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Por que Joaquim Barbosa ainda não anunciou sua pré-candidatura

Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal filiado ao PSB têm potencial, mas até agora falou pouco sobre o que pensa do país

    Relator do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa se filiou ao PSB em abril de 2018, com a perspectiva de disputar as eleições presidenciais.

    A cinco meses da votação do primeiro turno, marcada para 7 de outubro, porém, o ex-ministro ainda não oficializou sua pré-candidatura. E também falou muito pouco publicamente sobre o que pensa dos problemas do Brasil.

    Em tese, Barbosa tem até o dia 15 de agosto para decidir se vai ou não disputar a corrida presidencial. Esse é o prazo para o registro de candidaturas. Mas muitos políticos, na busca por espaço, já tornaram pública a intenção de concorrer ao Palácio do Planalto. Por ora, há pelo menos duas dezenas de pretendentes.

    No dia 19 de abril, Barbosa afirmou que sua família era contra a candidatura à Presidência da República. O ex-ministro admitiu, ainda, que enfrentava dificuldades no PSB.

    “Há dificuldades dos dois lados. O partido tem a sua história, tem as suas dificuldades regionais, as dificuldades de alianças regionais. E eu, do meu lado, tenho as minhas dificuldades de ordem pessoal. Eu ainda não consegui convencer a mim mesmo de ser candidato”

    Joaquim Barbosa

    ex-ministro do Supremo

    A indefinição de Barbosa causa desconforto no PSB. O partido avalia que pode ficar para trás nas eleições, sem possibilidades de alianças, caso o ex-ministro desista da empreitada.

    O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), cobrou uma posição de Barbosa em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no sábado (5).

    Herdeiro político de Eduardo Campos — ex-governador que morreu quando disputava a Presidência em 2014 pelo PSB, vítima de um acidente aéreo —, Câmara disse que Barbosa “precisa de apresentar”.

    “Se [Barbosa] for caminhar para uma candidatura será muito questionado. Vai ter que dizer o que pensa em relação ao Brasil. O povo brasileiro não vai eleger nenhum presidente sem conhecer suas ideias e ter um mínimo de confiança”

    Paulo Câmara

    governador de Pernambuco

    Barbosa se apresentou muito pouco até agora. Uma das raras vezes foi durante a entrevista que deu também ao jornal O Estado de S. Paulo, em 26 de abril. Nela, ele afirmou ser contra “posições ultraliberais”.

    “Não sou favorável a posições ultraliberais num país social e estruturalmente tão frágil e desequilibrado como o Brasil, com desigualdades profundas e historicamente enraizadas”

    Joaquim Barbosa

    ex-ministro do Supremo

    Joaquim e a chance do outsider

    A política tradicional vive uma crise. A questão da falta de representatividade apareceu, primeiro, nas manifestações de junho de 2013, e depois se intensificou com a Operação Lava Jato, que a partir de 2014 atingiu todos os grandes partidos do Brasil com denúncias de corrupção.

    A ideia do surgimento de um candidato outsider, de fora do mundo político, apareceu com força nas eleições municipais de 2016 e deve ser reforçada na campanha de 2018. Na sucessão presidencial, Barbosa é, por ora, esse outsider. Mais do que isso: um outsider do mundo político cuja carreira está associada diretamente ao combate à corrupção de políticos.

    Segundo artigo da socióloga Angela Alonso, presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Barbosa consegue atingir os dois espectros ideológicos, agradando à direita pela imagem contra a corrupção e à esquerda em razão de questões identitárias.

    Na pesquisa Datafolha divulgada em 16 de abril, o ex-ministro do Supremo aparece oscilando entre 8% e 10% em todos os cenários. Em algumas projeções, fica à frente, por exemplo, do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) — político com nome conhecido pelos eleitores e cuja pré-candidatura já foi oficializada.

    A questão do temperamento de Barbosa também aparece neste momento, enquanto ele não oficializa sua candidatura. Em 2013, quando presidia o Supremo, o ex-ministro mandou um jornalista “chafurdar no lixo”.

    Duas análises sobre a situação de Barbosa

    O Nexo entrevistou dois cientistas políticos para avaliar a atual situação de Barbosa e as chances do ex-ministro caso, de fato, venha a se lançar candidato à Presidência da República. São eles:

    • Deysi Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP
    • Vítor Oliveira, diretor da consultoria Pulso Público e mestre em ciência política pela USP

    Por que Barbosa ainda não lançou a pré-candidatura?

    Deysi Cioccari  Há um receio, primeiro dele. O momento político brasileiro é um dos mais difíceis da nossa história e entrar num embate como esse requer muita cautela. Com certeza o ex-ministro não é indiferente a isso. Cuidadoso como deve ser, provavelmente está montando a equipe para quando o embate político começar, ele esteja preparado.

    Também há uma falta de sintonia entre os caciques do PSB em torno da candidatura dele. O PSB tem muitas versões ideológicas dentro do partido. Isso com certeza atrasa o anúncio. O PSB tem suas histórias regionais muito bem definidas.

    Vítor Oliveira A pré-candidatura de Joaquim Barbosa é uma incógnita em muitos aspectos. Do ponto de vista pessoal, é preciso considerar que há um custo de oportunidade no movimento, tendo em vista que o capital político angariado pelo ex-ministro do STF em sua trajetória poderia ser perdido. Embora saibamos do quão consequentes politicamente são os tribunais superiores, curiosamente a atuação de Barbosa ainda é percebida por muitos como apolítica, ou até mesmo antipolítica, a depender de como se considera o sentido do termo e sua atuação durante o julgamento do mensalão.

    Outro impeditivo é o risco que corre o partido, o qual precisa considerar as chances de vitória na eleição presidencial de Barbosa, bem como os efeitos positivos de ter um candidato nacional. Isto se torna mais grave quando pensamos que a única eleição verdadeiramente nacional é a para presidente. Todas as outras são regionais ou locais, e isto embaralha muito o cálculo estratégico de uma aliança nacional, pois pode limitar o potencial de alianças e minar as bases de poder atuais do partido.

    Por fim, precisamos entender que as elites políticas são muito ciosas de suas posições e um outsider pode modificar o equilíbrio de poder entre os grupos dentro do PSB. Tudo isto entra na conta, além da própria incerteza com relação ao temperamento e às posições ideológicas de Barbosa. Reações intempestivas de pessoas com muito poder podem ter consequências graves.

    O ex-ministro tem chance de ir para o segundo turno?

    Deysi Cioccari Sim. É um homem negro, de origem pobre, que estudou e chegou ao STF. Tem todos os elementos que podem ser trabalhados de forma convincente. Não tem o desgaste midiático que outros pré-candidatos já têm. Há um pensamento generalizado de que deve-se combater primeiramente a erva daninha chamada corrupção e esse foi um papel desempenhado por ele que ficou no imaginário popular. Quem não lembra das máscaras de carnaval com o rosto do ex-ministro? Basta um mínimo esforço de seus marqueteiros para isso voltar ao imaginário popular.

    Ele tem capacidade de arregimentar votos em diferentes nichos ideológicos. Joaquim Barbosa deve chegar à campanha com a embalagem de super-herói anticorrupção. Em tempos de Lava Jato, há um grande potencial aí e um imaginário do candidato, repito, negro, de origem humilde que “venceu na vida”.

    Vítor Oliveira Para vencer eleições é preciso ser diferente do restante, por algum motivo. No caso de Barbosa, há uma saliência em função de sua atuação no STF, uma imagem consolidada junto a parte do eleitorado. Mas as evidências sugerem que isto não é suficiente; há pouco espaço para concorrer à presidência sem estrutura partidária nacionalizada. 

    Acho difícil que um cenário de completa ausência de coordenação partidária, como o de 1989 [quando Collor venceu pelo PRN], se repita em função do comportamento estratégico do eleitor, que deverá concentrar suas opções por meio do famoso “voto útil” mesmo no primeiro turno, como ocorreu nas últimas décadas.

    Ainda assim, estamos em um mundo intermediário, em que PT e PSDB terão seu duopólio nacional questionado por outras forças políticas concorrentes. Há, portanto, mais chances de que uma nova força chegue ao segundo turno do que no passado recente, mas o desafio é grande em função destas forças estruturais que continuarão a ter peso na disputa.

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