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Como saber se foi um robô que escreveu o que você está lendo

Ferramentas analisam comportamento de usuários no Twitter e identificam a probabilidade de o perfil ser automatizado ou ter havido atuação orquestrada para dar mais visibilidade a um assunto

 

A proximidade da campanha eleitoral, que oficialmente começa em 16 de agosto, tem mobilizado grupos e pesquisadores a fim de propor formas para tornar a troca de informações mais transparente nas redes sociais. Um dos caminhos é inibir a atuação de robôs, bastante usados para disseminar boatos e notícias falsas.

Dois projetos recentes criaram ferramentas com propósito de ajudar usuários a identificar se perfis no Twitter são, na verdade, robôs ou se algum assunto ficou em evidência graças à atuação deles.

Uma delas é o PegaBot, desenvolvido pelo ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio) e pelo IT&E (Instituto Tecnologia e Equidade). Outra é o Bot ou Humano?, parte do projeto Eleições Sem Fake, coordenado pelo Departamento de Ciência da Computação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

O que é um robô

Em uma rede social, robôs, ou bots, são perfis automatizados, programados para realizar tarefas específicas (como sempre retuitar mensagens de um outro perfil).

Robôs, no entanto, não são necessariamente ruins. A automatização pode ajudar, por exemplo, a coletar dados sobre a prestação de contas de candidatos e, assim, facilitar o trabalho do eleitor que deseja saber quem está doando dinheiro para a campanha desse ou daquele político.

Mas perfis automatizados também podem causar estragos quando usados para compartilhar informações falsas ou para inflar um debate com intuito de promover ou de prejudicar alguém (quanto mais um assunto é comentado, mais ganha visibilidade).

Nas eleições de 2014, esse fenômeno já foi registrado na campanha presidencial, como identificou estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas) publicado em março.

“Esses bots estão por aí e quase ninguém sabe como eles funcionam, quem os desenvolve e por quem são financiados”

PegaBot

em texto de apresentação da plataforma que ajuda a identifica a ação de perfis automatizados

No Brasil, a Justiça Eleitoral proíbe o uso de robôs ou de perfis falsos para aumentar a visibilidade de conteúdos, mas pesquisadores da FGV já observaram a presença de perfis desse tipo ligados a pré-candidaturas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do deputado Jair Bolsonaro (PSL), que atualmente estão à frente das pesquisas de intenção de voto.

Os idealizadores do PegaBot sugerem que, ao se deparar com um possível robô, questionar quem se beneficia com a atuação dele. “Se for um político, por exemplo, pergunte diretamente ao político se ele sabe que existe um bot trabalhando para ele e se ele acha correto o comportamento que o bot está tendo”, diz o texto de apresentação da plataforma.

Atenção a padrões e a detalhes

Tanto a iniciativa Bot ou Humano? quanto o PegaBot usam parâmetros do Botometer, projeto do Instituto de Ciências da Computação da Universidade de Indiana, nos EUA.

O Botometer desenvolveu um método de análise do histórico de publicações de um usuário do Twitter, propondo uma escala que vai de zero a cinco. Quanto mais alto o resultado, maior a probabilidade de se tratar um robô.

A classificação é feita com base em padrões de comportamento que tendem a indicar quando as mensagens são escritas de fato por alguém ou quando são automatizadas.

Idealizadores dessas ferramentas lembram que é uma tarefa difícil identificar com precisão a atuação de robôs. Muitas vezes os responsáveis por manter robôs buscam mesclar características de um usuário real justamente para dificultar que o perfil seja denunciado e banido das redes. Práticas como essa às vezes podem alterar o resultado desse tipo de classificação, daí o alerta.

Os pesquisadores lembram que essas ferramentas são mais uma opção para ajudar o usuário a conhecer a origem das informações que consome. A sugestão comum dos responsáveis por essas iniciativas é que o próprio usuário, se tiver dúvidas, verifique o perfil e faça seu julgamento quanto a fidelidade e a qualidade das postagens publicadas.

Para identificar um robô

Tempo das postagens

Mensagens postadas em intervalos de tempo muito curtos, com poucos segundos entre uma e outra, por exemplo, pode indicar que há uma ação automatizada.

Horário

A frequência, como postar sempre no mesmo horário ou em intervalos iguais (de hora em hora), também pode ser um sinal de que o perfil não é de um usuário real. O uso de plataformas externas ao Twitter para publicar as mensagens também costuma ser frequente entre robôs.

Texto

Também servem de indícios postagens repetidas de outros perfis ou com textos idênticos de outros sites. Muitos erros ortográficos ou de grafia e a prevalência de um determinado assunto também podem sugerir que o perfil é usado para uma finalidade duvidosa.

Perfil

Informações do perfil podem ajudar a verificar a autenticidade do autor, como o texto de identificação do perfil e a foto usada (se é um desenho ou a imagem de um lugar, em vez de um rosto). Vale observar também que outros perfis o usuário segue e quais são seus seguidores, o que pode ajudar a sinalizar se o perfil tem uma atuação regular (e de fato “conversa” na rede) e se há algum padrão nos relacionamentos (favorável ou contrário, por exemplo, a determinado grupo político).

Como as ferramentas funcionam

O PegaBot e o Bot ou humano? usam os perfis de usuários de Twitter como base, mas têm resultados e objetivos diferentes.

PegaBot

O usuário coloca o perfil que deseja pesquisar para saber se é ou não real. O PegaBot traz um percentual como resultado, acompanhado de uma escala de cores que vai do verde ao roxo. Quanto mais próximo de 100% (ou da zona roxa), maior a probabilidade de ser um robô.

 

Resultados na zona intermediária indicam que a ferramenta está incerta sobre qual classificação atribuir ao perfil. Isso pode ocorrer quando o comportamento não apresenta todo momento um padrão suspeito ou quando é um perfil usado com pouca frequência. O PegaBot foi lançado em março e está em fase de testes. Por ora ele funciona para perfis do Twitter, mas em breve será ampliado para outras redes sociais.

Bot ou Humano

O objetivo é identificar se ou com qual intensidade robôs ajudaram a dar mais popularidade a um determinado assunto no Twitter. O Bot ou Humano? identifica qual o percentual de usuários classificados como robôs falaram sobre um assunto que ficou nos trending topics (assuntos mais comentados num certo momento) da rede social.

A ferramenta exibe dois momentos: antes e depois de a hashtag entrar nos trending topics. Dessa forma é possível verificar se perfis automatizados foram usados para tornar uma hashtag popular de forma artificial. A ferramenta não mostra quais perfis foram considerados humanos ou robôs, somente a incidência de um e outro.

No domingo (13), por exemplo, de 810 usuários que usaram a hashtag #diadasmaes, a maioria das menções vieram de perfis com comportamentos humanos, antes e depois de a hashtag ficar popular.

 

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