da empresa, práticas que agradaram os investidores. Quando escolheu Monteiro para substituir Parente, o governo tentou sinalizar que não iria mudar a autonomia dada à empresa a partir de 2016, ano de queda de Dilma e ascensão de Temer ao poder.

    Sob Temer, com Parente no comando da estatal, o valor da ação da companhia passou de cerca de R$ 8 para quase R$ 28, registrado às vésperas da crise dos caminhoneiros. Uma sinalização de que os investidores avaliavam bem melhor a empresa.

    Assim que o nome de Monteiro começou a ser especulado, ainda na sexta-feira (1º), as ações que estavam caindo voltaram a subir. Até segunda-feira (4), os papéis da companhia haviam subido 8,3%.

    O que os investidores temem

    Monteiro é visto como um executivo que tem as mesmas ideias de Parente, mas ele não tem a mesma projeção política de seu antecessor, que foi ministro de Fernando Henrique Cardoso e tem carreira de sucesso no setor privado. A saída de Parente é um sinal de que a crise gerada pela paralisação dos caminhoneiros aumentou a pressão sobre a direção da Petrobras e sua política de preços.

    O temor dos investidores que aplicam dinheiro na Petrobras é de que, sem um nome com o peso político de Parente, o governo volte a intervir nas decisões da estatal.

    Segundo o jornal Valor Econômico, Monteiro tem dito que aceita rediscutir alguns detalhes da política de preços desde que a empresa continue seguindo a cotação do mercado internacional.

    O Ministério de Minas e Energia admite que discute um “mecanismo de proteção ao consumidor final”, para atenuar a volatilidade dos preços nas bombas de combustível, mas nega a intenção de interferir na Petrobras.

    Uma das possibilidades é a aplicação de impostos reguladores. Com eles, a Petrobras continuaria definindo seu preço, a partir da cotação do mercado internacional, e o governo dosaria os tributos. Com petróleo caro, imposto baixo. Com petróleo barato, imposto alto. Assim não haveria tanta oscilação para o consumidor final.

    As críticas ao modelo de Parente e Monteiro

    A política de preços adotada na Petrobras nos últimos anos recuperou o caixa da empresa, mas sofre críticas da oposição ao governo Temer e de movimentos de trabalhadores ligados à estatal. Petroleiros, por exemplo, atacam a venda de ativos.

    Desde julho de 2017, o preço médio da gasolina para o consumidor final subiu 17,25%, muito acima da inflação média do país. Com o aumento dos combustíveis em geral, aumentaram diversos custos de produção, incluindo a questão dos caminhoneiros, altamente dependentes do óleo diesel.

    A ex-presidente Dilma Rousseff, que já foi secretária de Energia do Rio Grande do Sul e ministra de Minas e Energia, acusou Parente de implantar uma política que tem como único objetivo “remunerar os acionistas e tornar a empresa atrativa para as privatizações setoriais a que é atualmente submetida”.

    “Tal política, que trata a Petrobras como se fosse uma bolha privada desconectada do interesse nacional, provocou uma volatilidade absurda dos preços, que passaram a ser reajustados, em alguns casos, de forma praticamente diária”

    Dilma Rousseff

    ex-presidente da República

    Durante os governo do PT, o preço dos combustíveis no Brasil era controlado pelo governo. Choques externos no preço do petróleo eram transmitidos periodicamente, mas não com a frequência atual.

    Especificamente no primeiro governo Dilma, o governo manteve durante o preço dos combustíveis artificialmente baixo no Brasil. A política, de incentivo à produção nacional e de controle artificial da inflação, gerou prejuízos à Petrobras, que vendia derivados de petróleo a um preço abaixo do mercado.

     

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