Os resultados do novo teste com MDMA para tratar estresse pós-traumático

Droga vem sendo utilizada em pesquisas para viabilizar que pessoas com o transtorno acessem e trabalhem memórias dolorosas em sessões de psicoterapia

 

Pessoas que vivenciam eventos traumáticos, como cenas de guerra ou violência doméstica, podem desenvolver transtorno do estresse pós-traumático. Entre os sintomas da doença estão: não conseguir controlar pensamentos negativos, ter flashbacks e pesadelos recorrentes, e sofrer com ansiedade extrema.

Um dos tratamentos é a psicoterapia. O problema é que, muitas vezes, a lembrança dos eventos traumáticos é demasiadamente dolorosa, os pacientes ficam muito perturbados e estressados ao acessá-los e a psicoterapia se torna uma experiência inviável.

Para contornar esse obstáculo, cientistas têm buscado aliar a psicoterapia à MDMA (sigla para metilenodioximetanfetamina). A droga é estimulante e traz sensação de prazer, euforia e empatia. Pesquisadores acreditam que, sob efeito de MDMA, pacientes são capazes de relembrar e trabalhar eventos traumáticos com menos sofrimento.

Por trazer uma sensação de empatia, a droga também facilita que os pacientes se abram com os psicoterapeutas, estabeleçam um vínculo terapêutico e falem sobre seus problemas.

A MDMA foi inventada no início do século 20, e chegou a ser testada com fins terapêuticos na década de 1970. Mas posteriormente foi ilegalizada por diversos governos no mundo, inclusive dos Estados Unidos e do Brasil. Em paralelo, ganhou espaço como droga recreativa em festas e outras situações sociais, e ficou conhecida como “ecstasy”. No Brasil, drogas apelidadas de “balas” são frequentemente associadas ao efeito da MDMA, mesmo em casos em que a composição química é outra.

Agora, nos Estados Unidos, uma série de pequenos testes com uso de MDMA em psicoterapia tem sido conduzida por pesquisadores com autorização do governo, em um contexto no qual a ciência tem voltado a analisar os efeitos e o potencial terapêutico de drogas proscritas, como também é o caso do LSD.

No mês de maio, um novo trabalho realizado com 26 veteranos de guerra, bombeiros e policiais que sofrem de estresse pós-traumático foi publicado na revista acadêmica Lancet, dedicada à área de saúde. Todos os pacientes selecionados não haviam obtido bons resultados com as drogas e terapias disponíveis.

A pesquisa foi financiada com verbas da Maps (sigla em inglês para Associação Multidisciplinar para Estudos sobre Psicodélicos), que se dedica ao estudo de drogas que a instituição considera psicodélicas -não há uma definição científica oficial sobre quais drogas devem receber esta classificação- e conclui que a droga teve efeitos positivos e foi capaz de diminuir drasticamente os sintomas de 16 dos 26 pacientes.

Trata-se de um teste de fase 2, com o objetivo de verificar a eficácia e a segurança da terapia. Os pesquisadores já têm autorização do governo americano para realizar testes de fase 3, previstos para junho de 2018. No geral, esses testes ocorrem com grupos maiores de pessoas.

Caso sejam bem sucedidos, eles podem abrir caminho para que o tratamento passe a ser disponibilizado no mercado americano.

Segundo o trabalho, “a psicoterapia assistida por MDMA pode se tornar uma opção viável e aprovada pelo governo para o transtorno de estresse pós-traumático em 2021”. A psicoterapia com a droga, fornecida pela Maps, também deve ser testada no Brasil por uma equipe capitaneada pelo neurocientista Eduardo Schenberg.

“Esse teste fornece novas evidências de que a psicoterapia com assistência de MDMA pode ser usada de forma segura e efetiva para tratar pacientes com transtorno de estresse pós-traumático crônico. Essa nova abordagem da psicoterapia oferece uma forma de acelerar substancialmente o processo terapêutico com uma droga psicoativa de curta duração, administrada apenas algumas vezes em intervalos mensais, em conjunção com psicoterapia.”

Pesquisa 'Terapia para transtorno do estresse pós-traumático assistida com 3,4-metilenodioximetanfetamina sobre veteranos, bombeiros e policiais', publicada em maio de 2018 na revista acadêmica The Lancet

Como a pesquisa foi realizada

O trabalho foi realizado em uma clínica psiquiátrica na cidade de Charleston, nos Estados Unidos. 26 pacientes - todos eles bombeiros, policiais ou veteranos de guerra - foram recrutados entre 2010 e 2015 por meio de indicações de médicos, boca a boca e anúncios na internet.

Todos sofriam de níveis altos de transtorno de estresse pós-traumático, medidos por meio de um questionário chamado Caps-IV (sigla em inglês para “escala de estresse pós-traumático aplicada por médicos”), no qual tinham atingido 50 pontos ou mais. Em média, eles tinham pontuação de 87 nesse teste.

A MDMA utilizada na pesquisa foi fabricada na Universidade de Purdue, no estado de Indiana (EUA), e colocada em cápsulas.

Os pacientes participaram de três sessões de psicoterapia sem uso de MDMA com o objetivo de criar um vínculo com os terapeutas. Após essas primeiras sessões, a droga passou a ser administrada em intervalos de um mês, em duas sessões experimentais com duração de oito horas.

Os pacientes foram divididos em três grupos. Sete pessoas receberam doses de 30 mg de MDMA. Outras sete, de 75 mg, e 12 pessoas receberam  125 mg. Eles não sabiam exatamente a dose que estavam recebendo.

As sessões com a droga foram seguidas de sete dias de contato telefônico entre pacientes e terapeutas, e de outras três sessões presenciais de psicoterapia com duração de 90 minutos, que tinham como objetivo trabalhar a partir da experiência com a MDMA, mas não incluíam novas doses da droga.

No geral, todo o tratamento correspondeu a entre 16 e 24 horas de psicoterapia com uso de MDMA e 18 horas de psicoterapia sem uso da droga.

Os resultados dos testes

Após um mês do fim da segunda sessão com uso de MDMA, os participantes realizaram um novo teste Caps-IV com o objetivo de medir se os sintomas de transtorno de estresse pós-traumático haviam melhorado.

Os pesquisadores também buscaram medir sintomas de depressão, a qualidade do sono, mudanças de personalidade, a autopercepção de crescimento pessoal após os eventos traumáticos. Esta autopercepção foi medida com questões sobre se a pessoa se via como mais disposta a expressar emoções, ou se havia mudado suas prioridades de vida, por exemplo.

Os testes voltaram a ser realizados após 12 meses, e indicam que as terapias foram eficazes.

  • Após um mês, os grupos daqueles que passaram por terapias com aplicação de 30 mg de MDMA tiveram redução de 11,4 pontos nos testes de Caps-IV, que medem sintomas de transtorno do estresse pós-traumático. De 7 participantes, 2 obtiveram uma pontuação abaixo de 50 no teste - se tivessem obtido essa pontuação no momento da triagem, nem ao menos teriam participado do tratamento.
  • Aqueles que receberam doses de 75 mg tiveram redução de 58,3 pontos. De 7 participantes, 6 rebaixaram sua pontuação no Caps-IV para menos de 50 pontos.
  • Surpreendentemente, os que receberam doses maiores, de 125 mg, tiveram redução menor: 44,3 pontos. Dos 12 participantes, 7 rebaixaram a pontuação para menos de 50 pontos, um resultado também pior do que aquele obtido com a dose de 75 mg. A pesquisa aponta que, como o grupo é pequeno, essa diferença inesperada pode ter ocorrido por acaso, ou possivelmente porque a dose de 75 mg é mais apropriada para processar experiências traumáticas.

Ou seja, dos 26 pacientes, 15 rebaixaram sua pontuação no Caps-IV para menos de 50 pontos. Após 12 meses, 16 haviam rebaixado a pontuação a esse nível. A pesquisa afirma que:

“Ao fortalecer sentimentos sociáveis e empáticos, a MDMA pode melhorar a aliança terapêutica [entre paciente e psicoterapeuta] e a abordagem de material psicológico difícil [como traumas].”

Após um mês, os sintomas de depressão também diminuíram mais entre os pacientes que receberam as maiores doses de MDMA, de 75 mg e 125 mg. Os grupos que receberam as maiores doses também apresentaram as percepções mais positivas sobre crescimento pessoal após o trauma.

Segundo a pesquisa, isso indica que “as percepções sobre si mesmos, outras pessoas e eventos de vida foram revistas durante o processamento na terapia, o que sugere que os efeitos do tratamento superaram a redução dos sintomas de humor e de transtorno de estresse pós-traumático, e incluíram crescimento psicológico”.

Em comparação com o grupo que tomou doses de 30 mg, aqueles que tomaram doses de 125 mg tiveram reduções significativas em traços de comportamento neurótico.

Os que usaram doses de 75 mg passaram a ter um comportamento mais “aberto”, que do ponto de vista da psicologia inclui sensibilidade estética, atenção aos próprios sentimentos, preferência por variedade e curiosidade intelectual.

Segundo a pesquisa, isso indica que a experiência com MDMA pode abrir caminhos para alterações de traços comportamentais em adultos, algo que em geral pesquisas em psicologia encaram como difícil de se atingir.

O grupo que recebeu doses de 75 mg foi o que teve a maior melhora no sono, seguido pelo grupo que recebeu a dose de 125 mg e pelo que recebeu a dose de 30 mg.

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