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Por que mulheres estão ocupando e paralisando universidades no Chile

Há pelo menos 10 manifestações do tipo, em diferentes cidades. Movimento envolve principalmente estudantes, mas também professoras e funcionárias

    Estudantes universitárias do Chile iniciaram em abril de 2018 uma série de ocupações e paralisações nas universidades do país. Elas receberam apoio também de professoras e funcionárias das instituições.

    O maior objetivo é protestar contra o machismo, especialmente no ambiente universitário. É um movimento descentralizado, sem liderança comum, que está sendo referido no Chile pelo nome de “tomadas feministas”.

    Há ocupações e paralisações nas universidades Austral, do Chile, PUC de Valparaíso, Católica de Temuco, Diego Portales, Bío-Bío, Concepción e Tecnológica Metropolitana. Dentro de uma mesma universidade há casos de mais de uma ocupação, em diferentes faculdades.

    Em menos de um mês, são pelo menos 10 manifestações do tipo no Chile. Também há homens nas ocupações, mas eles são minoria.

    “Frente às transformações [sociais] que ocorreram, as instituições não assumem a violência de gênero como um fenômeno estrutural e também não souberam dar soluções aos problemas que as companheiras tiveram”

    Emilia Schneider

    estudante e porta-voz da ocupação da Faculdade de Direito da Universidade do Chile

    O início das manifestações

    Alejandro Yáñez Cárcamo, docente da Universidade Austral, em Valdivia, no sul do país, havia sido acusado de assédio sexual por uma funcionária. Uma investigação interna comprovou as suspeitas, e a decisão institucional foi transferi-lo para outra unidade da própria universidade, um laboratório afastado do campus principal.

    Então surgiram os protestos, com a ocupação de uma das faculdades da Universidade Austral a partir do dia 17 de abril. As manifestantes exigiam que o docente fosse demitido em vez de transferido, o que veio a acontecer dias depois, em 23 de abril.

    As mulheres que protestaram também pediram que o professor não recebesse indenização pela demissão.

    ‘Las tomas feministas’

    Mulheres de outras cidades começaram então a organizar seus próprios protestos nas universidades. Houve também casos particulares que motivaram manifestações locais, além do que envolveu o professor da Universidade Austral.

    É o caso da Faculdade de Direito da Universidade do Chile, a maior e mais antiga universidade do país. Lá, a ocupação começou em 27 de abril.

    Em agosto de 2017, uma estudante relatou ter sofrido assédio sexual e moral do professor Carlos Carmona, que entre 2009 e 2018 também integrou o Tribunal Constitucional do Chile — corte equivalente ao Supremo Tribunal Federal no Brasil. Na época da denúncia, Carmona presidia o tribunal.

    Em abril de 2018, a instituição decidiu afastar Carmona por três meses, mas por outro motivo, em um caso de improbidade administrativa por pagamentos irregulares à sua equipe. A acusação de assédio não foi adiante. Essa decisão ocorreu em processos internos da universidade, mas o caso de assédio sexual começou a tramitar formalmente na Justiça recentemente, sem prazo para um resultado.

    Por serem protestos descentralizados, as demandas das manifestantes são diversas, mas em geral se concentram nos seguintes pontos:

    Principais demandas

    FIM DO SEXISMO NO ENSINO

    É uma pauta ampla, mas que as manifestantes dividem em alguns pontos: mais obras de autoras mulheres na bibliografia das disciplinas, fim de piadas ou vocabulário machistas nas universidades (mesmo que em uma sala de aula apenas com homens, por exemplo), e fim do estigma de que certos cursos são mais adequados a mulheres ou a homens.

    RESPOSTAS INSTITUCIONAIS

    As manifestantes pedem que os casos de assédio ou abuso sexual nas universidades tenham investigações e respostas mais rápidas por parte das instituições. A avaliação é que, em geral, professores homens são protegidos em casos do tipo. Algumas ocupações pedem a criação, em suas respectivas instituições, de um grupo específico para acompanhar casos de assédio sexual.

    COMANDO FEMININO

    Também exigem que mais mulheres sejam indicadas a postos de comando no ensino superior do Chile, como nos cargos de reitora das universidades.

    MUDANÇA CURRICULAR

    Incluir disciplinas que abordem, em diferentes cursos universitários, a questão de gênero para todos os estudantes. Também haver cursos do tipo para professores e funcionários das universidades.

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