Por que o PT escolheu Márcia Tiburi para disputar o governo do Rio

Partido convidou a filósofa para substituir o ex-ministro Celso Amorim, cotado para ser vice na chapa presidencial encabeçada por Lula

     

    O PT convidou a filósofa e escritora Márcia Tiburi para ser a candidata do partido ao governo do Rio de Janeiro nas eleições de 7 de outubro de 2018. A informação foi confirmada ao Nexo por Alberto Cantalice, vice-presidente nacional do PT. “Ela foi convidada, mas ainda não respondeu ao nosso convite. Ela expressa uma renovação na política”, disse Cantalice.

    A legenda contava com a pré-candidatura do ex-ministro Celso Amorim para a disputa fluminense, mas ele desistiu de concorrer. Seu nome não empolgava o eleitor. Em 10 de maio, o Instituto Paraná publicou  uma pesquisa que colocava Amorim em sexto lugar na corrida ao Executivo carioca, com apenas 3,6% das intenções de voto. O líder na corrida estadual é o senador Romário (Podemos), com 26,9%. Em segundo , está o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (MDB), com 14,1% das intenções de voto.

    Amorim aparece atrás do ex-governador Anthony Garotinho (PRP), que chegou a ser preso em 22 de novembro de 2017, durante uma operação da Polícia Federal que investigava crimes eleitorais.

     

    Quem quer disputar o governo do Rio

     

     

    Caso aceite o convite, Márcia Tiburi pode ser a única mulher entre os postulantes ao Palácio Guanabara. “O PT defende que as mulheres assumam cada vez mais o protagonismo das mulheres na política”, afirmou Cantalice ao Nexo.

    Segundo reportagem publicada pelo jornal Extra, a decisão do PT em trocar de candidato foi tomada na sexta-feira (25), durante um encontro de parlamentares de esquerda na casa do antropólogo Luiz Eduardo Soares.

    Amorim é cotado para ser vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa à Presidência da República. Lula está preso desde o dia 7 de abril, mas sua pré-candidatura tem sido mantida pelo partido, mesmo sem ter garantias de que a Justiça vá autorizá-lo a concorrer o cargo.

    O objetivo é lançar Amorim o quanto antes como vice de Lula para que ele possa viajar pelo país em nome do ex-presidente, de quem é amigo e em cujo governo foi ministro de Relações Exteriores. Nos cálculos do PT, Amorim seria ainda um bom nome para substituir Lula, caso o ex-presidente seja proibido de disputar a Presidência pela Lei da Ficha Limpa. Além disso, seria uma opção bem vista por outros partidos, caso o PT decida se coligar com outra legenda. Uma possibilidade que foi aventada nos bastidores é a de Amorim ser vice na chapa do pré-candidato do PDT Ciro Gomes.

    Quem é Márcia Tiburi

    Professora de filosofia na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), Tiburi é um nome identificado com partidos da centro-esquerda. Ela é autora de livros como “O Ridículo Político” e “Como conversar com um fascista”.

    Em 24 de janeiro, Márcia abandonou um programa de rádio em Porto Alegre durante a transmissão assim que descobriu que dividiria o estúdio com o líder do Movimento Brasil Livre Kim Kataguiri. Os dois iriam travar um debate sobre o julgamento do recurso de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região no processo do tríplex.

    A filósofa participava normalmente do programa quando Kataguiri entrou no estúdio, ela interrompeu a fala e se dirigiu ao apresentador:

    “Me avisa da próxima vez quem você convida para o seu programa. Deus me livre. Que as deusas me livrem. Tenho vergonha de estar aqui. Gosto tanto de ti, mas não falo com pessoas que são indecentes, que são perigosas”.

    Márcia Tiburi

    filósofa e escritora 

    Diante da mudança de estratégia do PT para disputa estadual do Rio, o Nexo perguntou a dois cientistas políticos sobre os significados desse movimento do partido. São eles:

    • Eduardo Viveiros, pesquisador de ciência política da PUC-SP
    • Deysi Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP

    Qual vantagem o PT pode ter ao trocar Amorim por Márcia Tiburi na disputa ao governo do Rio?

    Eduardo Viveiros Amorim é um quadro do PT mais conhecido até nacionalmente. Pode ter seu nome escolhido para uma composição com outros partidos de centro-esquerda e da esquerda. O PT nunca foi forte na disputa do executivo no Rio, e lançar um nome novo, uma figura mais ligada à área intelectual, que expressou críticas ao próprio partido, pode indicar uma disposição à composição também em nível estadual, aproximando o PT do PSOL, por exemplo. De qualquer modo, renovar o quadro partidário e preparar figuras de peso para possíveis composição são indicadores de que o PT começa a sair do imobilismo e do choque trazidos com a prisão de Lula. Resta ver como se comportarão as lideranças do partido em outros Estados e, principalmente, em nível nacional.

    Deysi Cioccari Trocar Celso Amorim pela filósofa Márcia Tiburi no Rio num momento em que o país inteiro ainda permanece sob a comoção da morte da vereadora Marielle traz à tona a discussão da  participação da mulher na política como agente transformador. É uma forma de colocar a mulher no centro do debate não como injustiçada, como ainda o é Marielle, mas como protagonista. A presença de Márcia na política traz o debate do feminismo para a pauta num momento em que a luta das mulheres tem sido um dos grandes temas de reflexão da sociedade. Além de tudo, ela enquadra-se no outsider: não tem o ranço da velha política e é uma mulher de opiniões fortes e com presença acadêmica relevante. É uma pensadora dos tempos atuais, diferente de todos os outros candidatos.

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Marcia Tiburi é professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), quando na verdade ela é professora da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). A informação foi corrigida às 15h33 de 17 de agosto de 2018.

     

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