Quais as chances de Meirelles ser mesmo candidato a presidente

Ex-ministro da Fazenda foi anunciado por Temer como seu representante na eleição. Impopularidade do governo e momento ruim da economia atrapalham

     

    Aprovado por apenas 5% dos brasileiros, Michel Temer anunciou na terça-feira (22) que não será candidato à reeleição em outubro.

    Mais do que isso, o presidente da República deu seu apoio público a seu ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como nome do MDB na corrida ao Palácio do Planalto.

    Quando assumiu o cargo, em maio de 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Temer dizia que não seria candidato. Depois passou a cogitar entrar na disputa para defender seu governo na eleição. A tarefa, no que depender do presidente, ficará a cargo de Meirelles.

    “Ficarei orgulhosíssimo se um dia, no plano pessoal e institucional, se um dia o Meirelles for proclamado pelo voto popular presidente da República Federativa do Brasil. (...) O Meirelles é o melhor dentre os melhores”

    Michel Temer

    presidente da República, em evento do MDB em Brasília

    O ex-ministro da Fazenda fez a maior parte de sua carreira no setor privado, mas nunca escondeu suas pretensões políticas.

    Foi eleito deputado federal pelo PSDB em 2002. No ano seguinte, abriu mão do mandato para assumir o Banco Central no governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

    Com a queda de Dilma, Meirelles tornou-se o principal nome da equipe econômica de Temer por quase dois anos. Mais recentemente, deixou o partido ao qual estava filiado, o PSD, no fim da janela partidária, para entrar no MDB de Temer.

    Desde abril, Temer e Meirelles vinham repetindo o discurso de que decidiriam pacificamente qual deles seria o candidato. Mas nem a desistência de Temer garante a candidatura de Meirelles.

    Obstáculos

    Resistência no MDB

    Meirelles foi anunciado por Temer, mas isso, formalmente, não tem nenhum valor. As convenções partidárias, que decidem oficialmente sobre candidaturas, só começam em 20 de julho (com prazo final para registro em 15 de agosto).

    Temer foi presidente do MDB por anos e ocupa o cargo mais importante do país, mas nem por isso tem controle total sobre seu partido. Outros líderes da legenda, como Renan Calheiros, inclusive, fazem oposição ao governo.

    O anúncio de Meirelles já despertou reações no partido. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, foi o primeiro a criticar a escolha. “Ele [Meirelles] nunca exerceu nenhum mandato pelo MDB. Não sei nem por quais partidos ele passou. Sei que do MDB ele não é”, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

    Desempenho ruim nas pesquisas

    Na mais recente pesquisa Datafolha, divulgada em abril, Henrique Meirelles não ultrapassa os 2% em nenhum dos cenários. Os números do ex-ministro são tão ruins quanto os de Temer.

    Caso Meirelles não se mostre viável até junho, os emedebistas podem optar por abortar a pré-candidatura e apoiar outro nome. Geraldo Alckmin (PSDB), que aparece com no máximo 8%, seria o favorito para receber o tempo de TV do MDB.

    Governo impopular

    Meirelles está mal nas pesquisas e o governo pode ser uma dificuldade a mais. Apoiado por Temer, ele seria o encarregado de defender na campanha o legado de um governo reprovado por 72% da população. Considerando a hipótese de que alguém que reprova o governo não vota no candidato oficial, o teto do ex-ministro é baixo.

    Na campanha, Meirelles não só seria o representante de Temer, o que é um problema diante da maior parte do eleitorado, mas também seria ligado às medidas do governo. Como principal nome da equipe econômica, ele esteve na linha de frente de reformas impopulares como o teto de gastos e as mudanças trabalhistas.

    Economia fraca

    A principal esperança eleitoral do governo e de seus aliados era que a economia reagisse em 2018. Temer e Meirelles implantaram medidas de incentivo ao setor privado na expectativa de que houvesse retomada da confiança e, consequentemente, de investimentos.

    O problema é que a economia tem dado sinais de fraqueza. O índice do Banco Central que mede a atividade mostrou que a economia teve uma leve retração no primeiro trimestre de 2018. O próprio governo já reduziu sua projeção de crescimento para o ano, de 2,97% para 2,5%.

    O mercado de trabalho também continua ruim. Segundo o IBGE, faltou trabalho adequado para 27 milhões de brasileiros no primeiro trimestre do ano - 13,6 milhões deles estavam completamente desocupados.

    O que pode ajudar Meirelles

    A plataforma defendida por Meirelles durante o governo Temer e ao longo de sua carreira agrada empresários e investidores. Analistas econômicos repetem que há uma busca por um candidato que se comprometa com a continuidade das reformas implantadas por Temer.

    Meirelles se encaixa nesse perfil, o que significa que ele pode ter menos dificuldade para conseguir financiamento de campanha do que candidatos hoje mais bem colocados nas pesquisas - apesar da proibição das doações empresariais, as doações de pessoas físicas estão liberadas.

    Pesa a favor do ex-ministro o fato de que nenhum dos políticos que concorrem com ele por esse apoio tem bom desempenho nas pesquisas. Além de Meirelles, os pré-candidatos de centro-direita do momento são Rodrigo Maia (DEM), que não ultrapassa 1%, e Alckmin.

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