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A frequência e os motivos de mentiras em apps de paquera, segundo esta pesquisa

Trabalho pagou para que usuários concedessem acesso a mais de 3.000 mensagens e pediu que dissessem quais eram enganosas

 

Aplicativos de paquera ganharam força no início da década. Focado especificamente no público gay, o Grindr foi lançado em 2009. Em 2012, foi a vez do Tinder e, em 2013, do Happn, para citar apenas alguns dos principais.

Entre os motivos pelos quais usuários buscam esses programas está o fato de que permitem se conectar a um grande número de candidatos geograficamente próximos. É possível investir em pessoas com qualidades desejadas e interesses e intenções em comum, em qualquer hora do dia, a partir de qualquer lugar.

Usuários têm, no entanto, receio de que o interlocutor passe uma ideia falsa de si em seu perfil, no esforço para garantir o encontro pessoal, seja em relação à aparência, com fotos falsas ou enganadoras, seja em relação à personalidade e a interesses.

Publicado em maio de 2018 no Journal of Communication, o artigo “Enganação em conversas de aplicativos de encontro” afirma que a enganação também pode acontecer na fase das conversas que têm como meta principal viabilizar um encontro físico.

Realizada por cientistas das universidades de Stanford e Oregon, o trabalho obteve acesso a mais de 3.000 mensagens de texto trocadas entre pessoas que se conheceram por meio de apps de paquera, e pediu que os autores dissessem quais delas eram falsas. A pesquisa concluiu que:

“Observamos que a maioria das pessoas é em geral honesta, mas mentiras foram contadas para atingir objetivos de apresentação pessoal e gestão de disponibilidade [não deixar explícito que não quer encontrar a pessoa em dado momento, por exemplo], o que está de acordo com a teoria do engano”

Pesquisa 'Enganação em conversas de aplicativos de encontro’ , publicada no Journal of Communication

Apresentação pessoal e gestão da disponibilidade

O trabalho pondera que, na “fase da descoberta”, ou seja, na troca de mensagens antes do encontro físico, os candidatos devem focar em pontos como parecer romanticamente disponível, ou desejável.

Eles podem, por exemplo, “mencionar detalhes falsos sobre seus amigos para parecerem sociáveis, ou discutir seu emprego para dar a entender que têm uma ocupação estável”. Esse tipo de mentira diz, portanto, respeito à “apresentação pessoal”, segundo o termo utilizado no trabalho.

Outro tipo de mentira comum não se relaciona à imagem que se deseja passar, mas à sua disponibilidade social. Pessoas podem demorar para visualizar uma mensagem propondo um encontro porque não gostariam de ver ou responder ao interlocutor imediatamente, e justificar essa demora dizendo “desculpas, meu celular descarregou”.

Esse tipo de mentira tem o objetivo de evitar alguma interação indesejada, mas mesmo assim preservar o relacionamento para interações futuras.

Também é possível inventar compromissos sociais, ou demorar para responder a mensagens porque parecer sempre disponível pode ser visto como um traço social indesejável. Esse tipo de mentira diz, portanto, respeito à “gestão da disponibilidade”, segundo o termo utilizado no trabalho.

A pesquisa buscou medir tanto a frequência das mentiras relativas à apresentação pessoal quanto aquelas relativas à gestão da disponibilidade.

A pesquisa também buscou obter dados sobre a percepção dos participantes sobre a frequência com que seus interlocutores mentiam. E se essa estimativa era influenciada pela frequência com que eles mesmos mentiam - há diversos estudos de psicologia que indicam que pessoas estimam o comportamento das outras com base em seu próprio comportamento.

Como a pesquisa foi feita

54 homens, 47 mulheres e 3 pessoas com outra identidade de gênero foram recrutados por meio da ferramenta Amazon Mechanical Turk, utilizada tanto para pesquisas de mercado quanto trabalhos acadêmicos. Eles foram pagos para participar da pesquisa.

Como critério de seleção, todos eles já deveriam ter encontrado outra pessoa por aplicativos de paquera e se comunicado com ela por mensagens de texto. A grande maioria deles (78) utilizava o aplicativo Tinder.

Outro critério foi que os participantes concedessem acesso a mensagens de texto trocadas com seus parceiros por meio dos aplicativos de paquera, assim como outros. No total, a pesquisa teve acesso a mais de 3.000 mensagens.

Em seguida, eles pediram que os participantes dessem notas de 1 a 5 sobre o nível de falsidade das mensagens enviadas. A nota cinco correspondia às “extremamente enganosas”.

As mensagens classificadas como enganosas foram então classificadas como:

  • 'Mentiras de apresentação pessoal', como por exemplo 'Eu adoro pedalar e fazer trilhas. Estou sempre ao ar livre. E você?'
  • 'Mensagens voltadas à gestão da disponibilidade', como 'OK. Eu ligo em um minuto. Tenho que resolver umas coisas'
  • As que não se encaixavam nesses dois tipos foram classificadas como 'outro'

Os pesquisadores também pediram que os participantes dessem uma nota relativa a quanto gostavam de seus parceiros, “já que pesquisas anteriores sugeriam que a taxa de conteúdo enganoso pode ser afetada por esse fator”. E que estimassem o quanto os parceiros haviam mentido.

O que a pesquisa mostrou

A maior parte das mensagens foi classificada como “honesta”. Só 7% delas foram classificadas como enganadoras.

Dessas mentiras, 30% eram relativas à “gestão da disponibilidade”. Uma delas, classificada como extremamente enganosa, buscava evitar um encontro, mas ao mesmo tempo manter o relacionamento da seguinte maneira:

“Oi, eu sinto muito, mas eu não acho que vou conseguir te ver hoje. Minha irmã acabou de me ligar, e eu acho que ela está vindo para cá agora. Eu fico te devendo um encontro, se você quiser. Desculpas de novo.”

Houve também mentiras que tinham como objetivo esconder sentimentos sobre os encontros. Uma delas, classificada com nota 2 na escala de quão enganosa era, dizia: “eu gostaria de poder ir”. Várias das mentiras diziam respeito ao horário em que chegariam em encontros, virtuais ou físicos, como a ambígua: “legal, eu devo estar disponível às 17h”, também classificada com nota 2.

Entre as mentiras, 37,4% eram relativas à apresentação pessoal. Frequentemente, eram declarações que exageravam algum interesse em comum, como esta abaixo, que recebeu nota 3 na escala de quão enganosa era.

“Haha, tudo o que eu quero é entrar em uma loja e comprar a prateleira inteira de [cidra] Bold Rock”

A pesquisa também mostrou que os participantes tendiam a estimar um número maior de mentiras quando eles mesmos mentiam com frequência.

 

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