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O cálculo político de Márcio França. E o papel da segurança na eleição

Governador paulista deu flores de presente e posou ao lado de policial que matou assaltante em frente a uma escola na cidade de Suzano

     

    O governador de São Paulo, Márcio França (PSB), homenageou no domingo (18) uma policial militar que havia matado no dia anterior um assaltante na porta de uma escola particular em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. A cabo Katia da Silva Sastre recebeu flores de presente.

    Sastre estava de folga, à paisana, e foi até a escola Ferreira Master para participar da festa do Dia das Mães. Enquanto esperava os portões se abrirem ao lado de outras mulheres com seus filhos na calçada, um homem anunciou o assalto. Tinha nas mãos um revólver calibre 38.

    No momento que o assaltante começou a revistar um funcionário da escola, Sastre sacou a arma que tinha dentro da bolsa e disparou três vezes. Os tiros atingiram o homem no peito e na perna. Em seguida, a policial imobilizou o assaltante, identificado como Elivelton Neves Moreira. Ele morreu horas depois. Tudo foi registrado por câmeras de segurança instaladas no local.

    Vice que assumiu o governo do estado em razão da saída de Geraldo Alckmin (PSDB) para disputar a Presidência, França decidiu homenagear pessoalmente a policial. Tirou foto ao lado dela e postou em suas contas nas redes sociais.

    “A homenagem é feita porque é Dia das Mães, e ela é mãe. A gente não pode deixar de enaltecer toda a técnica que você usou nesse episódio, da maneira rápida que você agiu e, ao mesmo tempo, a coragem que você teve, porque poderia simplesmente se omitir naquela situação, pois estava de folga, à paisana”

    Márcio França

    governador do estado de São Paulo, dirigindo-se à policial militar Katia da Silva Sastre na homenagem que prestou a ela no domingo (13)

    França foi vice de Alckmin até o dia 6 de abril. Nessa data, o político do PSB assumiu o comando do estado para concluir o mandato.

    Mas não só isso: ele diz que será candidato nas eleições de outubro a fim de permanecer no cargo. Terá pela frente, como um dos adversários, o ex-prefeito de São Paulo João Doria, do mesmo PSDB de Alckmin.

    A ação na escola, assim como a homenagem prestada, despertaram alguns debates. Uns sobre o procedimento adotado pela policial, outros sobre a exaltação pública promovida pelo governador.

    Para além desses dois aspectos, o Nexo ouviu dois cientistas políticos a respeito dos cálculos políticos de França ao posar com a policial, assim como o papel da segurança pública no debate eleitoral em 2018. São eles:

    • Eduardo Viveiros de Freitas, pesquisador da PUC-SP
    • Deisy Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP

    Qual o cálculo político de Márcio França ao homenagear a PM que matou o assaltante na frente da escola?

    Eduardo Viveiros de Freitas A homenagem do governador à policial militar que matou o homem que atacou a escola de sua filha se enquadra num cálculo político arriscado. Devemos lembrar que a ação da policial, à paisana, foi uma exceção. Muitos policiais à paisana morrem em situações como essa. A exposição da policial coloca sua segurança em risco. E o governador, candidato nas próximas eleições, devia ter levado isso em consideração.

    França aposta no perfil conservador do eleitorado paulista, sensível ao discurso do medo. Vai na mesma linha do discurso de Jair Bolsonaro [pré-candidato à Presidência pelo PSL] e mantém a mesma forma de tratar o tema dos governantes do PSDB no estado.

    Deisy Cioccari Quando o governador homenageia uma PM que matou um bandido na frente da escola ele homenageia, na verdade, uma policial, mãe, que impediu que um bandido ferisse ou matasse crianças, inclusive as suas, e outras mães. Assim, o governador celebra as vidas que foram poupadas e o trabalho bem executado de uma agente do estado.

    A atitude de França mira um eleitorado tradicionalmente mais conservador. E esse eleitorado já não é tão somente um perfil de elite, mas de um eleitor popular. É um eleitor que defende a tese do “bandido bom é bandido morto” e que está ciente de que os números frios das estatísticas apontam um fenômeno de violência crescente, sobretudo entre jovens pobres e negros.

    Como o tema segurança pública deve aparecer nas eleições de 2018?

    Eduardo Viveiros de Freitas A segurança vai ser um tema relevante na campanha eleitoral de 2018. A violência, homicídios, estupros, crimes contra o patrimônio seguidos de violência física estão presentes no cotidiano de milhões de pessoas, em especial nos setores menos favorecidos da sociedade.

    Os setor mais favorecido é sensível ao discurso que privilegia a repressão, o reforço do uso da força pelo Estado. Ficará de fora o uso da inteligência, das ações preventivas (tanto em termos policiais como sociais). O tema aparecerá na defesa do direito ao uso de armas pelos cidadãos e será explorado também na discussão sobre a corrupção.

    A esquerda deve explorar as contradições dos candidatos que defendem a repressão como forma privilegiada de abordagem do tema, mas o discurso do medo deve predominar no debate.

    Deisy Cioccari O tema deve vir com força nessas eleições, eu diria mais até do que saúde e educação. O tripé deve ser moralidade política, segurança pública e corrupção. A sociedade brasileira vive uma fase de medo e apatia social. Após a intervenção [federal na área da segurança pública] do Rio de Janeiro, houve uma virada de mesa no debate e a pauta que poderia gerar em torno da crise econômica deve ficar em segundo plano.

    Estados que antes tinham uma rotina tranquila viram-se assombrados pela violência, e até mesmo os ruralistas já fazem suas demandas. A violência já assombra o campo. Não é mais somente uma pauta da cidade grande. Há uma persistência escandalosa nas taxas elevadas de mortalidade por homicídio no Brasil.

    Esse foi um debate que nunca entrou de fato na pauta política eleitoral, mas a necessidade de uma agenda minimamente possível de mudança é latente nesse momento. A segurança pública não pode mais ficar no gerenciamento de crises. É preciso repensar todo o modelo arcaico e incompetente que ronda a sociedade e as eleições de 2018 devem fornecer um caminho para que o debate avance.

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