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Como estão as investigações da polícia sobre o caso Marielle Franco

Apesar de apontar suspeitos, polícia ainda não chegou a uma conclusão sobre o caso

     

    Marielle Franco foi assassinada com quatro tiros na cabeça no dia 14 de março de 2018 no centro do Rio de Janeiro, em um atentado contra o carro em que estava. O motorista, Anderson Pedro Gomes, também morreu. Ela era vereadora pelo PSOL e atuava na defesa dos direitos humanos.

    O crime contra uma representante eleita em 2016 chocou o país e motivou manifestações em diversas cidades. Autoridades pediram apuração imediata do caso, mas, passados quase três meses do assassinato, ainda não há conclusão definitiva sobre os autores.

    No início de maio, os investigadores da Polícia Civil do Rio de Janeiro passaram a divulgar ações mais contundentes em torno do caso, inclusive com a prisão de suspeitos. Na última semana, a polícia prendeu Thiago Bruno Mendonça, apontado por um delator como responsável por estudar o cotidiano da vereadora antes do crime, clonar a placa do carro usado na execução e por matar uma testemunha.

     

    Entenda o caminho seguido pela polícia no último mês, em três pontos:

    Delação contra vereador e miliciano

    A partir do dia 8 de maio, o jornal O Globo passou a publicar o teor do depoimento de um delator à Polícia Civil indicando pela primeira vez suspeitos de serem mandantes e executores do crime. O nome do delator foi mantido sob sigilo.

    Segundo o jornal carioca, ele trabalhara como segurança do líder miliciano Orlando de Curicica, um ex-policial militar.

    O delator afirma que Orlando de Curicica e o vereador Marcello Siciliano (PHS)  planejaram o assassinato. Orlando de Curicica já estava preso quando Marielle Franco foi assassinada, e teria comandado o crime da cadeia.

    O homem não identificado diz também que dois policiais militares e outros dois homens a mando de Oliveira estavam no carro usado na execução. O jornal não revelou o nome das pessoas apontadas como executores.

    Ainda segundo informações de O Globo, o delator afirmou que Siciliano e Orlando são parceiros em negócios criminosos, e que Marielle incomodava a ambos por sua atuação junto a comunidades na zona Oeste. Elas seriam de interesse da milícia de Orlando, mas ainda estariam sob influência de grupos de traficantes.

    Tanto Siciliano quanto Orlando de Curicica negam as acusações.

    O delator também afirmou que o assassinato de um líder comunitário que trabalhara como assessor de Siciliano, Alexandre Pereira, o Alexandre Cabeça, em 8 de abril, teria sido “queima de arquivo”.

    Segundo informações do jornal Folha de São Paulo, ele estaria em um churrasco na rua quando dois homens se aproximaram em uma moto. O homem da garupa teria disparado vários tiros.

    O vereador Siciliano havia sido ouvido pelos investigadores do caso Marielle poucos dias antes do assassinato de Alexandre Cabeça.

    O delator afirma ainda que o assassinato do policial militar reformado Anderson Claudio da Silva, em 10 de abril, também foi “queima de arquivo”.

     

    Prisão de suspeitos de participação

    Pouco mais de uma semana depois da delação, a polícia prendeu duas pessoas acusadas de participar do assassinato de Alexandre Cabeça.

    No dia 19 de maio, a polícia prendeu em caráter temporário Rondinele de Jesus da Silva, conhecido como Roni.

    E, na quarta-feira (30), prendeu Thiago Bruno Mendonça, de 33 anos, conhecido como Thiago Macaco.

    Segundo informações da revista Veja, Thiago Macaco foi preso no interior de uma loja no shopping Nova América, no bairro de Del Castilho, zona Norte do Rio.

    O delator que denunciou Orlando de Curicica e Siciliano aponta Thiago Macaco também como responsável por levantar informações sobre a rotina da vereadora durante o planejamento do assassinato.

    Ele também é apontado como o responsável pela clonagem do carro Cobalt utilizado na ação.

    O carro usava uma placa de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, que pertence, no entanto, a outro veículo. Até o momento, a polícia não foi capaz de encontrar o carro usado no crime.

    A polícia ainda busca um terceiro suspeito de participar da “queima de arquivo”, Ruy Ribeiro Bastos, de 38 anos. E investiga a participação de uma quarta pessoa.

     

    Conclusões sobre modelo da arma

    Inicialmente, a informação divulgada à imprensa era de que uma pistola de calibre (diâmetro do cano da arma) de 9 milímetros com silenciador havia sido utilizada no assassinato de Marielle Franco.

    Atualmente, a polícia está trabalhando  com a hipótese de que a arma tenha sido uma submetralhadora alemã de precisão HK MP5, com calibre de 9 milímetros. Ela é capaz de disparar 13 tiros por segundo, e é normalmente usada por forças especiais das polícias.

    Segundo reportagem publicada no dia 6 de maio pela TV Record, há apenas 40 armas desse modelo nas mãos da Polícia Civil do Rio de Janeiro, e outro lote menor em batalhões de força especial, como o Bope. O tráfico não costuma utilizar esse tipo de armas, e tem preferido o fuzil, afirma a reportagem.

    O modelo da arma reforça a suspeita de que o crime tenha ocorrido com participação de milicianos, que são grupos criminosos com participação de policiais e ex-policiais.

    A HK MP5 foi uma das armas testadas durante a reconstituição do assassinato de Marielle Franco, na madrugada de 12 de maio. Os policiais pediram que testemunhas ouvissem o barulho dos tiros e dissessem qual era mais similar ao do crime.

    Em uma operação contra milícias na quarta-feira (30) na comunidade de Chaperó, na cidade de Itaguaí, policiais apreenderam uma arma de modelo HK MP5, entre outros itens. Houve troca de tiros, e um suspeito, Ruan de Oliveira Dias, conhecido como Traquinas e Ganso, foi preso.

    A polícia não afirmou que a ação tinha ligação com o caso Marielle Franco. Mesmo assim, avalia que o modelo da arma é relativamente pouco usado no Rio. Por isso, ela foi enviada para o Instituto de Criminalística Carlos Éboli, que realizará uma análise em busca de sinais de que foi a usada no assassinato de Marielle Franco.

     

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