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Os sinais de que a hostilidade étnica é contagiosa, segundo este estudo

Trabalho publicado na revista acadêmica Pnas indica que estudantes tenderam a ser mais hostis com pessoas de minorias étnicas após verem colegas sendo hostis

 

Alguns dos conflitos mais relevantes em curso se relacionam em maior ou menor medida a questões étnicas, como acontece em Síria, Iraque, Sudão e Myanmar. Frequentemente, esses conflitos ganham vulto rapidamente, e populações que viviam lado a lado pacificamente passam a se agredir. 

Publicado em abril de 2018 na revista acadêmica Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences), o artigo “Contágio social da hostilidade étnica” busca identificar se a hostilidade contra alguém de outra etnia tem uma tendência maior a gerar mais hostilidade. Em outras palavras, se a hostilidade contra outras etnias é especialmente contagiosa, o que poderia ajudar a explicar a aparente rapidez com que conflitos étnicos ganham vulto.

O trabalho foi realizado na Eslováquia por pesquisadores ligados ao Instituto Max Planck para Lei e Finanças Públicas, na Alemanha; à Universidade Técnica de Košice, na Eslováquia; e à Universidade de Ciências Sociais da Universidade de Charles, na República Checa.

Eles buscaram compreender se estudantes eslovacos tendiam a ser mais hostis com pessoas da etnia roma, uma das componentes do grupo conhecido no Brasil como ciganos, nos casos em que viam colegas sendo hostis. Os testes foram feitos a partir de um jogo em que os estudantes tinham o poder de tirar dinheiro de suas contrapartes.

Os roma são uma minoria étnica presente na maior parte da Europa. Assim como os judeus, eles foram perseguidos e assassinados pelo regime nazista da Alemanha, a partir dos anos 1930. Desde então, não foram alvo de nenhum processo de genocídio sistemático, mas continuam a sofrer preconceito e violência.

A conclusão dos pesquisadores foi que há sinais de que a hostilidade contra eles foi especialmente contagiosa nos testes.

Segundo o trabalho, “os resultados podem ajudar a entender por que as sociedades acharam desejável instituir leis contra crimes de ódio”, que buscam coibir a violência por discriminação contra minorias. O estudo indica que leis que instituem medidas específicas contra casos de violência contra minorias étnicas podem ser uma tentativa de evitar que uma agressão gere a escalada da violência.

 

Como a pesquisa foi feita

O teste foi aplicado em 327 jovens em 13 escolas da Eslováquia, no ano de 2013. Ele consistia em um jogo do tipo “prazer da destruição”, que é utilizado para medir a disposição a adotar comportamento destrutivo.

No teste, dois jogadores recebiam €2 cada. Eles escolhiam entre gastar €0,20 para reduzir a renda de sua contraparte em €1, ou então não gastar nada e manter a renda inalterada para si mesmo e para sua contraparte. Essa escolha podia ser realizada apenas uma vez.

Ou seja, quem escolhia fazer com que sua contraparte perdesse dinheiro arcava com um custo, e não tinha nenhum ganho, a não ser vê-la ter uma perda ainda maior. Por isso, o trabalho encara essa escolha não como um sinal de egoísmo, mas como expressão de hostilidade, e como ato de destruição.

Cenário com uma minoria étnica

Em seguida, o teste foi repetido, mas com algumas alterações, com o intuito de medir se o comportamento era diferente quando a contraparte era do grupo roma.

Os participantes foram divididos em grupos de três. Cada um deles recebeu uma contraparte que tinha sobrenome condizente com a etnia roma. Os nomes foram obtidos aleatoriamente de jovens que estudam em regiões a leste do país.

Os pesquisadores permitiram que os participantes observassem uns aos outros realizando o teste, uma forma de determinar se as atitudes eram influenciadas pelo comportamento dos pares.

O teste foi organizado de forma a reproduzir os casos em que a hostilidade étnica costuma se propagar: os integrantes do grupo de três pessoas conheciam bem uns aos outros, e observaram diretamente as decisões dos pares.

 

Contágio da hostilidade por situação

Contraparte da mesma etnia

Quando o primeiro participante foi “pacífico”, ou seja, decidia não reduzir a renda de sua contraparte da mesma etnia, o próximo realizou uma escolha 'destrutiva' em 23% dos casos - ou seja, uma escolha que reduzia a renda de sua contraparte. Quando dois participantes tomaram decisões pacíficas, o terceiro foi destrutivo em 29% dos casos.

Quando o primeiro participante era destrutivo, o próximo realizou em 51% dos casos uma escolha destrutiva. A probabilidade era, portanto, quase duas vezes maior. Quando dois participantes foram destrutivos, o terceiro foi destrutivo em 67% dos casos

Contraparte roma

Quando um participante era pacífico em relação à sua contraparte da etnia roma, o próximo participante realizou em 19% dos casos uma escolha destrutiva. Quando dois participantes eram pacíficos, o terceiro era destrutivo em apenas 18% dos casos.

Quando um participante era destrutivo em relação à sua contraparte da etnia roma, o próximo participante realizou uma escolha destrutiva em 77% dos casos. Quando dois participantes eram destrutivos, o terceiro foi destrutivo em 88% dos casos.

Segundo o trabalho, “a discriminação contra a minoria étnica cresceu quando os participantes observaram a hostilidade dos colegas de classe, e a diferença foi grande em magnitude”.

Além disso, a pesquisa afirma que, nos casos em que os participantes realizaram os testes sozinhos, a proporção daqueles que tomaram decisões destrutivas foi similar aos testes em que os outros dois colegas agiam pacificamente, fossem as contrapartes roma ou não.

“Em outras palavras, os participantes não discriminaram, a não ser que estivessem em um ambiente com pares hostis”, afirma o trabalho.

“Nossas descobertas são motivo para otimismo e cautela ao mesmo tempo. Do ponto de vista otimista, os participantes não discriminaram quando fizeram escolhas em um ambiente no qual os pares são pacíficos, o que é encorajador, à luz da ampla preocupação a respeito da natureza frequente da discriminação étnica. Do ponto de vista pessimista, no entanto, o comportamento hostil em relação aos roma é muito mais contagioso socialmente do que o relativo àqueles da mesma etnia.”

Trabalho “O contágio social da hostilidade étnica”, publicado em abril de 2018 na Pnas

O próprio trabalho aponta, no entanto, algumas de suas limitações. Uma delas é que na Eslováquia é comum que roma vivam segregados do resto da sociedade, e isso pode ter influenciado nos resultados. “Experimentos futuros poderiam explorar se nossas descobertas se mantêm em casos nos quais as pessoas vivem em comunidades mais etnicamente mistas.”

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