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Como os generais rechaçam a ideia de ‘intervenção’

Militares que atuam como ministros da Defesa e da Segurança Institucional fazem crítica direta aos que pedem a volta da ditadura no Brasil

 

Em fevereiro de 2017, o comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, abriu uma conta no Twitter. Desde então, ele vem fazendo dessa rede social um posto avançado das opiniões do Exército a respeito dos mais diversos temas.

Em pouco mais de um ano, Villas Bôas já opinou sobre combate à criminalidade, o politicamente correto, a intervenção no Rio de Janeiro e até o julgamento de um pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo.

Até então, o posto avançado de Villas Bôas nas redes era um local seguro. Mas o ambiente mudou radicalmente a partir da última semana do mês de maio de 2018, quando milhares de caminhoneiros e de empresas de transporte paralisaram as rodovias do Brasil para cobrar do governo principalmente a redução no preço dos combustíveis.

Um setor radical e antidemocrático da sociedade viu no caos provocado pelas paralisações uma oportunidade de que o Exército decretasse o início de uma “intervenção militar” – nome usado para se referir a golpe e ditadura. Ao apoiar os caminhoneiros, esses grupos esperavam prolongar e tensionar os protestos, derrubar o governo e colocar os militares no poder.

Porém, cinco dias depois do início das paralisações, o presidente Michel Temer decretou o emprego das Forças Armadas para desobstruir vias e escoltar comboios. Coube a Villas Bôas implementar o decreto. E foi sobre ele também que recaíram as críticas dos que esperavam do general uma ação em favor dos caminhoneiros e da dita “intervenção militar”. Villas Bôas foi chamado de “frouxo” e de “comunista” nas redes. A maior parte das mensagens dirigidas a ele são cobranças e ofensas:

Para Villas Bôas, são ‘malucos’ e ‘tresloucados’

 

O comandante do Exército não respondeu a nenhuma dessas mensagens. Apesar de os pedidos de “intervenção” terem se multiplicado – houve até mesmo protestos diante de quartéis, com manifestantes pedindo, de joelhos, a volta da ditadura – Villas Bôas se manteve, desta vez, em silêncio.

Há, entretanto, pelo menos uma manifestação clara e direta do general a esse respeito. Em 2016, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Villas Bôas se referiu aos que defendem um golpe de Estado como “malucos” e “tresloucados”. Essa entrevista voltou a circular recentemente, pois foi republicada pelo próprio jornal em sua página na internet.

“Esses tresloucados, esses malucos vêm procurar a gente aqui e perguntam: ‘Até quando as Forças Armadas vão deixar o País afundando? Cadê a responsabilidade das Forças Armadas?’” E o que ele responde? “Eu respondo com o artigo 142 da Constituição. Está tudo ali. Ponto.”

General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

Comandante do Exército Brasileiro, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia 10 de dezembro de 2016, mencionando o artigo da Constituição que fala da subordinação das Forças Armadas ao presidente da República

Para Silva e Luna, ‘intervenção é inconstitucional’

 

Nesta quarta-feira (30), o ministro da Defesa, general de Exército Joaquim Silva e Luna, também se expressou de maneira clara e direta contra os que saem às ruas e protestam na porta dos quartéis para pedir um golpe militar.

Silva e Luna, que chefia a pasta à qual estão subordinados Exército, Marinha e Força Aérea, disse que “as Forças Armadas trabalham 100% apoiadas na legalidade, com base na Constituição e sob autoridade do presidente da República”. 

O general também disse que se incomoda com os pedidos de “intervenção militar”, porque “pode dar a impressão de que as Forças Armadas estão por trás de uma insuflação, o que não é verdade”.

“Intervenção militar é inconstitucional. O caminho do acesso ao poder é pelo voto. É o único caminho.”

General de Exército Joaquim Silva e Luna

Ministro da Defesa, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, no dia 30 de maio de 2018

Para Etchegoyen, é ‘assunto do século passado’

 

Outro general de Exército, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sergio Westphalen Etchegoyen, também se pronunciou sobre os pedidos de “intervenção militar”, no auge da crise provocada por caminhoneiros e empresas do setor de transportes.

Para ele, os pedidos pela volta da ditadura no Brasil são “um assunto do século passado”, que “não têm nenhum sentido”. Em conversa com jornalistas, Etchegoyen perguntou: “Por que nós chegamos a uma situação em que a sociedade, ou parte da sociedade, ou parte de um movimento ou oportunistas de qualquer lado acham que isso [intervenção militar] é uma solução razoável?”

“Não vejo nenhum militar, não vejo Forças Armadas pensando nisso, não conheço absolutamente”

General de Exército Sergio Westphalen Etchegoyen

Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, em entrevista a jornalistas, no dia 29 de maio de 2018

 

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