O que o Banco Central indica com a manutenção da Selic em 6,5%

Em cenário de inflação baixa e economia fraca, decisão surpreendeu investidores. Copom vê cenário externo como justificativa

     

    O Comitê de Política Monetária do Banco Central anunciou no início da noite de quarta-feira (16) que a taxa básica de juros da economia brasileira vai continuar em 6,5% ao ano, pelo menos até a próxima reunião marcada para 19 e 20 de junho. A decisão foi tomada por unanimidade pelos nove membros do Copom, mas surpreendeu investidores, que já contavam com uma redução na Selic.

    A expectativa foi criada pelo próprio Banco Central. Depois da reunião anterior, em março, quando houve um corte de 0,25 ponto percentual, os membros do Copom indicaram na ata que se o cenário econômico não sofresse grandes alterações haveria novo corte de juros. A expectativa era de nova redução de 0,25 ponto.

    No dia 8 de maio, já em meio à crise internacional que vem elevando o valor do dólar, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ressaltou que o Brasil estava preparado e tinha “amortecedores” para enfrentar a turbulência. Em entrevista à Globo News, o economista disse que a alta do dólar não era somente um problema brasileiro.

    “É importante saber que, num regime de metas, o Banco Central olha para a inflação, expectativa de inflação, para a atividade. É isso que importa na decisão”

    Ilan Goldfajn

    presidente do Banco Central em entrevista em 8/5

    Pelo regime de metas de inflação, implantado no Brasil em 1999, o Conselho Monetário Nacional define qual será a inflação aceitável em cada ano e dá uma margem de tolerância. O Banco Central, que controla a taxa de juros básicos no país, é o responsável por cumpri-la.

    O que indicava uma redução

    Inflação sob controle

    A inflação do Brasil segue abaixo do centro da meta estabelecida pelo governo. As expectativas colhidas para o relatório Focus (consulta semanal feita pelo BC com agentes de mercado) estão em 3,45% ao ano para 2018 - o centro da meta é 4,5%.

    A expectativa de inflação, citada por Goldfajn, está abaixo da meta. Mesmo depois que o dólar começou a se valorizar no mundo inteiro, as projeções para o IPCA (índice de inflação) continuaram diminuindo.

    Economia fraca

    A expectativa de redução dos juros era baseada também nos resultados da atividade econômica no início de 2018. No mesmo dia do Copom, o mesmo BC anunciou que o índice criado para monitorar a economia, o IBC-BR, tinha mostrado uma pequena retração no primeiro trimestre. Os juros mais baixos são um estímulo para a economia.

    O peso do cenário internacional

    Ao justificar a surpreendente decisão, o Copom afirmou, em comunicado, que está preocupado com as rápidas mudanças no cenário internacional, que têm feito moedas de países emergentes perderem valor frente ao dólar.

    No texto, os diretores dizem que o "cenário externo tornou-se mais desafiador", com aumento de riscos. Foi isso, segundo o comunicado, que "tornou desnecessária" nova redução na taxa de juros.

    Para as próximas reuniões, se nada mudar, a tendência é manter os juros em 6,5%. Se a taxa subir, será o fim de um ciclo de doze quedas no último ano e meio. Entre setembro de 2016 e março de 2018, a Selic saiu de 14,25% para os atuais 6,5%.

    Ciclo de redução dos juros

     

    Duas justificativas para a decisão

    Inflação

    Uma alta do dólar, com o tempo, pode ser um impulso para a inflação dentro do Brasil. Primeiro porque os combustíveis no Brasil acompanham o preço do mercado internacional, seguindo a nova política de preços da Petrobras. Como o transporte no país é feito, em grande parte, em caminhões, essa alta pode impactar os mais diversos setores.

    Além disso, um dólar valorizado encarece as importações. E isso afeta não só quem diretamente compra produtos importados, várias empresas brasileiras usam matéria prima produzida em outros países. Esses preços podem subir.

    Investimentos

    Não reduzir os juros básicos no Brasil é também uma maneira de manter a atratividade do real. Parte da alta do dólar no mundo é justificada pelo fato de o Banco Central americano estar aumentando suas taxas de juros - e tornando investir nos Estados Unidos um negócio melhor do que era.

    Os juros aqui são muito maiores que nos Estados Unidos porque o Brasil é considerado um país mais arriscado - por isso o investidor internacional quer um retorno maior para colocar seu dinheiro aqui.

    Caso o Banco Central resolvesse reduzir a taxa de juros, ele estaria diminuindo a diferença entre o retorno no Brasil e nos Estados Unidos - o que poderia tornar o real ainda menos atrativo em relação ao dólar. Se mais gente que tem dinheiro investido no Brasil decide trocar isso por dólares, o real se desvaloriza ainda mais.

    O dia seguinte: dólar mais alto

    A cautela do Banco Central não foi suficiente para impedir que a moeda americana batesse mais um recorde na quinta-feira (17). A cotação do dólar chegou a R$ 3,70, o maior valor desde março de 2016.

    Desde janeiro, o dólar já subiu 13% frente ao real. Outras moedas como o peso argentino, a lira turca e o rublo russo também tem perdido valor na comparação com o dólar.

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