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Por que o Facebook suspendeu 200 aplicativos suspeitos

Ação é a resposta mais recente ao escândalo da Cambridge Analytica. A consultoria política trabalhou na eleição de Trump e no processo do Brexit, e teve acesso a dados de 87 milhões de usuários do Facebook

 

Em uma nota à imprensa publicada no dia 14 de maio de 2018, o Facebook anunciou que cerca de 200 aplicativos foram suspensos da rede social, em uma medida contra a coleta indevida de dados dos usuários.

O documento é assinado pelo vice-presidente de parcerias de produtos da multinacional, Ime Archibong, que afirma que milhares de aplicativos foram investigados, mas não detalha exatamente quais.

A medida é uma resposta da maior rede social do mundo a um escândalo que eclodiu em março de 2018. Reportagens do jornal americano The New York Times e do britânico The Observer revelaram como um pesquisador coletara dados de milhões de usuários usando um quiz no Facebook, e os vendera à consultoria política Cambridge Analytica, contrariando as regras estabelecidas pela rede social.

A consultoria teve um papel central em dois processos políticos importantes. Em 2016, ela foi contratada pela campanha pró-Brexit no Reino Unido e na campanha eleitoral de Trump, nos Estados Unidos.

As reportagens se basearam no vazamento de documentos e no relato de um ex-programador da Cambridge Analytica, Christopher Wylie. No dia 16 de maio, ele foi sabatinado pelo Senado americano, e afirmou que acredita que o serviço de inteligência russo pode ter tido acesso aos dados coletados.

O caso evidenciou a facilidade com que informações de usuários do Facebook são repassadas a outras empresas sem que grande parte dos internautas tenha clareza sobre isso, em uma prática recorrente. E fortaleceu temores de que informações sobre perfil e comportamento da população sejam usadas com fins políticos.

Por exemplo: uma reportagem de fevereiro de 2018 do portal UOL mostrou como, no Brasil, testes engraçados no Facebook, com nomes como “Como você seria se fosse do outro gênero”, ou “Qual celebridade você se parece” são usados para coletar dados de usuários.

Para realizar os testes, os internautas concordam em fornecer seus dados, sem ter clareza sobre este fato, ou sobre quais empresas estão por trás dos aplicativos.

Na nota do dia 14, Archibong afirma que as investigações sobre os cerca de 200 aplicativos suspensos ainda estão em curso. Caso se comprove que usaram dados indevidamente, eles devem ser definitivamente banidos da rede social.

Usuários poderão verificar por meio de um site se eles ou seus amigos instalaram aplicativos que levam à coleta indevida de dados até o ano de 2015, quando a empresa afirma ter passado a adotar regras mais rígidas para compartilhamento de dados de seus usuários.

“Ainda é preciso trabalhar muito para encontrar todos os aplicativos que podem ter feito uso irregular de dados das pessoas no Facebook - e isso vai tomar tempo”

Ime Archibong

Vice-presidente do Facebook para parcerias de produtos

O escândalo da Cambridge Analytica

As reportagens de março de 2018 detalharam como a Cambridge Analytica, que tem sede no Reino Unido coletara os dados de 87 milhões de pessoas, principalmente americanos.

A coleta ocorreu em 2014, por meio de um teste de personalidade chamado “thisismydigitallife”, criado pelo pesquisador Aleksandr Kogan, ligado à Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e à de São Petesburgo, na Rússia.

Para participar do quiz, os participantes concordavam em fornecer informações de seus perfis, assim como dos de seus amigos, o que ampliou o alcance da estratégia.

Em seu acordo com o Facebook, Kogan fora autorizado a coletar informações apenas para fins de pesquisa, mas as vendeu à Cambridge Analytica.

A empresa afirmava ser capaz de criar “modelos psicográficos” dos eleitores, por isso as revelações levantaram o temor de que os dados do Facebook haviam sido usados para manipular as eleições nos Estados Unidos e o referendo no Reino Unido.

Tanto a empresa quanto o governo Trump negam, no entanto, que os dados tenham sido utilizados nestes eventos. E há dúvidas sobre se a consultoria política tinha de fato capacidade para fazê-lo.

Mesmo assim, o sucesso da estratégia de coleta de dados pela consultoria política alimentou questionamentos sobre o alcance e o poder do Facebook, e sobre como a empresa trata as informações que obtém de seus bilhões de usuários.

O caso se tornou um novo escândalo para a companhia, que também é dona dos aplicativos para troca de mensagens Facebook Messenger e WhatsApp, além da rede social Instagram. Todas elas têm como modelo de negócios a coleta de dados de usuários e seu uso para vender anúncios direcionados.

A resposta de Zuckerberg no Facebook

Ainda em março de 2018, o presidente e principal acionista da multinacional, Mark Zuckerberg, publicou um texto na sua conta no Facebook, em resposta às revelações das reportagens.

Ele afirmou que ainda em 2014 a companhia implementara restrições ao poder de coleta de dados dos usuários que outras empresas poderiam fazer por meio de aplicativos. Segundo Zuckerberg:

  • A partir das mudanças, aplicativos como o de Kogan não poderiam mais coletar dados dos amigos do usuário que os autorizara, a não ser que os próprios amigos também autorizassem a coleta de dados
  • Aplicativos também teriam de pedir autorização do Facebook antes de coletar 'dados sensíveis' - Zuckerberg não explica, no entanto, que tipo de dados se encaixa nesta categoria

O presidente da multinacional também afirmou que a transferência de dados de Kogan para a Cambridge Analytica fora irregular.

E que em 2015 havia banido o aplicativo thisismydigitallife, após uma reportagem do jornal britânico The Guardian revelar pela primeira vez sua ligação com a consultoria política. Zuckerberg também afirmou que a empresa pediu naquele ano que o pesquisador e a consultoria deletassem os dados que haviam sido obtidos.

Isso não foi, no entanto, o suficiente para fazer com que o escândalo arrefecesse. A multinacional já vinha sendo questionada por ter sido usada pelo governo russo em um esforço para influenciar as eleições americanas, e por dar espaço para a divulgação de notícias falsas. Após o escândalo da Cambridge Analytica, Zuckerberg foi convocado para uma sabatina no Congresso americano.

A resposta ao Congresso

No dia 10 de abril, o empresário falou aos comitês de Comércio e Judiciário do Senado dos Estados Unidos. No dia 11, ao comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes.

Na sabatina, ele revelou que seus próprios dados também haviam sido coletados pela Cambridge Analytica por meio do thisismydigitallife, e afirmou que a consultoria usou outros aplicativos em sua estratégia para ter acesso aos dados que o Facebook coletara.

“Há todo um programa associado com a Cambridge, com uma série de pesquisadores que estavam construindo aplicativos similares” , afirmou.

Questionado pela senadora pelo estado de Wisconsin Tammy Baldwin sobre se Aleksandr Kogan havia vendido os dados que obtivera para alguma outra empresa além da Cambridge Analytica, Zuckerberg afirmou que sim.

Em sua postagem no Facebook em março, Zuckerberg afirma que, após a empresa requerir que a Cambridge Analytica e Kogan deletassem os dados coletados irregularmente, “eles apresentaram essas certificações”, sem dar detalhes do que isso significava.

Na audiência do dia 10, afirmou que o Facebook trabalha em parceria com os governos de Grã Bretanha, Estados Unidos e “ao redor do mundo” para garantir que os dados sejam de fato apagados pela consultoria política.

Na mesma audiência, o senador por Dakota do Sul, John Thune, destacou que há sinais de que esse não foi o único caso do tipo. “É improvável que seja um incidente isolado; um fato demonstrado pela suspensão de uma outra empresa pelo Facebook no final de semana passado.”

Ele falava da companhia Cubeyou, dedicada à coleta de dados para a construção de perfis psicométricos com fins comerciais. A empresa fazia isso por meio de um quiz de personalidade chamado “You Are What You Like” e está entre as temporariamente suspensas pelo Facebook.

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