Foto: Eric Gaillard/Reuters

Mulher realiza mamografia em exame de rotina, em Nice, na França, em 2012
Mulher realiza mamografia em exame de rotina, em Nice, na França, em 2012
 

Em um caso inédito, médicos conseguiram fazer com que o câncer de mama não reincidisse na paciente americana Judy Perkins, de 49 anos. Ela apresentava um quadro avançado da doença, que havia passado por metástase, ou seja, havia se espalhado para outras partes do corpo.

Eles realizaram em 2016 um tipo de tratamento chamado de imunoterapia, que usa o próprio sistema imunológico de pacientes como base. Os médicos responsáveis são ligados ao Instituto Nacional do Câncer do governo americano, e descreveram o tratamento e seu sucesso na edição de junho de 2018 da revista acadêmica Nature Medicine.

Segundo o trabalho, a paciente havia tentado várias hormonoterapias e tipos de quimioterapia, mas não tinha obtido sucesso em impedir que o câncer continuasse a avançar. Apesar do caso grave, mais de 22 meses após o tratamento com a imunoterapia, o câncer não retornou.

O sucesso levanta a expectativa de desenvolvimento de um novo tipo de tratamento para um grupo de cânceres chamado de “cânceres epiteliais comuns”. Eles começam a se desenvolver em um tecido celular chamado de “epitélio”, que reveste as superfícies externas, assim como diversas cavidades internas do corpo humano.

Entre esses cânceres estão variedades que afetam seios, reto, pâncreas e pulmões.

“Uma vez que esses cânceres se espalham, a maior parte das pessoas morre. Não possuímos métodos efetivos para eliminar cânceres metastáticos”, afirmou em entrevista ao site da revista Forbes Steve Rosenberg, chefe da seção de cirurgia do Centro para Pesquisa em Câncer do Instituto Nacional do Câncer, ligado ao governo dos Estados Unidos. Ele esteve entre os organizadores do estudo.

Como o tratamento foi feito

Os médicos realizaram biópsias, ou seja, extraíram fragmentos dos tumores do corpo da paciente para análise. Eles detectaram a presença de 62 proteínas com mutações.

Em seguida, extraíram das biópsias células conhecidas como “linfócitos infiltrantes de tumor”. Tratam-se de tecidos desenvolvidos pelo próprio sistema imunológico. Os que foram encontrados na paciente não haviam sido capazes de erradicar o câncer sozinhos.

Em seguida, realizaram testes para descobrir quais das células eram capazes de detectar algumas das 62 proteínas com mutações presentes no câncer, e que seriam, portanto, mais efetivas ao atacá-lo.

Eles encontraram linfócitos infiltrantes de tumor capazes de detectar quatro das mutações, e os usaram como base para produzir novas células similares.

Enquanto isso era feito, a paciente também recebeu doses de Pembrolizumab, um medicamento que auxilia no combate ao câncer.

Em seguida, os médicos trataram a paciente injetando em seu corpo cerca de 80 bilhões dos linfócitos produzidos.

Eles aplicaram um medicamento chamado de Keytruda, que modifica o sistema imunológico para impedir que ele interfira na ação dos linfócitos infiltrantes de tumor após eles serem reinjetados no corpo.

Depois de 42 semanas, os pesquisadores realizaram testes na paciente, e concluíram que ela estava livre de câncer. A doença não voltou a se manifestar até o momento.

Recentemente, a paciente Judy Perkins navegou por grande parte do estado da Flórida em uma viagem de caiaque. Segundo informações do jornal americano Wall Street Journal, ela planeja continuar a viagem pela província canadense de Nova Escócia.

A expectativa que surge com o estudo

É difícil precisar qual foi o papel das células injetadas, e qual foi o papel do Pembrolizumab no processo de melhora. Mas, anteriormente, o uso isolado do medicamento não havia sido capaz de obter esse tipo de resultado, um indício de que a nova terapia é o motivo da melhora da paciente.

“Nós desenvolvemos tratamentos com os próprios linfócitos dos pacientes, que são naturais, não foram criadas com engenharia genética. Não dá para pensar em um tratamento mais altamente personalizado”, afirmou Rosenberg à Forbes.

Segundo o médico, o tipo de tratamento descrito na pesquisa tem potencial de tratar qualquer tipo de câncer. E com a vantagem de que é pouco tóxico, quando comparado aos tratamentos empregados atualmente.

Em fala publicada pelo Wall Street Journal, Rosenberg afirmou que acredita que a técnica “representa as melhores oportunidades para encontrar imunoterapias efetivas para pacientes com esses tumores agressivos que causaram mais de 500 mil mortes no ano passado neste país [os Estados Unidos]”.

Segundo a Forbes, a mesma equipe do Instituto Nacional do Câncer conseguiu bons resultados usando linfócitos infiltrantes de tumores para tratar outros tipos de câncer com metástase: colorretal, cervical e de duto biliar.

Novos testes no horizonte

Em 2017, o governo americano estabeleceu um acordo no valor de US$ 215 milhões com 11 empresas farmacêuticas para que estudem o uso de imunoterapia. Atualmente, companhias como Bristol-Myers Squibb e Iovance Biotherapeutics estão realizando testes de tratamentos de câncer com uso de linfócitos infiltrantes de tumor.

Mesmo assim, o tratamento ainda é considerado experimental, e não está claro se ele funciona em todo tipo de caso. Uma outra paciente que passou pelo mesmo procedimento morreu em outubro de 2017.

Como é altamente especializado, trata-se também de um tipo caro de terapia. Mesmo que os bons resultados obtidos nesse caso descrito na Nature sejam mantidos na paciente e replicados em outras pessoas, o tratamento ainda precisará passar por um longo caminho antes de se tornar acessível.

Em entrevista ao Wall Street Journal, a oncologista Megan Kruse, do hospital Cleveland Clinic, afirmou que avanços como o descrito no trabalho da Nature são raros, e que há motivo para otimismo. Mas afirma que o tempo e o nível de individualização do tratamento podem significar “uma potencial limitação da abordagem”.

 

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