O efeito da crise dos caminhoneiros na economia e nos cofres públicos

Com mercadorias paradas nas estradas e incertezas sobre as próximas semanas, investimentos podem ser cancelados e consumo se retrair

     

    A paralisação de caminhoneiros e empresas de transporte rodoviário são o principal acontecimento do país em 2018. O movimento é a causa da maior crise política do governo Michel Temer desde que o presidente conseguiu se livrar no Congresso das acusações feitas no âmbito das delações da JBS.

    Desde o início da greve, em 21 de maio, o governo Temer já anunciou dois acordos com os caminhoneiros, mas os bloqueios continuam. Levantamento divulgado pela Polícia Federal na tarde de segunda-feira (28) apontava 556 trechos de bloqueio em todo o país.

    Temer tem pressa para acabar com a paralisação pelo desgaste político que ela causa e pelo caos gerado pelo desabastecimento. Mas também porque, sem caminhões, o país deixa de fechar milhares de negócios diariamente, o que é um duro golpe numa economia que já patinava antes do atual impasse.

    A economia é justamente o principal ponto da plataforma de Michel Temer desde que chegou à Presidência, em maio de 2016. O plano do presidente e de sua equipe econômica era promover reformas que amenizassem o problema das contas públicas e adotar medidas favoráveis ao setor privado. A ideia era de que, com a retomada da confiança e com condições mais favoráveis, as empresas voltassem a investir.

    Tecnicamente, o Brasil deixou a recessão no fim de 2016, mas o desemprego continua alto e as projeções para o crescimento do país em 2018 vêm sendo reduzidas - inclusive pelo próprio governo federal. Do ponto de vista da economia, a paralisação pode piorar o quadro.

    Em quatro dias úteis, o dólar aumentou 3% e o índice Bovespa caiu 8,8%. Estimativa do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) é de que apenas entre 20% e 40% da indústria nacional não estejam sendo afetados pela greve.

    Custo para a atividade econômica

    Com mercadorias de todo tipo paradas na estrada, são incontáveis os negócios que deixam de ser feitos. Parece óbvio, mas produtos parados na estrada não são vendidos pelos supermercados nem comprados por consumidores. Com o desabastecimento, diminui-se o consumo a economia gira mais lentamente. Sem combustível, as pessoas deixam de fazer viagens ou mesmo deixam de ir ao trabalho.

    Levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo mostra que o país deixou de fazer negócios estimados em R$ 10 bilhões nos primeiros cinco dias de paralisação. Esse total abrange também o desperdício na indústria alimentícia, como a morte de frangos, o apodrecimento de carne bovina e o descarte de leite.

    O jornal O Estado de S. Paulo fez um levantamento com setores da economia que reclamam de perdas ainda maiores: R$ 34 bilhões em oito dias. Só a indústria pecuária teria deixado de fazer negócios entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões.

    O IBPT estima que a perda total em oito dias de paralisação foi de R$ 26 bilhões. O número representa cerca de 1,63% do Produto Interno Bruto medido em reais no primeiro trimestre de 2017.

    Custo para o governo federal

    O governo federal perde de duas maneiras: deixando de arrecadar impostos e com novos gastos para atender às demandas dos caminhoneiros.

    A perda na arrecadação se dá porque parte dos tributos federais são cobrados sobre o faturamento das empresas e dependem da atividade econômica. Com a economia mais lenta, a arrecadação cai. O levantamento do IBPT estima que a perda do governo federal diretamente em impostos chegou a R$ 3,86 bilhões.

    O governo perde dinheiro também ao ceder às reivindicações dos caminhoneiros. O Tesouro Nacional vai bancar a redução de R$ 0,46 no preço do litro do diesel. O governo vai pagar R$ 9,5 bilhões à Petrobras para que ela reduza R$ 0,30 no valor do litro.

    A outra parte do desconto virá com a retirada de tributos sobre o diesel: o governo aceitou zerar as alíquotas de Cide e Pis-Cofins. Para compensar a perda de arrecadação no diesel, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, anunciou que o governo deve aumentar impostos.

    Com ou sem os gastos, as contas públicas fecharão o ano com déficit primário. A meta do governo é um prejuízo de R$ 159 bilhões.

    Custo na confiança

    A incerteza na economia causada pela paralisação pode abalar ainda a confiança na economia. Isso afeta diretamente as perspectivas de agentes econômicos para o futuro.

    O governo de Michel Temer tentou, desde o início, aumentar a confiança do empresariado e incentivar o investimento privado. Mas a situação instável na política, e agora também na atividade econômica, pode retrair investimentos.

    Diante de incertezas e de quadro de instabilidade, é comum que empresários segurem investimentos temendo prejuízos. Com menos investimentos, a economia cresce menos.

    Além disso, aumentam os receios sobre a segurança jurídica e o cumprimento de contratos. Primeiro porque a redução no preço do diesel pela Petrobras foi entendida pelos investidores como uma intervenção do governo na empresa. Desde o anúncio, na noite de terça-feira (23), as ações da companhia caíram 36% mesmo com a diretoria da Petrobras garantindo que a empresa não vai arcar com os custos da redução.

    Outra medida que impacta o ambiente de negócios é a suspensão da cobrança de pedágio para caminhões vazios. A medida pode trazer prejuízos para empresas que controlam as rodovias.

    O governador de São Paulo Márcio França disse que com a isenção as empresas que operam as estradas no estado deixarão de arrecadar R$ 50 milhões por mês. O estado de São Paulo, que tem a maior malha de estradas privatizadas do país, vai recompensar as empresas.

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