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Como a língua molda a personalidade, segundo estes pesquisadores

Estudos feitos desde os anos 1960 indicam que pessoas se veem e falam de si de forma diferente, de acordo com a língua que estão usando

     

    Pelo menos desde a década de 1960, estudos nos campos da psicologia social e sociolinguística tentam relacionar língua e personalidade. Os resultados de alguns deles indicam que traços de personalidade mudam conforme a língua que se fala.

    Em uma pesquisa conduzida em 1964 por Susan Ervin, a sociolinguista da Universidade de Califórnia explorou as diferenças em histórias criadas por pessoas bilíngues, a depender da língua em que a narrativa era contada.

    O estudo recrutou 64 franceses adultos residindo nos Estados Unidos, fluentes em ambas as línguas. Uma série de ilustrações foi mostrada para os participantes, a partir das quais deveriam elaborar uma história que acompanhasse cada cena.

    O experimento foi realizado com cada pessoa em duas sessões: uma inteiramente em inglês, outra em francês. Comparando as diferentes versões elaboradas por cada indivíduo nas duas línguas, a pesquisadora identificou um padrão de diferenças temáticas significativas.

    Em inglês, as narrativas apresentavam, com maior frequência, realizações femininas, agressão física, agressão verbal dirigida aos pais. Já as histórias em francês eram mais propensas a incluir o domínio por pessoas mais velhas, culpa e agressão verbal dirigida aos pares.

    Um outro experimento, feito pela pesquisadora em 1968, também ilustrou a mudança no conteúdo do discurso conforme a língua. O grupo estudado, dessa vez, foram mulheres japonesas que moravam na cidade de São Francisco. A maioria delas era casada com americanos e muitas se encontravam bastante isoladas de outros japoneses no país – falavam a língua materna apenas quando visitavam o Japão ou falavam com amigos bilíngues.

    Vários exercícios verbais foram propostos a essas mulheres em japonês e inglês, revelando diferenças nas respostas obtidas. Quando solicitadas, por exemplo, a completar uma série de frases, houve variação expressiva nas ideias apresentadas em cada língua.

    Para a frase “quando os meus desejos entram em conflito com a minha família...”, uma mesma mulher completou, em inglês, com “eu faço o que quero”, e em japonês, “é um momento de grande infelicidade”, segundo cita uma reportagem do site The New Republic. 

    Estudos mais recentes, realizados nos anos 2000 por Nairán Ramírez-Esparza, professora assistente de psicologia social na Universidade de Connecticut, tratam do impacto da língua no comportamento.

    Um artigo de 2004, assinado por Ramírez-Esparza e outros pesquisadores, descreveu o comportamento de americanos de ascendência mexicana, bilíngues, ao responderem um teste de personalidade nas duas línguas.

    Quando respondiam ao teste em inglês, características como extroversão, amabilidade e conscienciosidade se sobressaíram mais.

    Os pesquisadores sugerem que o resultado se deve ao fato de que culturas individualistas, como a americana, valorizam mais a determinação, as realizações pessoais e a afabilidade, mesmo que superficial.

    Um outro artigo, publicado em maio de 2017 por um grupo de pesquisadores de universidade americanas, incluindo Nairán Ramírez-Esparza, afirma que indivíduos bilíngues experimentam algo semelhante a uma “dupla personalidade”.

    Ainda trabalhando com mexicano-americanos, foi pedido no estudo que os participantes da pesquisa redigissem uma descrição de si mesmos, de suas personalidades, em inglês e espanhol.

    O estudo verificou que, em cada versão, os indivíduos adequavam a visão de si aos valores culturais associados à língua em que a descrição de personalidade era feita.

    Em inglês, essa descrição era como a de um americano monolíngue: falavam da experiência na universidade, da sociabilidade, das realizações. Em espanhol, falavam de relacionamentos, de seus hobbies e da relação com a família.

    Por que isso acontece

    Embora várias pesquisas abordem a mudança de personalidade relacionada ao idioma, pesquisadores não conseguem explicar de maneira conclusiva as razões dessa variação. 

    Hipóteses

    A língua está associada a valores culturais, assumidos pelo falante

    Nos vemos através dos valores associados à língua que estamos falando, como sugere um artigo de 1998 da pesquisadora Michele Koven, professora de comunicação da Universidade de Illinois.

    Falar outra língua muda a percepção sobre si

    Ao prestar atenção em como as outras pessoas reagem a nós enquanto falamos outra língua, nossa percepção sobre nós mesmos muda.

    A identidade mescla nosso próprio senso de identidade ao sentimento do que os outros acham de nós, que impacta a forma como projetamos quem somos, disse a professora de língua e literatura da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, Carolyn McKinney, ao site Quartz em 2017.

    Para alguns pesquisadores, o fator responsável pela mudança de personalidade e comportamento tem menos a ver com a língua do que com o ato de se comunicar com outra pessoa: “A partir do instante em que fala com alguém, o indivíduo está participando de uma negociação de identidade”, disse o professor Bonny Norton, da Universidade da Colúmbia Britânica em entrevista à reportagem do Quartz.  

    O contexto em que se aprende uma língua é essencial para o senso de identidade que temos ao falar essa língua

    As primeiras experiências associadas ao aprendizado da língua são incorporadas ao senso de identidade do indivíduo enquanto falante daquela idioma.

    Aprender mandarim durante um período vivido na China possibilitará levar em conta, na construção desse senso de identidade, observações em primeira mão sobre as pessoas e a cultura.

    Aprendendo mandarim em uma sala de aula no seu próprio país, o falante provavelmente irá incorporar crenças e associações a respeito da cultura chinesa da pessoa que ensina, mesmo quando são baseados em estereótipos, exemplifica a reportagem do Quartz.

    Em entrevista por e-mail ao Nexo, a professora e pesquisadora Nairán Ramirez-Esparza fala sobre as descobertas sobre o fenômeno.

    Há evidência científica de que a personalidade realmente muda quando se fala línguas diferentes?

    Nairán Ramirez-Esparza Estudos indicam que, ao alternarem entre as duas línguas que falam, bilíngues também se veem de forma diferente, dependendo da língua que estão falando. Isso sugere que a língua revela diferentes visões de si no mesmo indivíduo.

    Por exemplo, um indivíduo mexicano-americano, bilíngue em inglês e espanhol, vê a si como mais gentil e educado, valoriza mais as relações quando descreve sua personalidade em espanhol. Ao passo que, em inglês, o mesmo indivíduo revela uma visão de si como assertivo, competitivo e dedicado.

    Quais são as hipóteses sobre por que isso acontece?

    Nairán Ramirez-Esparza A principal hipótese é que a língua instrui os indivíduos a pensarem sobre os valores culturais associados a ela. Uma pessoa que é bicultural, que se identifica com duas culturas e também fala duas línguas, muito provavelmente internalizou valores das suas culturas, de forma que a língua simplesmente os transporta a visão de sua personalidade dentro dos valores culturais associados a cada cultura.

    Esses valores culturais pertencem à língua ou ao país em que é falada? A personalidade também varia quando se muda o sotaque? (Passando do inglês americano para o britânico, por exemplo).

    Nairán Ramirez-Esparza Infelizmente, ainda não há estudos que respondam a essa pergunta. Não sabemos, por exemplo, se pessoas bilíngues em catalão e espanhol mudam a visão que têm de si quando alternam as línguas. É possível que isso não aconteça, porque as duas línguas foram aprendidas no mesmo país e, portanto, associadas à mesma cultura.

    Outra questão interessante para pesquisas futuras é observar se anglo-americanos veem a si mesmos de maneira diferente ao serem “informados” pelo inglês britânico ou americano. Meu palpite é que eles se enxergariam de forma diferente porque cada sotaque se associa a uma cultura diferente, e isso pode trazer visões distintas sobre si.

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