O que resta a Temer. E o que há de novo na ação dos caminhoneiros

Resistência dos caminhoneiros em acatar nova proposta de acordo para encerrar a greve amplia desgaste do presidente. Dois cientistas políticos avaliam efeitos do movimento a uma gestão tão impopular

     

    Restam sete meses de governo para o presidente Michel Temer. Reeleito em 2014 como vice de Dilma Rousseff, Temer tornou-se o chefe do Executivo em maio de 2016, no processo de impeachment da petista, e desde então sua gestão é atropelada por sucessivas crises.

    O presidente conseguiu sobreviver em 2017 às duas denúncias apresentadas no âmbito da delação da JBS. A despeito da maioria de votos na Câmara para barrar as acusações, o fato de ter sido alvo de denúncias por crime comum – algo inédito para um presidente – reduziu a força política de Temer no Congresso (custando-lhe, por exemplo, a votação da reforma da Previdência).

    Em paralelo, seu governo vem lidando com resultados econômicos instáveis e com a taxa de desemprego alta. O efeito de tantas turbulências se traduz na avaliação de Temer, o presidente com o mais alto índice de rejeição desde a redemocratização.

    É nesse cenário em que o presidente tenta lidar com a greve de caminhoneiros, em curso desde o dia 21 de maio de 2018. Em pouco mais de uma semana, o movimento provocou bloqueios e protestos em todos os estados e no Distrito Federal, o que vêm resultando no desabastecimento de combustíveis, mercadorias e alimentos pelo país, além da interrupção de serviços públicos e da paralisação de setores industriais.

    A reação de Temer e a incerteza

    Após acionar as Forças Armadas para lidar com os bloqueios nas estradas, Temer cedeu e anunciou novo acordo na noite de domingo (27) que atendida a boa parte das reivindicações da categoria, cuja queixa principal gira em torno do preço do óleo diesel.

    Ainda assim, até o início da noite de segunda-feira (28), os protestos persistiam. Representantes de caminhoneiros que participaram das negociações com o governo disseram-se satisfeitos com as propostas, mas afirmaram que precisariam de tempo para comunicar os grevistas. A situação, em parte, reflete a ausência de um núcleo organizador da greve, capaz de representar toda a categoria.

    O movimento, que começou com as demandas de caminhoneiros autônomos (que respondem por cerca de 30% do total da frota), rapidamente ganhou a adesão de funcionários de empresas de transporte e, indiretamente, dos próprios empresários – o que motivou o governo a pedir investigações por suspeita de ação ilegal das empresas, o chamado locaute.

    Nesta segunda-feira (28), o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que “infiltrados” com interesses políticos atrapalham o fim dos protestos. Muitos pedem a queda de Temer e uma intervenção militar no governo.

    A resistência amplia o desgaste do presidente, que já se vê sob ameaça de paralisação dos petroleiros, prevista para durar 72 horas a partir de quarta-feira (30).

    Diante desse cenário, dois cientistas políticos analisam a amplitude do movimento dos caminhoneiros e a força dele para um governo impopular e a poucos meses de seu fim. São eles:

    • Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor da FGV-SP
    • José Álvaro Moisés, professor de ciência política da USP

    Como o sr. define a paralisação dos caminhoneiros?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira  Podemos dar um passo atrás: foi uma paralisação anunciada, que o governo ignorou. Além de ignorar, nem sequer monitorou. Toda essa falta de atenção em torno de um evento previamente anunciado deixou o governo com a capacidade de reação muito curta. A greve chega num momento em que a crise econômica não parece ter arrefecido e, ao mesmo tempo, tem uma pauta [preço do combustível] difícil enfrentar e com potencial de adesão muito grande.

    Hoje [segunda-feira, dia 28] já vimos na [avenida] Paulista uma mega paralisação de vans escolares – algumas delas com faixas pedindo a intervenção militar. Esse é um ponto interessante porque está claro que, quem fala pelos caminhoneiros [com o governo], não fala pelos caminhoneiros.

    A acusação do governo de que se trata de locaute [greve organizada pelos empresários] faz sentido, mas não explica tudo. Ao que parece ninguém mais tem controle num protesto dessa natureza. As lideranças não têm cara. Nesse aspecto lembra um pouco os protestos de [junho de] 2013, um movimento bem horizontal, sem ninguém que fale por ele.

    José Álvaro Moisés Não é fácil definir esse movimento. Houve em algum momento indicação de que organizações sindicais tinham a condução. Mas ao mesmo tempo, quando elas participaram do acordo do governo, houve continuidade da greve. Acho que isso é um indicador de que tinha não apenas interesses corporativistas muito fortes, mas também interesses políticos.

    Num certo sentido, [o movimento] combinou reivindicações de natureza econômica com demanda política, com uma certa tentativa de aproveitar a circunstância de um governo extremamente frágil, com uma popularidade muito baixa, e acima de tudo um governo que não projeta autoridade sobre a sociedade. Não está claro ainda com quais objetivos – embora tenham aparecido indicações de que alguns participantes tenham interesse em intervenção militar.

    Isso me leva para um diagnóstico de que houve combinação de diferentes interesses e motivações. O ponto essencial é que esse movimento fez uma captura do governo brasileiro. Fez uma captura e conseguiu, com base na sua ação, na sua força, obrigar o governo a se ajoelhar e fazer uma concessão que vai ter um custo alto para a sociedade.

    Quando os caminhoneiros conseguiram mexer tanto com a política?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira  Em 2015 [no governo Dilma] e durante o governo Fernando Henrique [em 1999] houve paralisações de vulto. Essa é mais forte e uma diferença importante é que essa é a “paralisação do Whatsapp”. No passado não havia essa ferramenta, que confere um nível maior de organização ao movimento.

    O fato de essa greve ocorrer em um governo tão desgastado piora a situação, sem dúvida. O grau de confiança do governo para negociar é muito baixo e ele se torna uma presa muito mais fácil das reivindicações.

    O governo atendeu praticamente tudo e, por mais que as lideranças [do movimento] batam martelo, as bases querem mais. É difícil qualificar esse movimento justamente por isso. Não é possível saber onde vai chegar tudo isso, não há interlocução clara e com uma pauta muito difusa.

    José Álvaro Moisés Me lembro de uma greve durante o governo Fernando Henrique [em 1999], mas não de ter havido esse efeito. Quando se tem um governo sem autoridade perante à sociedade (autoridade considerada legítima e que de alguma forma dá uma força moral para o governo agir), isso passa a sinalização de que os atores que podem encostar o governo na parede podem fazer qualquer coisa sem nenhuma preocupação.

    Essa característica, da impopularidade do governo Temer, sem legitimidade reconhecida, é um fator que pesou muito no tipo de ação adotado pelo movimento dos caminhoneiros.

    O que resta do governo Temer?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira Resta chegar ao final do mandato e fazer a política do arroz com feijão, a exemplo do que fez José Sarney [ex-presidente da República, entre 1985 e 1990] e evitar conflitos.

    Acho que esse movimento enterra qualquer possibilidade de Henrique Meirelles [ex-ministro da Fazenda de Temer e pré-candidato do PMDB à Presidência] ser vice do Geraldo Alckmin [ex-governador paulista e pré-candidato do PSDB]. Não diria com muita convicção que o PSDB vai bancar [ter] o tempo de TV do PMDB [na campanha eleitoral] por um desgaste gigantesco de se aliar a um governo tão desgastado.

    José Álvaro Moisés Diria que com relação às expectativas que o governo criou depois do processo de impeachment e quando assumiu o Planalto [em maio de 2016], as expectativas foram inteiramente jogadas ao mar. Foi perdendo progressivamente, desde o momento da organização da equipe (sem a presença de mulheres, por exemplo), depois com as denúncias da Lava Jato.

    Em outubro de 2017, eu dizia que o governo Temer iria passar por um processo de sarneyzação, quer dizer, vai ter um destino parecido com o do Sarney, que não conseguia fazer mais nada no final. Eu vejo que meu diagnóstico foi insuficiente. O que estamos vivendo é uma situação pior.

    O governo não completou o ciclo de reformas e a impressão que dá é que o governo está o tempo todo se escondendo da sociedade. Há um grau e um nível de contestação e indignação com os rumos do governo que é muito alto, e o governo não dialoga. Ele fala sem resposta, não ecoa. O presidente fez um pronunciamento ontem [domingo, 27] e não tem eco. É como se as pessoas não acreditassem.

    Há precedente na história do Brasil de um fim de governo assim?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira O paralelo seria o governo Sarney. Ele terminou o governo com inflação altíssima e sem nenhuma capacidade de se tornar um interlocutor de qualquer coisa. Tanto que tinha aquela expressão da política “arroz com feijão”.

    Hoje o ideal é que Temer termine o governo senão a crise será muito maior. Primeiro o governo tem de sair dessa crise. Depois, evitar pautas políticas que causem divisões e ficar distante das eleições.

    José Álvaro Moisés O único governo que eu me lembre que teve um final melancólico como esse foi o do presidente José Sarney. No final ele não conseguia ter apoio do Congresso, [não conseguia] implementar grandes iniciativas que pudessem resolver questões do país. Temer está nessa situação.

    A impressão que dá é que o governo vai tomando ações erraticamente, com objetivo de não submergir no mar de denúncias e de problemas. A intervenção militar no Rio parecia solucionar um problema [da violência], mas não tinha planejamento e os resultados são muito parcos – afora o fato que compromete a imagem das Forças Armadas. Agora esse movimento e todo esse caos gerado pelo desabastecimento, a primeira pergunta que vem é: o governo não tinha informações de que isso pudesse ocorrer?

    Há quase um efeito dominó. O governo afunda cada vez mais sem ter condições de oferecer alternativa para a sociedade, que está desesperadamente pedindo um rumo.

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