Foto: Reprodução

Flip (Adam Driver) e Ron (John David Washington) em cena do filme ‘BlackkKlansman’
Flip (Adam Driver) e Ron (John David Washington) em cena do filme ‘BlackkKlansman’

O enredo de “BlacKkKlansman” seria puramente hilário não fosse o fato de ser baseado em uma história real e envolver um dos grupos de ódio americano responsáveis pela morte de mais de 3 mil negros nos Estados Unidos desde o século 19.

O filme é cria do premiado diretor Spike Lee, conhecido por incluir a temática racial em suas produções, como em “Faça a coisa certa” (1989),  “Malcolm X” (1992) e “A Hora do Show” (2000).

No sábado (19), “BlacKkKlansman” levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Durante a semana que antecedeu a premiação, após ser exibido ao público presente, Spike Lee e equipe foram ovacionados por seis minutos.

Depois da França, o filme ainda deve ser exibido em outros festivais antes de fazer sua estreia no circuito comercial no dia 10 de agosto, nos Estados Unidos.

O título do longa, co-produzido por Jordan Peele (“Corra!”), já dá uma boa ideia do que vem pela frente. O filme conta a história de um policial negro (“black”) que se infiltra no KKK (Ku Klux Klan) na década de 1970 para tomar nota dos seus planos, como o de plantar bombas em bares gays, e pôr fim às suas atividades.

O “Klan” foi um dos grupos de ódio racial mais atuantes dos Estados Unidos desde o século 19, embora com níveis de organização e letalidade diferentes ao longo do tempo.

Os recentes casos de violência contra negros e as manifestações de grupos supremacistas brancos como os vistos em Charlottesville, em 2017, deram urgência aos planos do diretor Spike Lee de lançar o filme. Bem como um final diferente para o longa.

“O filme tinha outro final, mas liguei a televisão e vi na CNN o atropelamento em Charlottesville. Sabia que tinha que contá-lo. Falei com a mãe da assassinada, Heather Heyer, e ela me deu sua bênção para que aparecesse no filme.”

Spike Lee

Cineasta

Um negro no Klan

Embora o roteiro soe improvável, senão absurdo, ele retrata a história real do policial negro Ron Stallworth (interpretado no filme por John David Washington), revelada pelo próprio à imprensa em 2006, ano em que se aposentou da polícia, e depois por meio do livro “Black Klansman”, de 2014. Em razão do filme, o livro ganhará uma nova edição, prevista para junho de 2018.

Stallworth nasceu no estado do Texas, no sul dos Estados Unidos. Por volta dos 20 anos em 1972, mudou-se com a família para Colorado Springs, a maior cidade do estado do Colorado, na porção central do país.

Foto: Divulgação/Columbia College

O verdadeiro Ron Stallworth com o livro em que conta sua história, publicado em 2014
O verdadeiro Ron Stallworth com o livro em que conta sua história, publicado em 2014

Seu sonho de ser policial coincidiu com uma política de diversidade recém-adotada pela polícia local. Com a entrada aprovada, Stallworth se tornou o primeiro negro a fazer parte da força policial no município.

Uma vez dentro, Stallworth passou a buscar outro sonho: tornar-se um agente disfarçado. A oportunidade veio em 1977, quando Stokely Carmichael, figura central do grupo negro Panteras Negras, deu uma palestra na cidade e Stallworth foi escalado para acompanhar a visita do ativista.

Depois da operação, o policial foi transferido para a área de inteligência. Em 1979, já no novo cargo, Stallworth nota um anúncio da Ku Klux Klan, que buscava interessados em se unir à causa, nos classificados de um dos jornais locais. Ele então saca o telefone e disca o número indicado no papel. Na outra ponta, um sujeito que se dizia um oficial militar atende e confirma que o KKK buscava recrutas para criar uma filial na cidade.

“Eu então falei para ele que eu era um homem branco e que odiava negros, judeus, mexicanos, asiáticos; e que achava que os homens brancos não tinham recebido a justa parte neste país (...) Por isso eu queria me juntar ao grupo e acabar com esse absurdo. Ele me disse que eu era exatamente o tipo de pessoa que eles procuravam e que tinha muito interesse em me encontrar pessoalmente.”

Ron Stallworth

Em entrevista à NPR, em 2006

Um judeu no Klan

Com a sugestão do encontro cara a cara, Stallworth criou para si um problema: por ser negro, ele obviamente não poderia mostrar a sua. Foi então que ele, ainda ao telefone, passou a se descrever para os membros do Klan com que iria se encontrar. A descrição seguiu fielmente a aparência – incluindo as roupas – do seu colega de trabalho Chuck (chamado de Flip no filme, interpretado por Adam Driver), que além de branco era judeu, grupo que também era alvo declarado do ódio dos “Klansmen”.

Foto: Divulgação

Cartaz do filme ‘BlackkKlansman’, de Spike Lee
Imagem do cartaz do filme ‘BlackkKlansman’ (2018), de Spike Lee

Dessa forma – com o verdadeiro Stallworth mantendo contato por telefone e Chuck, presencialmente –, a investigação transcorreu por sete meses. No período, os agentes se tornaram próximos até do líder da organização, David Duke, chamado pela hierarquia do grupo de o “Grand Wizard” (o grande mago).

“Eu perguntei ao David Duke em uma das minhas conversas (...) se ele não tinha medo de ter um policial disfarçado na organização dele ou de um homem negro fazer contato fingindo ser branco. Ele disse que não, não tinha nenhum receio sobre isso porque ele sempre sabia distinguir se estava falando com um negro.”

Ron Stallworth

Fim da investigação

Após sete meses envolvido no grupo supremacista, Stallworth foi convidado a chefiar o grupo em Colorado Springs em razão da sua “lealdade” e “dedicação”.

Nesse ponto, os superiores do agente acharam por bem encerrar a investigação, que já havia até ali frustrado algumas atividades – como rituais de queima de cruz – dos Klan na cidade, bem como revelado a identidade de membros do grupo no exército americano.

Stallworth seguiu ainda por mais quase três décadas no posto de investigador. Além do prestígio, o caso com a KKK rendeu algumas boas risadas e um certificado de membro assinado de próprio punho por Duke, mantido como decoração pelo ex-agente na sua antiga sala. 

Em 2006, Stallworth relembrou dos tempos em que lidava com o grupo formado, segundo ele, por “idiotas racistas”.

“Para ser honesto, a gente dava muita risada de tudo isso”, disse. “Pelo fato de que essas pessoas supostamente inteligentes estavam sendo enganadas por um dos indivíduos que eles criticavam e condenavam como sendo intelectualmente inferiores a eles.”

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.