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Como a relação entre maternidade e desigualdade salarial afeta as mulheres

Pesquisas investigam como a tarefa de criar os filhos e a gravidez impactam na diferença de remuneração entre os gêneros

     

    Em praticamente todos os setores, mulheres ganham menos do que homens no mercado de trabalho formal brasileiro. Em níveis variáveis, essa disparidade está presente no mundo todo – até na Islândia, país que lidera há 9 anos o ranking de igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial.

    Estudos recentes que se debruçam sobre as razões para essa desvantagem indicam a maternidade como um fator de extrema relevância para a remuneração menor de mulheres em relação aos homens.

    “Um conjunto crescente de pesquisas sugere que o que pensávamos ser uma desigualdade salarial de gênero é mais precisamente uma disparidade de remuneração por engravidar, ou uma penalização da maternidade”, diz uma reportagem de fevereiro de 2018 do site americano Vox sobre um estudo que trata da relação entre maternidade e desigualdade salarial na Dinamarca, divulgado no início do ano. 

    “O problema não está na maternidade, mas na organização social da maternidade”, diz Flávia Biroli, professora de ciência política na Universidade de Brasília, em entrevista ao Nexo.

    A família, a maternidade e a divisão sexual do trabalho são alguns dos temas abordados por seu livro mais recente, “Gênero e desigualdades – limites da democracia no Brasil”, publicado em 2018 pela Boitempo. 

    Ter filhos impacta de maneira desigual o exercício do trabalho formal por mulheres e homens porque o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos e o trabalho emocional também são divididos de maneira desigual entre eles, mesmo quando tanto o pai quanto a mãe trabalham em período integral.

    Para Biroli, há um problema de fundo: a lógica predominante na organização das relações de trabalho ser antagônica ao cuidado.

    “Quem está na posição de cuidar tem que responder a exigências que se chocam. E, dada a divisão sexual do trabalho, quem cuida são mulheres”, diz.

    “Essa é uma explicação para o fato de que mesmo tendo, em média, níveis educacionais superiores aos dos homens, elas permanecem pior remuneradas. Nessa lógica de mercado, está em vantagem quem pode ser ‘liberado’ do cuidado. O mercado premia essa ‘disponibilidade’.”

    O estudo “Filhos e desigualdade de gênero: indícios da Dinamarca”, feito a partir de dados de 1980 a 2013, mostra que os ganhos das mulheres apresentaram uma queda significativa depois do primeiro filho, o que não ocorre com os homens.

    Idade

    Um outro estudo divulgado em 2018, a partir do Censo americano, vai na mesma linha ao mostrar que, para os americanos, imediatamente após o primeiro filho, a diferença salarial entre cônjuges dobra. A alteração se deve, integralmente, à queda no salário da mãe.

    A novidade trazida pela pesquisa é que ela indica que, quando as mulheres têm seu primeiro filho entre os 25 e 35 anos, seu salário nunca mais se recupera em relação ao de seus companheiros.

    Quando o filho nasce antes dos 25 ou depois dos 35, elas acabam eliminando  a diferença de salário em comparação com os maridos.

    “A criação das crianças, que é de interesse coletivo por dizer respeito à reprodução social, deveria ser vista como algo de responsabilidade social. Não sendo, se torna um custo, de tempo, de energia e mesmo de renda, concentrado para as mulheres.”

    Flávia Biroli

    Em entrevista ao Nexo

    O ônus sobre as mais pobres

    Além da divisão desequilibrada de tarefas com os pais das crianças, outros fatores prejudicam o exercício do trabalho remunerado pelas mulheres.

    Biroli cita a redução de garantias pela nova legislação trabalhista e a redução de investimentos públicos em equipamentos como creches públicas de qualidade, que assumem parte do cotidiano de cuidado com as crianças. Essa precariedade afeta sobretudo as mulheres mais pobres.

    “[As mulheres pobres] são cobradas para integrar-se ao mercado de trabalho em seus termos e para que desempenhem o papel de mães de forma a regular o cotidiano de seus filhos, como se isso dependesse de sua vontade, e não de instituições, orçamento, pactos coletivos”, diz a cientista política. 

    Para Biroli, “o ideal da maternidade, que traz visões romantizadas sobre a vocação das mulheres para cuidar das crianças, serve mal às necessidades concretas de mães e crianças reais”.

    Licença

    Políticas de licença-maternidade, paternidade e parental estão estreitamente associadas à participação das mulheres na economia em várias partes do mundo, segundo o relatório de 2016 do Fórum Econômico Mundial, The Global Gender Gap Report.

    Ainda de acordo com o relatório, as licenças aumentam a participação das mulheres na força de trabalho. Em todo o mundo, a licença-maternidade ultrapassa em muito a duração da licença-paternidade.

    “Embora os problemas não se resolvam apenas por um rearranjo entre mulheres e homens na esfera privada, a licença-paternidade é fundamental para alterar o quadro de responsabilização prioritária das mulheres e seus efeitos”, disse Flávia Biroli ao Nexo

    Além disso, segundo a professora, uma licença-paternidade mais longa permitiria aos homens, desde cedo, “uma vivência mais forte dos vínculos com as crianças”.

    “A experiência do cuidado também pode modificar a compreensão dos homens do que é esse trabalho e da necessidade de uma melhor adequação das relações entre a lógica das relações de trabalho e a do cuidado”, disse Biroli.

    “No meu entendimento, o horizonte da igualdade de gênero é também o de uma valorização dos vínculos, de modo que a lógica de mercado não prevaleça sobre a lógica do cuidado, da vida.”

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