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Como a volta de Serena Williams levanta o debate sobre licença maternidade

Tenista que ocupava primeiro lugar do ranking mundial voltou ao esporte depois de mais de um ano afastada. Pela regra, Williams volta ‘rebaixada’

    No dia 29 de maio, a tenista americana Serena Williams jogou sua primeira partida em Roland Garros desde o nascimento de sua filha, em setembro de 2017. 

    Williams venceu a checa Kristyna Pliskova por dois sets a zero na primeira rodada do torneio.

    A competição faz parte do Grand Slam, conjunto de quatro torneios de tênis que formam os eventos mais importantes do ano para a modalidade.

    A atleta ficou um ano e um mês fora das quadras. Quando saiu de licença maternidade, em abril de 2017, ela era a número um no ranking da Women’s Tennis Association (WTA). Atualmente, no retorno da licença, sua posição é a 451ª.

    A colocação das jogadoras nesse ranking é essencial – é ela que determina quem enfrenta quem nas rodadas de um torneio, de modo a não permitir que duas competidoras muito bem colocadas se encontrem logo no começo, o que garante uma competição mais equilibrada.

    No tênis, os torneios são disputados no formato mata-mata. Isso significa que enfrentar as melhores jogadoras já nas primeiras rodadas é correr o risco de ser eliminada no início do torneio e somar poucos pontos para o ranking.

    Essa classificação é consequência do desempenho da atleta em partidas das últimas 52 semanas.

    Como Williams ficou fora das quadras durante a licença maternidade, sua posição no ranking da WTA caiu. As tenistas que estão no topo do ranking são cabeças de chave nas competições.

    Por conta disso, a tenista não foi cabeça de chave em Roland Garros. O mesmo aconteceu no WTA de Indian Wells, em março, em que Serena foi derrotada pela irmã Venus Williams na terceira rodada, e no Aberto de Miami, em que perdeu na primeira rodada para a jovem Naomi Osaka.

    O “rebaixamento” gerou discussões a respeito da política de licença maternidade em vigor para as profissionais do tênis, que estaria, segundo alguns, penalizando-as por engravidar.

    “Para usar um exemplo do mundo real, Williams saiu de licença maternidade e, quando voltou ao seu emprego, descobriu que teria que começar do zero para voltar à posição em que estava antes”, diz uma reportagem do jornal americano USA Today.

    Antes da licença

    Em janeiro de 2017, a americana Serena Williams venceu o torneio Aberto da Austrália contra sua irmã, Venus Williams. Com a vitória, ergueu pela 23ª vez um troféu do Grand Slam, um recorde entre mulheres e homens.

    Embora ainda não tivesse divulgado a notícia, Williams já estava grávida de 8 semanas, mostrando que as mulheres estão longe de ser frágeis, enfatizou a jornalista esportiva Natasha Henry em um artigo para o jornal The Guardian.

    O que diz o regulamento atual

    No sistema atual, implementado em 2017, jogadoras que se ausentam devido a uma gravidez têm direito a se valer da regra do ranking especial da Women’s Tennis Association.

    Essa regra lhes dá acesso, no período de um ano a partir de seu retorno, a oito torneios, incluindo dois Grand Slams. Além disso, podem entrar em competições que já venceram.

    Independentemente de quão alta tenha sido sua classificação no ranking antes da licença, porém, elas retornam sem prioridade na organização do chaveamento desses torneios, fazendo com que sejam escaladas para enfrentar logo de cara as tenistas mais fortes, melhor classificadas no ranking mundial, como ocorreu com Williams no Indian Wells e no Aberto de Miami em 2018.

    O debate em torno da revisão

    Algumas jogadoras que estão no topo do ranking, como Maria Sharapova, Simona Halep (primeira colocada desde outubro de 2017) e a própria Serena Williams, são favoráveis à revisão dessa regra.

    A regra atual acaba dissuadindo tenistas profissionais a terem filhos no início da carreira. “Não deveria ser preciso parar tudo só porque você quer ter um filho quando é jovem”, disse Williams em uma entrevista recente. “Enquanto mulher, deveria ser possível escolher engravidar, ter um filho e ainda conseguir ter uma carreira.”

    A filha e conselheira do presidente Donald Trump, Ivanka Trump, defendeu a mudança da regra do ranking especial em seu perfil no Twitter, dizendo que ninguém deve ser penalizado profissionalmente por ter filhos.

    Victoria Azarenka, que já ocupou a primeira posição do ranking, também deu à luz recentemente e, como membro do conselho de jogadoras da WTA, vem liderando esse projeto de revisão.

    Em março, Azarenka disse ao site especializado Tennis que a questão era complexa, uma vez que, olhando para a trajetória de atletas como ela e Williams, seria justo que tivessem prioridade no chaveamento dos campeonatos ao retornarem, mas a mudança da regra teria que valer para todas, inclusive para as que ocupam posições inferiores no ranking.

    Algumas dessas atletas que ocupam posições mais baixas do ranking são contra a revisão. Na visão da tenista Mandy Minella, que também retornou recentemente de sua licença maternidade, Williams é tão boa que retornará ao topo, sem haver necessidade de que se mude a regra, Minella disse à BBC.

    Além disso, segundo destaca Minella, a mudança tiraria o lugar de uma jogadora que se esforçou o ano todo por uma colocação melhor no chaveamento.

    Globalmente, alterar a regra contribuiria para a manutenção do status quo no ranking, dando vantagem às que tem mais vitórias no histórico.

    A revisão conta com o apoio de organizadores dos eventos esportivos. Após a derrota de Williams no Aberto de Miami, James Blake, ex-jogador e diretor do torneio, disse que a regra deve mudar por ser um “tipo de punição”, protegendo, assim, as atletas que tiram a licença maternidade. 

    Para os organizadores, a presença de estrelas como Serena Williams é comercialmente importante, já que elas atraem público para o evento. Interessa mantê-las no torneio pelo maior número de rodadas possível, permanência que é afetada pelo chaveamento.

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