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Como uma geleira registrou o auge e o declínio econômico do Império Romano

Detritos gerados pela produção de prata da civilização antiga ficaram acumulados em uma área da Groenlândia, analisada por pesquisadores em estudo

     

    Ainda que os níveis de poluição tenham atingido novos patamares após a revolução industrial no século 18, a humanidade já mantinha atividades produtivas que deixavam sua marca ecológica no planeta milênios antes disso. No caso da civilização romana, que dominou o continente europeu por mais de 600 anos, por exemplo, uma das principais formas de contaminação do ar era causada pela intensa mineração de jazidas de galena.

    O mineral, que contém altas quantidades de sulfeto de chumbo em sua composição, era a principal fonte para se obter a prata usada na fabricação do denário, moeda oficial adotada por Roma durante séculos. O minério era obtido em seu estado puro após ser derretido em fornalhas de cerâmica, processo que liberava na atmosfera grande quantidade de partículas de chumbo. O próprio chumbo, da mesma maneira, também era refinado para servir à fabricação de encanamentos e ao revestimento de casco de barcos, por exemplo.

    Investigando vestígios do tipo, um novo trabalho desenvolvido por uma equipe de historiadores, arqueólogos e ambientalistas, de universidades da Europa e dos Estados Unidos, conseguiu uma estimativa precisa para a poluição causada por atividades econômicas na região do Mediterrâneo entre os anos de 1.100 a.C e 800 d.C. O período compreende o auge e declínio de Roma, além do surgimento e queda de civilizações como a dos fenícios, cartagineses e visigodos.

    Ao analisar amostras de chumbo encontradas na Groenlândia, o grupo mapeou como a emissão de poluentes em território europeu há mais de dois milênios acompanhou eventos históricos, pela expansão de impérios, guerras e surtos de doenças. Durante períodos de estabilidade econômica e financeira, o natural aumento da produção de prata, dessa forma, reflete um maior acúmulo de poluentes.

    Após sair das fornalhas romanas, o chumbo viajava pelo continente por meio de correntes de ar, e era acumulado na água congelada da região. Devido a milênios de acúmulo não só de gelo mas de outros materiais vindos pelo vento e água, tais geleiras podem ser analisadas como verdadeiros termômetros para a poluição. Como explica a Nasa, o gelo da Groenlândia, por conta disso, pode oferecer também insights sobre registros de temperatura, precipitação e atividades vulcânicas.

    Conforme descrito no estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os cientistas analisaram camadas de gelo profundas, com mais de 400 metros de comprimento, retiradas com o auxílio de perfuradores potentes.

    Ao derreter os blocos de gelo lentamente, o grupo pôde investigar a natureza de partículas poluentes presentes nas amostras e, asim, atribuí-las à produção de minérios na Espanha e em outros países da Europa ao longo de quase 2 mil anos. Segundo os pesquisadores, as 25 mil medições feitas no material fornecem uma leitura anual precisa do período, com margem de erro de apenas dois anos.

    “O aumento das emissões coincide com a expansão do império fenício e se intensifica no período em que cartagineses e romanos focam na exploração de prata na Península Ibérica. Emissões acompanham guerras e instabilidade política, particularmente ao longo do período republicano de Roma, atingindo seu máximo no período imperial antes de retrair no século 2, época que coincide com o aparecimento da peste Antonina”

    trecho do artigo, publicado na revista científica PNAS

    Como registrado em uma linha do tempo desenvolvida pelos pesquisadores, e recriada neste link pela revista The Economist, o aumento na poluição coincide com as vitórias romanas nas Guerras Púnicas, travadas com Cartago entre os séculos 3 e 2 a.C. Sabe-se que após a derrota dos cartagineses, Roma teria assumido a produção de prata que o império do general Aníbal mantinha na Península Ibérica. O metal da região teria qualidade superior ao extraído pelo Império Romano de minas da Grécia e sul da Itália.

    Outros momentos históricos da civilização romana também aparecem associadas a altas e baixas na concentração de chumbo. O período republicano, de recessão e perda de territórios, contrasta com períodos de paz e prosperidade, tais como a época conhecida como Pax Romana. Entre 27 a.C. até 180 d.C., Roma viu seu auge político, com a consolidação do império e progresso econômico.

    Em 64 d.C, época do imperador Nero, Roma diminui a quantidade de prata utilizada para fazer cada denário. A emissão total de poluentes, como explica a revista The Atlantic, também sofre uma queda nesse momento. O mesmo acontece por influência da peste Antonina, que se inicia durante o reinado de Marco Aurélio, no ano 165 d.C, e dura até o ano 180. Durante a peste de Cipriano, pandemia que acomete a Europa entre os anos 250 e 270, há outro declínio considerável na produção.

    As emissões, por fim, registram uma baixa absoluta durante a crise do século 3, quando o Império é abalado por desgastes internos e invasões bárbaras. O período marca o momento em que a prata deixa de ser utilizada na produção de dinheiro, e metais como ouro e cobre passam a ser priorizados.

    Como destacou à Science Joe McConnel, que liderou o estudo, o trabalho revela o poderio econômico do império romano, uma das civilizações mais prósperas da história antiga. Segundo McConnel, o impacto da produção de prata de Roma ao meio ambiente, ainda que detectável milênios após seu fim, é estimado em 50 vezes menor do que o total de chumbo produzido na região ao longo do século 20.

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