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Do prestígio à renúncia, a trajetória de Pedro Parente na Petrobras

Pressão e desgaste político gerados por movimento grevista de caminhoneiros levam executivo a deixar o comando da estatal

    A Petrobras informou a seus acionistas, pouco depois das 11h20 de sexta-feira (1), que Pedro Parente não é mais presidente da empresa. O pedido de demissão do executivo, preferido dos investidores para comandar a petroleira, foi comunicado ao presidente Michel Temer um pouco antes, em Brasília.

    A renúncia ao cargo ocorre em meio a grandes protestos de caminhoneiros e empresas de transporte, que pararam o Brasil bloqueando estradas desde 21 de maio e forçaram o governo a reduzir o preço do óleo diesel.

    Antes mesmo de ir falar com Temer, Parente havia redigido uma carta em que explica os motivos de seu pedido de demissão. Ele agradeceu ao presidente dizendo que teve autonomia para administrar a Petrobras de maneira independente, sem interferência política, mas que, diante da crise, a saída é o melhor para a empresa.  Ele completaria dois anos de Petrobras no sábado (2). Para o lugar de Parente, o Conselho de Administração escolheu o diretor financeiro Ivan de Souza Monteiro para presidir interinamente a Petrobras.

    “Novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente”

    Pedro Parente

    trecho da carta de demissão

    As novas discussões a que Parente se refere são a respeito da política de preços implantada por ele na Petrobras e que vem sendo muito criticada nas últimas semanas tanto por políticos aliados do governo como pela oposição.

    Parente pediu demissão 12 dias depois do início dos bloqueios nas estradas. Além da pressão dos caminhoneiros, Parente é alvo de protestos do setor dos petroleiros. Na quarta-feira (30), eles paralisaram suas atividades para demonstrar insatisfação com a administração de Pedro Parente e pediam sua demissão.

    O executivo chegou à Petrobras em junho de 2016, pouco depois que Temer assumiu a Presidência. Seu plano era recuperar as finanças da empresa, que sofria com prejuízos e abalos na confiança desde as revelações de esquemas de corrupção pela Lava Jato. Para isso, Parente vendeu ativos e implantou uma política em que os combustíveis no Brasil acompanham o preço do mercado internacional.

    Para o caixa da Petrobras, a administração de Parente foi bem-sucedida. Essa foi a avaliação dos investidores, que passaram a pagar muito mais caro pelas ações da empresa.

    Valendo mais

     

    Por outro lado, por acompanhar somente o mercado internacional, a Petrobras promoveu constantes aumentos nos últimos dois anos. O preço médio da gasolina, influenciado pelo preço do petróleo no mercado internacional e pelo dólar, saltou de R$ 3,65 para R$ 4,28.

    Custando mais

     

    A rigidez da política de preços, voltada para o lucro da empresa, e os constantes aumentos dos combustíveis nos últimos meses causaram um mal-estar social que desencadeou a greve dos caminhoneiros no fim de maio. Que culminou na crise que agora custa o cargo de Pedro Parente.

    O Nexo relembra sua passagem pela Petrobras em cinco atos.

    A posse

    Parente tomou posse em 2 de junho de 2016, duas semanas depois de ser anunciado pelo governo, acionista majoritário, como o escolhido para comandar a Petrobras. Os investidores ficaram animados com o histórico e o discurso do indicado.

    “Não haverá indicações políticas na Petrobras. […] Isto foi uma orientação clara que o presidente Temer me passou. Então, vou ser claro e taxativo com relação a este ponto: não haverá indicação política, o que vai facilitar muito a vida do Conselho de Administração e a minha vida própria porque, se isso fosse o caso, o que não será, certamente, elas não seriam aceitas.”

    Pedro Parente

    em entrevista após ser anunciado presidente da Petrobras

    A política

    Em poucos meses à frente da Petrobras, Parente anunciou uma redução de investimentos e venda de patrimônio. O objetivo principal era reduzir a dívida da empresa. Em outras palavras, a empresa abria mão de tentar crescer nos próximos anos para arrumar a casa e pagar as dívidas. A ideia também era ampliar mecanismos de governança corporativa e combate à corrupção dentro da companhia.

    Foi nesse contexto que foi implantada a política de preços para os combustíveis. A ideia era evitar prejuízos registrados principalmente durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando o governo, que controla a Petrobras, fixou preços abaixo dos praticados no mercado internacional para segurar a inflação.

    Os leilões do pré-sal

    Já sob as novas regras de exploração do pré-sal, aprovadas pelo governo Temer com o apoio da administração de Parente, a Petrobras participou em outubro de 2017 do leilão de campos de petróleo do pré-sal.  A grande novidade com a nova regra era que a Petrobras não precisava mais participar da exploração de todos os campos, abrindo mais espaço para a iniciativa privada. 

    Dos oito campos leiloados, a Petrobras participará da exploração de três. Todos em parceria com petroleiras privadas como Shell, Repsol e a chinesa CNOOC. O leilão foi considerado um sucesso pelo governo.

    A multa

    Em janeiro de 2018, a gestão de Pedro Parente deu mais uma demonstração de que estava disposta a recuperar a confiança de investidores. A Petrobras entrou em acordo e aceitou pagar R$ 9,5 bilhões em multas a acionistas estrangeiros que se sentiram lesados pela política de preços do governo Dilma e pelos erros de administração da empresa que permitiram a corrupção.

    Mais uma vez, as ações da empresa se valorizaram, mesmo com o desfalque que o pagamento da multa causava no caixa. A valorização era consequência da percepção de que a administração de Parente estava comprometida em indenizar e amenizar perdas de quem investiu e se sentiu lesado.

    A postura na crise

    O recente aumento no preço do petróleo e a valorização do dólar na comparação com o real aumentaram os preços dos combustíveis e colocaram Parente sob pressão política e da sociedade. No dia 23 de maio, quando a greve dos caminhoneiros começava a afetar a rotina dos brasileiros, o presidente da Petrobras anunciou uma redução e um congelamento no preço do diesel.

    Desde o início da crise, a preocupação foi reforçar que não havia interferência política na administração da Petrobras nem mudança na política de preços. Parente justificou a medida, mal vista pelo mercado, dizendo que a empresa agiu com “responsabilidade social” diante de uma situação grave.

    O governo Temer assumiu o custo do subsídio ao diesel e garantiu que não haveria prejuízos ao caixa da Petrobras, mas não encerrou a crise na empresa. Na quarta (30), petroleiros contrários à administração da empresa chegaram a fazer uma paralisação. Um dia antes de pedir demissão, Parente gravou um vídeo em que defendia as mudanças implementadas na empresa e a política de preços.

    Quem é Pedro Parente

    Parente tem 65 anos e é formado em engenharia eletrônica pela Universidade de Brasília. Ingressou no Banco Central com 20 anos de idade e trilhou carreira no funcionalismo público. Foi secretário de Planejamento no governo de Fernando Collor e ministro de Planejamento, da Energia e da Casa Civil no governo de FHC.

    O momento de maior desgaste em sua fase na Esplanada dos Ministérios se deu em em 2001 e 2002, no meio da crise de fornecimento de energia elétrica que provocou apagões no país. Ganhou na imprensa o apelido de “ministro do apagão”, por ter sido o coordenador, no governo, dos esforços para superar a crise elétrica.

    No setor privado, foi vice-presidente executivo do grupo de comunicação RBS e presidente executivo no Brasil da Bunge, uma multinacional do setor de alimentos. Junto com sua esposa, fundou uma empresa especializada em gestão de fortunas, a Prada Assessoria.

    Há pouco mais de um mês, assumiu a presidência do conselho de administração da BRF, do ramo alimentício. Até esta sexta (1), ele acumulava o cargo com o comando da Petrobras.

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