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Como ‘Arquivo X’ inspirou mulheres a seguir carreira nas ciências

Estudo mostra que ‘Efeito Scully’ levou uma geração de espectadoras a imaginarem novas possibilidades profissionais a partir da série popular nos anos 1990

     

    “Arquivo X”, série americana de ficção científica que estreou em 1993, alcançou popularidade significativa dentro e fora dos EUA. Seus protagonistas são os agentes do FBI Dana Scully, interpretada por Gillian Anderson, e Fox Mulder, interpretado pelo ator David Duchovny.

    A série foi ao ar até 2002, e retornou em 2016 para as 10ª e 11ª temporadas. O último episódio foi exibido nos Estados Unidos em março de 2018.

    “Arquivo X” influenciou diversas outras séries posteriores com sua mistura de tema policial e fenômenos sobrenaturais, a ideia de “mitologia” – um enredo mais ambicioso além do “monstro da semana” – e sua personagem feminina forte.

    Se a série foi influente entre as produções do gênero, a agente Dana Scully, por si só, exerceu um outro tipo de influência.

    Segundo um estudo de 2018 feito pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, mulheres que assistiam regularmente ao programa apresentaram probabilidade 50% maior de se tornarem profissionais das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. 

    ‘Efeito Scully’

    Realizada pelo instituto em parceria com a 21st Century Fox e a empresa J. Walter Thompson Intelligence, a pesquisa buscou responder a três perguntas principais:

    • se a agente de “Arquivo X” melhorou a percepção de mulheres em relação ao campo de atuação da personagem
    • se ela as inspirou a seguirem uma carreira de exatas ou biológicas
    • se espectadoras mulheres veem a personagem como um modelo a ser seguido

    Trata-se da primeira análise sistemática feita da influência da personagem de ficção de “Arquivo X” sobre meninas e mulheres, com relação à trajetória acadêmica e profissional.

    Segundo o estudo, a existência desse “efeito Scully” já vinha sendo especulada havia duas décadas, mas ainda não tinha sido confirmada.

    Mais de duas mil mulheres responderam ao questionário on-line elaborado pelo estudo. As participantes eram todas mulheres americanas de 25 anos ou mais.

    Parte delas tinha algum envolvimento com as áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês) – se formaram em uma dessas disciplinas e/ou trabalham hoje com elas.

    Além disso, 61% haviam sido espectadoras ocasionais ou não assistiram a “Arquivo X”, enquanto 39% haviam sido espectadoras de frequência média a intensiva da série.  

    Descobertas

    Espectadoras regulares da série veem as áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática de maneira mais positiva em relação ao outro grupo

    A pesquisa liga essa visão diretamente à influência exercida pela personagem de Scully.

    Ela mostra de 63% das participantes familiarizadas com a personagem dizem que Scully aumentou a convicção delas na importância dessas áreas.

    Uma porcentagem maior (em comparação às que não assistiram ou assistiram pouco à série) dentre as espectadoras de frequência média a alta também acredita que mulheres jovens devem ser encorajadas a estudar uma dessas áreas. A maioria (53%) delas também encorajaria a própria filha a fazê-lo.

    Espectadoras regulares têm maior probabilidade de estudar ou trabalhar em uma dessas áreas

    Metade das participantes familiarizadas com a personagem afirmaram que Scully aumentou o interesse delas nas ciências. Por conta dela, espectadoras regulares apresentaram probabilidade 43% mais alta em relação a outras mulheres de ter considerado trabalhar com STEM. Elas também apresentam probabilidade 50% maior de ter trabalhado nessas áreas em comparação com espectadoras ocasionais ou não espectadoras.

    Vista como exemplar pela maioria das participantes, a personagem aumentou a confiança delas com relação a poder se sobressair em uma profissão dominada por homens

    Entre as participantes familiarizadas com a personagem, 91% afirma que Scully é um modelo para garotas e mulheres. Quase dois terços (63%) das respondentes que atuam hoje nas áreas STEM dizem que Dana Scully serviu de exemplo para elas.

    A mesma porcentagem de mulheres que conhecem a personagem dizem que ela aumentou a confiança delas quanto a poderem se sair bem em uma profissão predominantemente exercida por homens.

    As palavras mais usadas pelas participantes para descrever a personagem foram “sagaz”, “inteligente” e “forte”.

    A personagem

    Na análise da pesquisa, na década de 1990, Scully foi uma das primeiras personagens femininas multidimensionais atuante em uma área de STEM a figurar em uma série de TV popular, exibida no horário nobre, e a primeira a ter ocupado um papel principal.

    A personagem é conhecida por sua objetividade, ceticismo e brilhantismo. No entretenimento, cientistas são frequentemente representados como homens brancos que usam jalecos e trabalham sozinhos em um laboratório.  

    A personalidade dela mistura normas tradicionais de feminilidade e masculinidade para retratar uma agente corajosa, que está no mesmo patamar de seu parceiro profissional – é representada em pé de igualdade com Fox Mulder, sendo tão importante e fazendo tantas aparições quanto ele no contexto da série.

    Ela representa a porção lógica e desconfiada da dupla e desafia constantemente o estereótipo da “donzela em perigo”, ao salvar situações com sua inteligência e sua arma.

    Desigualdade de gênero na área

    De acordo com o Geena Davis Institute on Gender in Media, mulheres continuam sub-representadas na ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Nos EUA, segundo dados trazidos pelo estudo, mulheres constituem 48% da força de trabalho com nível superior do país, mas ocupam apenas 24% dos postos de trabalho dessas áreas.

    Entre as causas apontadas para a desigualdade de gênero em STEM, estudos indicam os estereótipos, a falta de incentivo dos pais e professores e a discriminação contra mulheres nessas áreas.

    A representação do cientista presente na televisão e no cinema tende a reforçar a crença de que a ciência é um percurso exclusivamente masculino.

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