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Quem é o empresário da Fiesp que pode ser vice de Ciro

Pré-candidato à Presidência do PDT cogita parceria com um dos homens mais ricos do Brasil, agora filiado ao PP

     

    O pré-candidato do PDT à Presidência da República, Ciro Gomes, busca alianças para ampliar suas chances de chegar ao segundo turno. Com cerca de 9% das intenções de votos na mais recente pesquisa Datafolha, o ex-governador do Ceará mantém a conexão com partidos de esquerda, como PCdoB e PSB, mas tenta também ganhar terreno à direita.

    Uma das pontes de Ciro atende pelo nome de Benjamin Steinbruch. Empresário integrante de uma das famílias mais ricas do país, que atua nos ramos têxtil e siderúrgico, Steinbruch se filiou recentemente ao PP (Partido Progressista).

    Ciro e Steinbruch são amigos. O político cearense já trabalhou para o empresário na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Na quinta-feira (10),Ciro disse que Steinbruch se adequa ao perfil do que ele procura em um vice: “alguém da produção ligado ao Sudeste brasileiro”.

    “Doutor Benjamin Steinbruch é um velho amigo. Estou há tanto tempo na estrada, que era amigo do pai dele. Ele tem todas as qualidades para qualquer tarefa, mas nunca me deu qualquer sinal de pretensão de entrar na política”

    Ciro Gomes

    pré-candidato do PDT

    Steinbruch se filiou ao PP no dia 4 de abril, três dias  às vésperas do fim do prazo para quem quer disputar as eleições.

    O PP é um partido razoavelmente grande que esteve associado a vários governos nos últimos anos, inclusive envolvido nos escândalos recentes, do mensalão aos desvios da Petrobras revelados pela Operação Lava Jato.

    É o quarto maior partido da Câmara dos Deputados. E ainda não definiu que candidato apoiar nas eleições presidenciais de 2018. Quem fechar com o PP, que não deve ter candidato próprio, terá direito aos cerca de dois minutos de tempo de TV do partido no horário eleitoral.

    A estratégia repetida

    A aliança entre um candidato de esquerda e um empresário não é novidade na história recente do Brasil. Caso consiga acertar a aliança com Steinbruch, Ciro estará repetindo a estratégia vitoriosa utilizada por Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.

    Naquela eleição, o petista, que já havia sido derrotado três vezes, se aliou ao empresário do ramo têxtil José Alencar, do antigo PL (Partido Liberal). A ideia de Lula era diminuir a rejeição entre o empresariado, que temia uma vitória da esquerda.

    Junto com a Carta ao Povo Brasileiro, um documento em que o PT se comprometia com a manutenção de contratos e com as regras fiscais e de mercado, a escolha de Alencar ajudou a construir a imagem de um Lula menos radical.

    Além de Benjamin, Ciro cogitou uma aliança com Josué Gomes, filho de José Alencar. Filiado ao PR (ex-PL),  Josué tem dito, no entanto, que provavelmente não será candidato.

    Benjamin e a fortuna dos Steinbruch

    O novo filiado ao PP é formado em administração de empresas e ocupa a presidência da CSN. Além de executivo, Benjamin, junto com sua família, é dono da siderúrgica. É uma empresa de capital aberto, mas os Steinbruch são os acionistas controladores.

    Os negócios da família começaram com os irmãos Mendel (pai de Benjamin) e Eliezer Steinbruch na Vicunha Têxtil, maior grupo da América Latina no setor.

    Na década de 1990, os Steinbruch lideraram consórcios nos processos de privatização e participaram das compras da Vale e principalmente da Companhia Siderúrgica Nacional. Além da Vicunha e da CSN, a família é dona também do Banco Fibra.

    Benjamin é vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), entidade que defendeu abertamente o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 usando como símbolo um pato inflável amarelo.

    Ele é o nome mais poderoso da família atualmente. Seu poder rendeu inclusive disputas familiares recentemente. Insatisfeitos por terem sido excluídos da administração do grupo, dois primos de Benjamin entraram na Justiça pedindo a venda das empresas da família.

    “Benjamin Steinbruch e seus irmãos passaram a desrespeitar normas de governança em todas as empresas do grupo Vicunha”, disse ao Valor Econômico o advogado dos primos, Ricardo Tepedino. O patrimônio em disputa está avaliado em R$ 8 bilhões.

    O pensamento econômico do empresário

    Como integrante do núcleo de decisão da Fiesp, Benjamin tem feito duras críticas aos altos juros bancários no Brasil - a entidade lançou recentemente uma campanha pela redução do spread. Em sua coluna quinzenal na Folha de S. Paulo, Steinbruch mostra um pouco de seu pensamento econômico. O Nexo selecionou três trechos recentes.

    Juros travam recuperação da economia

    Ao comentar recentemente a fraca recuperação da economia, Benjamin Steinbruch voltou a reclamar da “jurocracia”. Na visão do empresário, sem juros “civilizados” o Brasil não vai conseguir crescer de maneira consistente.

    “A economia esfriou. Economistas enumeram ene razões para explicar essa mudança de tendência, entre elas o estresse político e o cenário externo ameaçado por Donald Trump. Mas há uma explicação que começa unir ortodoxia e heterodoxia: os juros, sempre eles”

    coluna publicada em 17/4

    Falta investimento no setor produtivo

    O empresário faz uma distinção entre o mercado financeiro e a economia real. Para ele, há demasiados estímulos aos investimentos no mercado de capitais e pouco para alavancar o setor produtivo.

    “[Há] deficiência dos investimentos em infraestrutura no país. Sabemos todos que, sem a aplicação de recursos nessa área, na indústria e em outros setores essenciais e inovadores, nenhum país pode alcançar o desenvolvimento. O que vemos no Brasil, entretanto, é o estímulo insistente ao setor financeiro e o abandono persistente dos setores produtivos”

    coluna publicada em 3/4

    Crescimento ajusta as contas

    O empresário pensa diferente da equipe econômica do governo de Michel Temer. O ex-ministro Henrique Meirelles implementou uma agenda que priorizava o ajuste das contas. Na visão do governo, o equilíbrio daria confiança para a retomada do investimento e consequentemente traria o crescimento. Benjamin tem um raciocínio diferente.

    “perdemos um tempo enorme tentando equilibrar as finanças públicas, com pouco sucesso até agora. Desde 2015, as equipes econômicas do governo só falam em ajuste fiscal, algo absolutamente necessário, mas que não deveria ter sido a única meta de trabalho. (...) não há como fugir de uma conclusão óbvia: a forma mais eficiente de recuperar as finanças públicas é pela promoção do crescimento da economia.”

    coluna publicada em 23/1

    As afinidades e diferença com Ciro

    O discurso de Steinbruch sobre macroeconomia, juros e incentivo à produção industrial é parecido com o de Ciro. Em entrevista recente à TV Folha, o pedetista criticou duramente a política econômica do governo Michel Temer e disse que “nenhum país do mundo se desenvolveu sem uma forte indução de um forte estado nacional em parceria com uma forte iniciativa privada”.

    Os problemas causados pelo processo de desindustrialização do Brasil é um dos principais pontos do discurso de Ciro. Ele também defende a desvalorização do real, o que aumenta a competitividade da indústria nacional - por outro lado, encarece as importações.

    Um ponto de desacordo entre Ciro e seu ex-chefe é a reforma trabalhista. O empresário defendeu publicamente a aprovação das mudanças nas regras, que chamou de modernização. O pré-candidato, por sua vez, prometeu “revogar” a medida caso seja eleito.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Benjamin é filho de Eliezer Steinbruch. Na verdade, o pai de Benjamin é Mendel Steinbruch. Eliezer é seu tio. O texto foi corrigido às 16h08 de 14 de maio de 2018.

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