Por que o mundo deve ficar livre de gordura trans até 2023

Campanha da Organização Mundial da Saúde convoca países a adotarem regulações, como fez a Dinamarca, contra esse tipo de gordura em alimentos

Alimentos produzidos com gorduras trans devem desaparecer de vez das prateleiras e dos restaurantes no mundo todo a partir de 2023. Isso é o que espera a OMS (Organização Mundial da Saúde), que lançou campanha nesta segunda-feira (14) que alerta sobre os prejuízos à saúde causados pelo seu uso pela indústria alimentícia, e lista formas de erradicá-la.

De acordo com o órgão máximo de saúde no mundo, a substituição desse tipo de gordura por opções mais saudáveis é algo possível de ser feito por qualquer país. O exemplo mais eloquente são os Estados Unidos, que erradicará gordura trans na produção de alimentos a partir de junho próximo, quando encerra o prazo dado há três anos pelo governo à indústria local.

“A disponibilidade, custo e gosto de comida não mudaria – apenas o seu coração sentiria a diferença”, diz o texto assinado por Tedros Ghebreyesus e Thomas Frieden, respectivamente os diretores da OMS e da Resolve to Save Lives, organização parceira na campanha.

De acordo com estimativas da OMS, a erradicação de gordura trans evitaria cerca de 540 mil mortes por ano decorrentes de enfarte e outras doenças cardiovasculares.

O que é gordura trans

Gordura trans é um tipo de gordura encontrada na natureza – como no leite e na carne bovina, mas em baixíssima quantidade – e também artificialmente, como resultado de um processo industrial. Nesse caso também é chamada de gordura vegetal hidrogenada, isso porque se adiciona hidrogênio às moléculas de um óleo vegetal (líquido), dando a ela mais consistência e durabilidade. Em temperatura ambiente, a gordura trans permanece em estado sólido.

Na indústria, a gordura trans funciona como uma saída mais barata que o uso de gordura animal (como a manteiga) e permite conferir crocância e realce de sabor a um alimento. Embora seu modo de produção seja conhecido desde o século 19, a compreensão sobre seus efeitos à saúde humana se consolidou apenas no seguinte, entre as décadas de 1970 e 1980.

Diferentemente das gorduras mais comuns (cis), a gordura trans não é metabolizada pelo corpo humano. “Ela não é absorvida, por isso ela vai sendo depositada como uma gordura sólida formando ateromas ou placas de gordura nas artérias, causando todo tipo de doença cardiovascular possível”, disse ao Nexo a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), Elizabeth Ferraz da Silva Torres.

No mercado, é possível encontrar gordura trans em produtos industrializados como margarina, sorvete, bolo, bolachas e biscoitos salgados ou doces, sobretudo nos recheados, salgados fritos ou assados, além de pipoca de microondas e doces em geral.

Como eliminar

A OMS se ampara no exemplo de algumas dezenas de países (veja mais abaixo) que adotaram medidas para acabar com o uso de gordura trans pela indústria alimentícia localmente para propor uma série de ações a serem adotadas globalmente por meio da sua campanha.

O que cada país deve fazer

  • Identificar na dieta da sua população as maiores fontes de gordura trans e promover, por meio de políticas públicas, a substituição da gordura trans por alternativas mais saudáveis
  • Promover legislações que regulem a presença de gordura trans em produtos e a forma como ela é informada aos consumidores por meio das embalagens
  • Criar campanhas que informem parlamentares, fabricantes e a população em geral sobre os malefícios para a saúde causados por esse tipo de gordura
  • Por fim, criar ou mudar regulações para banir ou reduzir seu uso pela indústria; e fortalecer estruturas de fiscalização sobre fabricantes de produtos alimentícios e restaurantes

Restrições no mundo e o Brasil

O primeiro país a adotar medidas robustas contra gordura trans em seu território foi a Dinamarca. Ainda na década de 1990, o país nórdico passou a monitorar as fontes de gordura trans na dieta nacional e a gerar relatórios sobre seu impacto na saúde pública. Em 2003, o Parlamento passou uma lei que limitou 2 gramas de gordura trans por 100 gramas de gordura em produtos alimentícios, e impôs uma série de sanções a quem desobedecesse a norma.

Na Europa, seguiram o exemplo à risca países como Áustria, Hungria, Islândia e Noruega. Outros como Suécia e Suíça têm leis que não entraram em prática ou são limitadas. As Américas, EUA, Canadá,  Argentina, Chile, Colômbia e Equador contam com leis que limitam o uso desse tipo de gordura. Além destes, são exemplos países como África do Sul, Cingapura e Índia.

Segundo a OMS, até o fim de 2018 23 países terão regulações do tipo, sendo apenas dois deles considerados de renda média ou baixa.

Contra gordura trans

“Não há razão para pessoas de países pobres continuarem a ser expostas a químicas prejudiciais, contra as quais pessoas em muitos países mais ricos têm proteção adequada. Todo indivíduo merece ter o melhor nível de proteção para sua saúde”, dizem os diretores das organizações à frente da campanha.

Na embalagem

No Brasil, desde 2006 as empresas do setor de alimentos são obrigadas a informar no rótulo dos seus produtos a quantidade de gordura trans (que passou a figurar também como gordura vegetal ou vegetal hidrogenada).

A determinação da Anvisa (RDC 360/2003), que impôs a medida, deixava livre da regra apenas produtos com quantidade inferior a 0,2 gramas por porção.

Em lei

Por aqui, a legislação caminha para endurecer as regras contra o uso de gordura trans, alinhando o quadro do Brasil ao dos demais países tidos como exemplares pela OMS.

Isso porque, desde o final de 2017, foi enviado para a Câmara dos Deputados em Brasília um projeto de lei – de autoria da senadora Marta Suplicy (PMDB) – que “proíbe o uso de gorduras vegetais parcialmente hidrogenadas na fabricação de alimentos”.

A lei em discussão determina que, para alimentos processados, o limite deva ser de 5% de gordura trans do total de gordura. Entre óleos e gorduras (como margarinas), o limite passa a ser de 2%. Sua implementação, porém, pode demorar.

É o que defende o deputado Marcos Reategui (PSD-AP), que participou da aprovação do projeto na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviço da Câmara. “Esse é o cerne da questão: compatibilizar a proteção da saúde da população e garantir uma regra de transição de mudança do processo produtivo a partir de critérios técnicos e condizentes com a realidade econômica”, disse em dezembro.

Em março, o diretor da Anvisa comentou as discussões recentes. “Vamos começar a ver quais são as consequências de impor limites ou banir a gordura trans. Se pudermos banir, melhor, porque significa dizer que a população não precisará consumir uma substância que é maléfica”, disse Renato Porto ao jornal Folha de S.Paulo.

Substituição

No lugar da gordura trans, outras podem ser utilizadas. A Organização Mundial da Saúde diz que a escolha da gordura ou óleo mais adequado deve levar em consideração a realidade local e a disponibilidade do produto na região.

Apesar disso, a agência recomenda o uso de gordura ou óleo ricos em ácidos graxos poliinsaturados, seguidos dos tipo monosaturados. Gordura saturada (comumente encontrada em queijos, manteiga, banha e carnes) não consta na lista de recomendações da OMS por também estar associada a doenças cardiovasculares.

  • Gordura poliinsaturada: Ácido graxo com mais de uma ligação dupla entre carbonos (exemplos: ômega 3 e 6). É encontrado em óleos de cártamo, milho, girassol, soja, peixe, nozes e sementes de girassol.
  • Gordura monoinsaturada: Ácido graxo com uma ligação dupla entre os átomos de carbono (exemplo: ômega 9). Aparece em maior quantidade no azeite de oliva e no óleo de canola, de amendoim, bem como em abacates e nozes.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: