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O que é o GitHub, empresa comprada por US$ 7,5 bi pela Microsoft

Plataforma preferida por desenvolvedores agora sofre com desconfiança e evasão de usuários que temem influência da gigante de tecnologia

    Foto: Divulgação/GitHub
    Com compra, cofundador do GitHub Chris Wanstrath perde o comando para executivo da Microsoft
    Com compra, cofundador do GitHub Chris Wanstrath perde o comando para executivo da Microsoft

    A Microsoft anunciou a compra por US$ 7,5 bilhões do GitHub, a mais popular plataforma de gerenciamento de projetos usada por desenvolvedores para produção de aplicativos e softwares. O valor é o terceiro maior da história da empresa, e fica atrás apenas dos referentes às aquisições do Linkedin em 2016 (US$ 26 bilhões) e Skype em 2011 (US$ 8,5 bilhões).

    O acordo foi anunciado nesta segunda-feira (4) pelo presidente da gigante conhecida por produtos como Windows e Office. A aquisição propriamente deve ser concluída até o fim deste ano.

    “O GitHub é o destino de desenvolvedores para aprender, compartilhar e trabalhar juntos criando software. Esse é o destino para a Microsoft também”, escreveu Satya Nadella.

    O executivo incluiu ainda frases como “desenvolvedores são os construtores dessa nova era (...) e o GitHub é a casa deles” na declaração oficial. O gesto é entendido como uma tentativa de tranquilizar a comunidade de profissionais que usam a plataforma do GitHub diariamente para projetos próprios ou trabalhos corporativos.

    “A batalha estratégica no mundo da tecnologia é por desenvolvedores”, disse o analista Frank Gens, da empresa de pesquisas IDC ao jornal The New York Times. “Para a Microsoft, o acordo com o GitHub é sobre fortalecer e ampliar seus relacionamentos como desenvolvedores.”

    O que é

    O GitHub é uma plataforma que permite que desenvolvedores ou programadores – profissionais que criam produtos e serviços digitais por meio de código ou linguagens de programação – armazenem, gerenciem e revisem versões de seus seus projetos on-line (hospedados em servidores, na nuvem).

    Tais projetos podem ser abertos (públicos) ou privados (fechados a pequenos grupos ou empresas). Em todos os casos, o GitHub é preferido sobretudo por permitir que diferentes pessoas trabalhem no mesmo projeto simultaneamente. Para isso, ele faz uso do Git, um sistema aberto que registra as mudanças realizadas em diferentes versões de um código.

    Em projetos públicos, qualquer usuário pode contribuir sugerindo mudanças ou ainda copiando o código original e aplicando mudanças para a construção de um aplicativo ou software diferente (respeitando os termos de licença de cada projeto).

    Essa dinâmica colaboracionista – já muito comum na comunidade de desenvolvedores –, junto com a presença de fóruns internos para debate e dúvidas, fez do GitHub também uma plataforma social.

    24 milhões

    é o número de usuários registrados na plataforma em 2017; contas de empresas somam cerca de 1,5 milhão

    67 milhões

    é o número de repositórios, espaços que guardam os arquivos relativos aos projetos armazenados no GitHub; destes, 25 milhões são públicos

    O GitHub foi criado em 2008 em San Francisco, na Califórnia (EUA), por três programadores: Tom Preston-Werner, PJ Hyett e Chris Wanstrath, atual diretor da plataforma. Com a aquisição, Wanstrath – considerado um dos empreendedores jovens mais ricos dos EUA pela Forbes em 2016 – passa a integrar a equipe de executivos da Microsoft em uma posição ainda não anunciada. Seu antigo posto no comando do GitHub será ocupado por Nat Friedman, diretor da área de serviços a desenvolvedores da Microsoft, conhecido como programador experiente e entusiasta do código aberto.

    O GitHub é gratuito para usuários que se registram na plataforma. A receita da empresa vem da venda interna de ferramentas digitais para desenvolvedores, contas pagas que contam com mais espaço de armazenamento ou ainda de pacotes voltados especificamente para grandes empresas.

    US$ 200 milhões

    de dólares é quanto se estima ser a receita anual do GitHub

    Microsoft aberta

    Desde a sua fundação em 1975, a Microsoft teve três diretores executivos: Bill Gates (até 2000), Steve Ballmer (2000-2014) e Satya Nadella (2014 em diante). A compra do GitHub sob a gestão de Nadella é mais uma indicação de mudança de mentalidade da empresa, que era até então símbolo de empresa de software “proprietário” (cujo código é fechado).

    Foto: Divugalção/Microsoft
    Chris Wanstrath (cofundador do GitHub), Satya Nadella (presidente da Microsoft) e Nat Friedman (novo diretor do GitHub)
    Chris Wanstrath (cofundador do GitHub), Satya Nadella (presidente da Microsoft) e Nat Friedman (novo diretor do GitHub)

    Em 2001, Ballmer chegou a se referir ao Linux – em referência aos sistemas operacionais abertos e livres com os quais o Windows compete – como um “câncer” no mundo dos negócios em tecnologia.

    Chris Wanstrath, que confessou que há 10 anos “nunca teria imaginado” ter sua empresa comprada pela Microsoft, disse que naquela época a “Microsoft era uma empresa totalmente diferente”.

    Com Nadella, as coisas mudaram. A empresa abriu códigos de softwares como Visual Studio Code, passou a integrar produtos seus com sistemas operacionais abertos baseados em Linux como o Ubuntu, da Canonical, e adquiriu a Xamarin, empresa criada por Nat Friedman, que conta com softwares abertos voltados para desenvolvimento mobile.

    Na publicação sobre a aquisição do GitHub, Nadella diz que hoje a Microsoft está totalmente dedicada ao código aberto. “Estivemos numa jornada com o código aberto e hoje estamos ativos nesse ecossistema (...) Quando se trata do nosso compromisso com o código aberto, julguem-nos pelas ações que tomamos no passado recente, nossas ações hoje e no futuro”, disse.

    15 mil

    é o número de colaboradores em um projeto da Microsoft no GitHub, o mais popular da plataforma. Segundo o cofundador Chris Wanstrath, a Microsoft “é a empresa mais ativa do GitHub no mundo”.

    Comunidade desconfiada

    O esforço de Nadella visa minimizar preocupações de desenvolvedores com o que a Microsoft pode vir a fazer com o GitHub. “Eu não estou pedindo pela sua confiança, mas estou comprometido a ganhá-la”, escreveu Nat Friedman em sua primeira publicação à frente do GitHub.

    Um indicador dessa preocupação é o anúncio do GitLab, um serviço concorrente do GitHub, de que o número de repositórios por lá havia se multiplicado por 10 ainda no domingo – quando a compra pela Microsoft era apenas um rumor.

    Parte dos desenvolvedores têm considerado todo o histórico da Microsoft para decidir se abandonam o “novo” GitHub, e levantam dúvidas sobre transparência, privacidade ou ainda sobre a capacidade da Microsoft de conseguir manter as coisas “simples” no GitHub.

    Há ainda quem aponte a aquisição como uma oportunidade da Microsoft de “empurrar” seus próprios produtos e serviços aos desenvolvedores. É o que acredita, por exemplo, a concorrente GitLab. Em publicação que parabeniza o GitHub pelo negócio, ela diz que a “implicação estratégica de longo prazo parece ser a de que a Microsoft quer usar o GitHub como um meio de aumentar a adoção do Azure”, seu serviço de computação na nuvem.

    “Desenvolvedores por natureza são geralmente desconfiados das ambições de empresas”, disse um analista da Gartner ao The New York Times. “A Microsoft vai ter que demonstrar sua boa vontade em colocar os interesses dos desenvolvedores à frente de qualquer agenda específica da Microsoft.”

    Tanto Satya Nadella, quanto Nat Friedman e Chris Wanstrath reforçaram, em suas declarações, que o objetivo é manter o GitHub aberto e intacto mesmo depois da aquisição.

    De acordo com o atual chefe da Microsoft, desenvolvedores “continuarão a poder usar a linguagem de programação, ferramentas, sistemas operacionais que quiserem para seus projetos”. Segundo Nadella, as intenções da Microsoft se resumirão a “acelerar” o uso do GitHub por desenvolvedores a serviço de grandes empresas de tecnologia (por meio da sua estrutura de vendas e parcerias) e a “levar as ferramentas e serviços de desenvolvimento da Microsoft para novas audiências”.

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