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Qual papel o PSB pode desempenhar nas eleições sem Barbosa

Hipóteses vão da aliança com Ciro Gomes à liberação de diretórios estaduais para apoiar quem for mais conveniente. Dois analisas falam sobre a relevância atual do partido na disputa de poder

     

    Com a desistência do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa de disputar a Presidência da República nas eleições de 7 de outubro, o PSB terá de decidir o que vai fazer agora.

    Ao que tudo indica, o partido não terá mesmo uma candidatura própria ao Palácio do Planalto e, por isso, precisará se aliar a outro candidato. A questão é: qual?

    O partido tem três meses para fechar alianças. A partir do dia 15 de agosto começa a campanha oficial.

    O trauma de 2014

    Em 2014, o PSB tinha como candidato à Presidência seu principal líder político na época: o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

    Neto de Miguel Arraes, uma das lideranças da resistência da ditadura militar em 1964, Campos  entrou na disputa como promessa de ser a terceira via em um cenário polarizado entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).

     

    Campos, no entanto, não foi capaz de medir sua força política nas urnas naquele ano, pois morreu numa queda de avião em 13 de agosto, a pouco menos de dois meses do primeiro turno do pleito.

    O PSB decidiu, então, substituir o ex-governador de Pernambuco pela ex-ministra Marina Silva, que era vice na chapa. Marina acabou em terceiro lugar, com mais de 22 milhões de votos.

    A origem e o tamanho do PSB

    A história do PSB (Partido Socialista Brasileiro) é marcada pelas divergências internas. Desde que foi fundado, em 1947, o partido perdeu a essência socialista e hoje caminha rumo ao centro do espectro político.

    No início, era mais ligado à esquerda. De 1989 a 1998, apoiou as campanhas derrotadas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência e também fez oposição aos governos de Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1994-2002).

     

    O PSB apoiou a reeleição do então presidente Lula em 2006. E em 2010, uniu-se à campanha de Dilma Rousseff ao eleger seis governadores e 35 deputados federais - o auge do PSB na Câmara dos Deputados.

    O partido experimentou uma ascensão sob o comando de Eduardo Campos. Em 2013, o PSB rompeu com o governo Dilma, e, em 2014, lançou o então governador de Pernambuco ao Planalto.

    Apesar de ter mantido laços regionais com o PT em alguns estados, o PSB acabou defendendo o impeachment de Dilma em 2016, chegando a apoiar, inicialmente, o mandato do vice Michel Temer (MDB).

    Atualmente, trata-se de um partido médio. Conta com 26 dos 513 deputados da Câmara. No Senado, o PSB conta com 4 dos 81 parlamentares. Além disso, a sigla tem cinco governadores e 414 prefeitos no país.

    Quase nunca as decisões no partido tiveram apoio de todos os líderes da legenda. Esse comportamento fez com que o PSB ganhasse a fama de ser uma sigla rachada ideologicamente.

    Basta ver, por exemplo, a atuação dos parlamentares do PSB em votações importantes nos últimos anos. Propostas como a reforma trabalhista, aprovada pela Câmara em 27 de abril de 2017, colocaram deputados do PSB em lados opostos.

    Há estados do Brasil em que os pessebistas são aliados dos petistas, como em Pernambuco. Em outros, porém, o parceiros são os tucanos, como em São Paulo. 

    Caminhos possíveis em 2018

    A decisão de Barbosa frustrou o projeto do PSB de disputar a Presidência em voo solo em outubro de 2018. Era o objetivo da legenda ao conseguir filiar o ex-ministro do Supremo em 6 de abril. Ele tinha boas chances para crescer nas pesquisas, principalmente por ser um nome que não era ligado à política tradicional - o chamado outsider.

    Outro ponto forte de Barbosa era que ele tinha perfil para atrair votos de eleitores dos dois pólos do espectro político, à esquerda e à direita.

    Com a desistência, o PSB passou a negociar alianças. Duas hipóteses ganharam força no partido, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo: coligar-se à candidatura de Ciro Gomes (PDT) à Presidência ou liberar os diretórios estaduais para apoiarem o candidato mais conveniente aos interesses regionais de cada um.

    Uma eventual aliança com Ciro agradaria a líderes no Nordeste. Ciro foi filiado ao partido até 2013 e construiu sua história política na região. Ele foi governador do Ceará (1991 a 1994). Os dirigentes de Pernambuco estão entre os que defendem a aliança do PSB com Ciro.

    Já a proposta de dar autonomia para cada estado decidir o que fazer é defendida pelo governador de São Paulo, Márcio França (PSB). França, na verdade, legisla em causa própria. Ele era vice de Geraldo Alckmin (PSDB) e assumiu o cargo quando o tucano se afastou para disputar a Presidência em 6 de abril.

     

    De lá para cá, França se lançou à disputa pelo governo paulista e diz ser um candidato apoiado por Alckmin, mesmo que o PSDB tenha seu candidato próprio, o ex-prefeito João Doria. Por essa razão, o vice que virou governador tem afirmado publicamente que vai apoiar Alckmin à Presidência, mesmo se o partido decida se aliar a outro candidato.

    Qual o papel do PSB hoje na política nacional

    O Nexo conversou com dois cientistas políticos para entender o que o PSB representa hoje para a política nacional. São eles:

    • Deisy Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP
    • Fernando Schüler, cientista político e professor do Insper

     

    Qual é o papel do PSB hoje na política nacional?

    Deisy Cioccari  É um papel de coadjuvante por enquanto. O PSB tem suas próprias questões regionais para resolver e enquanto isso não for encarado o racha deve continuar. O ex-deputado federal Beto Albuquerque defende que a não sustentação de uma candidatura própria pode provocar um racha ainda maior na legenda. Porém, o congresso do partido realizado em março definiu uma aliança em torno de um nome de centro-esquerda. Isso inviabilizaria algumas candidaturas nos estados.

    A verdade é que a morte de Eduardo Campos provocou uma crise de identidade no partido. Campos era agregador e tinha capacidade de diálogo, o que atraía nomes improváveis ao partido. Há um vácuo imenso deixado por ele. O herói seria Joaquim Barbosa. Ficou na promessa.

    O PSB segue centrando suas decisões numa elite que ainda não entendeu a necessidade de oxigenação que as manifestações de 2013 escancaram nas ruas. Há de se ter uma renovação das elites partidárias. O PSB precisa se oxigenar e, consequentemente, se reaproximar da sociedade. Houve também um esvaziamento provocado pela janela partidária em que o partido perdeu 11 nomes. Isso prova a inabilidade para manter seu quadro unido.

    Há, no PSB, uma verticalidade no processo de tomada de decisões partidárias que impede a oxigenação e coloca em dúvida a capacidade mobilizadora e de representação do próprio partido. Estamos em 2018 e vemos, desde 1994, a competição eleitoral nas eleições presidenciais se concentrando em dois grupos ideológicos, um de centro-esquerda, outro de centro-direita, liderados por PT e PSDB. Enquanto o partido não conseguir se estruturar internamente o seu papel continuará sendo o de coadjuvante.

    Fernando Schüler O PSB, em que pese seja um partido com bons quadros, tende a reproduzir um padrão de baixa consistência pragmática que caracteriza o sistema partidário brasileiro. Um exemplo disso foi a divisão do partido na votação da PEC do teto, no final de 2016. Depois o partido também se dividiu na votação da reforma trabalhista.

    A sigla também se dividiu na votação sobre as denúncias em relação ao presidente Michel Temer. Essa não era uma votação propriamente programática, mas podia indicar algum nível de unidade partidária, o que não se mostrou real dentro do PSB. Esse ano o PSB se dispôs a aceitar como candidato à Presidência da República uma personalidade respeitável, que era Joaquim Barbosa. Mas se tratava de um quadro que não tem conhecimento sobre visões estratégicas para o país, visões de natureza política mais globais, ou visões sobre programa econômico, concepção de estado.

    Isso tudo mostra que o PSB é um partido dividido do ponto de vista programático e que acaba, em função dessa divisão, tendo um papel pouco relevante na política brasileira. Também em decorrência dessa divisão hoje o partido vive uma situação inusitada de divisão: uns defendem a aliança com Geraldo Alckmin, outros com Ciro Gomes. São candidaturas que representam visões muito diferentes de estado, de economia e de Brasil. Isso é um sintoma da divisão ideológico-programática que existe dentro do PSB e que acaba diminuindo sua capacidade de influência e de se comportar como um partido relevante no cenário nacional.

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