As imagens que mostram a ocupação do edifício Martinelli na década de 1970

Famílias de baixa renda moraram irregularmente no prédio icônico de São Paulo; fotos exclusivas da arquiteta Nadia Somekh mostram condições parecidas com ocupações atuais

     

    Primeiro arranha-céu de São Paulo, o Edifício Martinelli nasceu em 1930 como ícone da cidade que se modernizava. “Edifício-símbolo do arrojo e dinamismo de São Paulo”, escreveu a Folha de S. Paulo à época. O prédio era local de lojas elegantes e escritórios de prestígio.

     

    Duas décadas depois, tinha se convertido em outra vitrine: a da crise de moradia que vinha a reboque do descontrolado processo de urbanização do país.

    Entre o fim da Segunda Guerra Mundial e meados dos anos 1970, o Martinelli podia ser descrito como um gigantesco cortiço. Durante o conflito internacional, italianos vivendo no Brasil sofreram expropriações de seus bens. O país havia declarado guerra à Itália. Um desses italianos era o comendador Martinelli, responsável por erguer o famoso prédio.

     

    Com o esvaziamento do Martinelli, começaram as ocupações, resultando em um misto de situações legais e ilegais. Além de muitas famílias de baixa renda, os andares abrigavam uma mistura de atividades comerciais como hotel, bares, boates, bilhares, além de igrejas e prostíbulos.

    Foto: Nadia Somekh
    Elevadores
    Tapume colocado na entrada de um dos elevadores do Martinelli, em 1974. A maioria dos equipamentos não funcionava nesta época.
     

    Seus corredores eram sujos e perigosos. Dos 13 elevadores originais, apenas um ou dois funcionavam. Uma família morava em um dos poços. Jornais frequentemente noticiavam crimes horrendos no edifício, como o caso do adolescente Davilson. Violentado e morto, seu corpo foi lançado sobre uma das pilhas de lixo que se acumulavam nos vãos dos elevadores.

    Foto: Nadia Somekh
    Benheiro
    Banheira localizada na cobertura do prédio Martinelli, em foto de 1974

    Em 1974, quando era estudante do quarto ano da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), da Universidade de São Paulo, a arquiteta Nadia Somekh fez uma série de fotografias da vida dentro do prédio ocupado, que visitava com frequência. O Nexo apresenta com exclusividade algumas dessas imagens, cedidas pela arquiteta.

    Os cenários de pobreza e precariedade que aparecem nas imagens pouco diferem do que se vê em ocupações atuais no centro de São Paulo.

    “As ocupações não são novas. A questão da moradia não é nova, e a ausência de uma política habitacional adequada para o país não é algo novo”, resume Somekh, em entrevista ao Nexo.

    Foto: Nadia Somekh
    apartamento martinelli
    Detalhe de apartamento do Edifício Martinelli na década de 1970

    Ela lembra que a principal política de habitação da época, realizada pelo BNH (Banco Nacional da Habitação), era dirigida principalmente à classe média, pois focava em pessoas que podiam comprovar sua capacidade de cumprir com as prestações da casa.

    “Não tinha promoção de habitação naquela época”, afirma a arquiteta. Um dos efeitos foi a expansão das favelas da cidade, que recebiam grandes levas de imigrantes de outras partes do Brasil.

    Diferentemente de boa parte das ocupações atuais, a que ocorreu no Martinelli não foi promovida por nenhum movimento social de moradia, o que não existia na época. Segundo Somekh, não havia qualquer liderança ou organização interna no prédio, que era uma “terra de ninguém”.

    Foto: Nadia Somekh
    escritório martinelli
    Escritório abandonado no edifício Martinelli, em foto de 1974

    Em 1975, por iniciativa do então prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, o Martinelli foi desapropriado e reformado. Em 2000, o prédio foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

    Hoje, o Martinelli abriga órgãos municipais, como a Empresa Municipal de Urbanização de São Paulo (Emurb) e a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP). Tornou-se um edifício público.

    Para Somekh, a recuperação do Martinelli a partir de 1975 mostra que é possível recuperar prédios degradados, reintegrando-os à cidade. Ela ressalta, entretanto, que é preciso pressionar os proprietários dos edifícios nessas condições.

    Foto: Nadia Somekh
    martinelli nadia somekh
    Imagem do interior do edifício Martinelli, em foto da arquiteta Nadia Somekh
     

    “Quem está ilegal é o proprietário. Segundo a Constituição, a limitação do direito à propriedade faz com que o prédio tenha de cumprir uma função social. Ninguém pode deixar um imóvel vazio", diz.

    "Todos os vazios ou subutilizados são submetidos a sanções, primeiro IPTU progressivo, depois urbanização do terreno ou ocupação compulsória e, finalmente, desapropriação com títulos da dívida pública. Edifícios vazios têm de passar para o poder público, que não está demonstrando capacidade de produzir habitação em retrofit”, explica.

    O tempo do BNH

    Entre 1940 e 1960, a população brasileira passou de 41 milhões para 70 milhões de habitantes. A taxa de urbanização no mesmo período saltou de 31% para 45%.

    A cidade de São Paulo ultrapassou o Rio de Janeiro em população entre 1950 e 1960, tornando-se a maior cidade do país. Foi nesse período que a capital paulista teve um incremento populacional de quase 75%. Na década seguinte, aumentaria mais 56,3%.

    Em 1964, o governo militar cria o SFH (Sistema Financeiro de Habitação), vinculado ao BNH e uma das primeiras políticas habitacionais do Brasil. O banco atendia pessoas de classe média e de baixa renda. Para esse público, foram construídos conjuntos habitacionais por todo o país, apelidados de “BNH”.

    Nas duas frentes, o único modelo disponível era o do autofinanciamento, ou seja, o usuário tinha de bancar o seu imóvel e comprovar capacidade para tanto. Pessoas mais pobres, geralmente, não conseguiam atender a essa exigência. Além disso, ocupações ilegais eram removidas para dar lugar às habitações sociais.

    As décadas de 1970 e 1980 se confundem com o colapso do sistema de crédito habitacional. Há uma explosão de moradias irregulares e sem acesso a serviços básicos, ao mesmo tempo em que o BNH é extinto (ano de 1986).

    Em cima disso, rumando para o fim da década de 80, houve o agravamento da crise econômica nacional.

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