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Os filmes em Technicolor redescobertos. E o impacto do processo no cinema

Fragmentos de obras dos anos 1920 ajudam a mapear os primeiros anos de atividade da Technicolor

     

    Uma pesquisa realizada em 2018 no arquivo nacional do Instituto Britânico de Cinema, na Inglaterra, revelou fragmentos de filmes perdidos rodados na década de 1920, fase inicial do uso do Technicolor — processo de colorização de filmes que não foi pioneiro, mas estabeleceu-se como um dos mais populares da história do cinema.

    Os trechos encontrados ajudam a descortinar a história da cor no audiovisual. Segundo uma pesquisa realizada em 2013 pela Biblioteca do Congresso americano, somente 14% dos filmes mudos produzidos nos Estados Unidos entre 1912 e 1929 ainda existem em seu formato original de produção e distribuição. E cerca de 70% das obras foram completamente perdidas.

    Uma das descobertas mais celebradas é um dos raros registros coloridos da dançarina e atriz americana Louise Brooks. Acredita-se que o fragmento faça parte de um teste de figurino para o longa-metragem perdido “American Venus”, de 1926.

    Também foram encontradas cenas dos filmes “Sally” e “Gold Diggers of Broadway”, de 1929, que estão entre os primeiros dos inúmeros musicais lançados em Technicolor.

     

    A descoberta dos fragmentos foi feita pela especialista em conservação Jane Fernandes quando examinava o longa-metragem americano “Black Pirate”, de 1926, uma das produções  mais emblemáticas dos anos iniciais do uso do Technicolor. O filme foi produzido nos Estados Unidos e doado pelo MoMA (o museu de arte moderna de Nova York) ao Instituto em 1959.

    Em um vídeo que reúne trechos dos filmes encontrados, Fernandes explica que as cenas de Louise Brooks foram encontradas nas extremidades do rolo de “Black Pirate”. Isso provavelmente se deve ao antigo hábito de anexar outros conteúdos à bobina do filme principal para protegê-lo durante a inserção no projetor ou para testar a qualidade de sua exibição.

    Possivelmente pela mesma razão, a maioria dos trechos encontrados é feita de imagens de testes de elenco, trailers ou tomadas alternativas — sequências curtas que podem não ter sido inseridas na obra principal.

    Impacto no cinema colorido

    Quando a empresa Technicolor foi fundada, em 1915, filmes em cores já existiam. Eram pintados à mão, quadro a quadro, ou coloridos a partir de filtros especiais aplicados durante a projeção.

    A marca ganhou relevância ao levar as cores para os estúdios de gravação, eliminando a necessidade de projetores especiais e permitindo que os filmes coloridos fossem exibidos em qualquer auditório.

    Seu maior legado, no entanto, foi o desenvolvimento pioneiro de uma câmera capaz de combinar três cores primárias — vermelho, verde e azul — quando outras tecnologias não conseguiam trabalhar com mais que duas.

    “Especialmente no início dos anos 1920, o processo era de duas cores [verde e vermelho], então era difícil capturar todo o espectro”, disse James Layton, um dos autores de “The Dawn of Technicolor” ao The Atlantic. “Não era possível captar os azuis, roxos ou amarelos. Se você filmasse algo roxo, provavelmente sairia preto ou marrom”. A dificuldade em trabalhar com tons de azul inviabilizava nos filmes a precisão de cenas de praia, imagens de água ou do céu, que ganhavam tons esverdeados.

    A partir da combinação de três cores e da técnica conhecida como dye-transfer (“transferência de corantes”, em tradução livre), um processo de colorização que parte de três matrizes de impressão utilizando magenta, ciano e amarelo, a Technicolor inaugurou a estética que marcou o cinema do século 20, presente em clássicos como “O Mágico de Oz”, de 1939, e “Dançando na Chuva”, de 1952.

    O filme escolhido para estrear o processo e apresentá-lo ao público foi o curta-metragem da Disney “Flores e Árvores”, lançado em 1932.

     

    A década de 1930 — graças à invenção da câmera “three-strip” — foi um divisor de águas para a empresa, que ganhou a adesão de grandes estúdios de cinema,  sobretudo após o sucesso de filmes como “Branca de Neve e os Sete Anões”, de 1937, e “As Aventuras de Robin Hood”, de 1938. Em 1940, “...E o Vento Levou” foi a primeira produção colorida (e em Technicolor) a ganhar um Oscar na categoria melhor filme.  

    O avanço das tecnologias de colorização mudou a maneira como espectadores assistiam às produções cinematográficas e também como profissionais do cinema pensavam suas narrativas. Uma das cenas que melhor descrevem o impacto do Technicolor está em “O Mágico de Oz”, quando Dorothy deixa seu mundo sépia para entrar em Oz, um lugar vivamente colorido.

     

    A técnica de tingimento dava liberdade aos profissionais de ajustar a paleta de cada filme, alterando o ciano, o amarelo e o magenta, o que resultava nas cores intensas e vibrantes que se tornaram marca da empresa.

     

    Em meados da década de 1950, mais da metade dos filmes de Hollywood já eram coloridos, e o sucesso da cor no cinema culminou no desenvolvimento de novas tecnologias de colorização.

    Outras empresas começaram a disputar mercado com a Technicolor, que perdeu adesão para técnicas mais baratas, como a chamada Eastmancolor, ligada à Kodak. O processo implementado pela marca continuou sendo utilizado até a década de 1970. “O Poderoso Chefão Parte II”, de 1974, é uma das últimas obras coloridas pela Technicolor.

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