O que há no clipe de ‘This Is America’, do músico Donald Glover

Lançado no sábado (5), vídeo obteve 10 milhões de visualizações em um único dia e foi um dos tópicos mais discutidos nas redes no fim de semana

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Foto: Reprodução
Frame de 'This is America'
 

No sábado (5), o “Saturday Night Live”, tradicional programa de humor da TV americana, foi apresentado pelo ator, roteirista, diretor e músico americano Donald Glover.

Além da função de apresentador, Glover atuou em praticamente todos os esquetes da noite e lançou duas músicas, que assina com o nome artístico Childish Gambino.

A performance ao vivo de uma delas, “This Is America”, foi apresentada por Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar de melhor ator em 2018 por sua performance no filme “Corra!”, thriller racial dirigido por Jordan Peele.

O clipe de “This Is America” também entrou no ar no sábado e se tornou um dos tópicos mais discutidos no Twitter nos EUA. Na segunda-feira (7), o clipe já contava com mais de 21 milhões de visualizações no YouTube. 

 

O vídeo foi coreografado pela atriz ruandesa Sherrie Silver e dirigido por Hiro Murai.

No currículo do cineasta nascido em Tóquio e baseado nos Estados Unidos estão outros vários clipes, de artistas como o rapper Earl Sweatshirt e da banda Queens of the Stone Age, e boa parte dos episódios das duas temporadas de “Atlanta”, série criada por Donald Glover.

A simbologia evocada pelo clipe

A leitura do vídeo de Donald Glover em sites de cultura e nas redes sociais tem privilegiado dois eixos principais:

Violência

No início do clipe, um homem negro se senta e dedilha um violão. A melodia começa tranquila e alegre, um coro canta.

Gambino (Donald Glover) é filmado primeiro de costas, se vira, dança com uma postura corporal e caretas que têm sido interpretadas como uma referência ao personagem Jim Crow, visão estereotipada, racista e de intenção cômica dos negros americanos criada pelos espetáculos de menestréis no século 19, em que atores faziam blackface.

O personagem interpretado por Gambino atira explicitamente na cabeça do violonista, coberta por um saco.

Para a historiadora Suzane Jardim, o homem morto alegoriza a primeira tradição de música popular negra americana, de gêneros como o blues, surgidos da resistência e criação entre negros.

O clipe indicaria que se sobrepôs como manifestação popular, a essa tradição orgânica, a representação ridicularizante dos “minstrel shows”.

“Mas isso é a América, Gambino nos diz. É brutal, mas ou você toma parte no espaço que a cultura americana designou para você (mesmo que seja apenas para fazer o papel de Jim Crow, como muitos artistas americanos fizeram e continuam a fazer desde a fundação do país) ou perece”.

Justin Simien

Criador da série e do filme ‘Cara Gente Branca’, no Twitter

Os episódios de violência à mão armada destacam o caráter epidêmico desse tipo de ocorrência no país.

Na segunda das duas cenas de violência explícita com arma de fogo que o clipe contém, o personagem de Gambino atira em um coral gospel composto por fiéis negros.

A sequência é vista como uma alusão ao massacre em uma igreja de Charleston, na Carolina do Sul, em 2015, no qual um atirador branco matou nove negros.

O atirador sai andando intocado, de maneira despreocupada, observa um artigo do site Mashable.

 

Ao longo do clipe, outros corpos negros se juntam à dança de Gambino. Um tumulto permanece sendo pano de fundo – correria, um carro em chamas, policiais que perseguem um grupo com o cassetete em punho.

São, segundo apontam os comentários de colaboradores no site Genius, as revoltas recentes do movimento Black Lives Matter, reação contra a violência policial que atinge a população negra.

Dança

Os passos de dança realizados ao longo do clipe “ignoram deliberadamente a violência ao redor”, o fazem de maneira devota, como em um ritual, ou com o objetivo de distrair a si mesmos dela, especula um artigo publicado pelo site da revista Forbes.

“De qualquer forma, quer se diga que essa dança é para entreter os brancos ou para sobreviver, é uma estratégia para lidar com a morte”, escreveu a colaboradora Adrienne Gibbs para a Forbes.

A coreografia de Sherrie Silver mistura danças tradicionais e novas, passos de Gwara Gwara, da África do Sul, e das danças de rua presentes em vídeos virais.

O texto de Martha Tesema para o site Mashable também levanta três hipóteses semelhantes a respeito do significado da dança no clipe. A primeira é que os dançarinos a ignoram, a segunda é que sabem dessa violência e dançam para não chorar.

A terceira é que dançam para uma câmera, para as redes sociais e sabem “que sua dança é uma distração, salvação ou capa de invisibilidade”, escreveu Tesema. “Note que os dançarinos não foram atingidos pelos tiros ou perseguidos pela polícia.”

Outras aparições

Alguns elementos pontuais também têm sido mencionado em análises:

O cuidado com as armas

Cada vez que uma arma é disparada, alguém uniformizado aparece com um pano vermelho para recolhê-la com cuidado. O corpo da primeira vítima, ao contrário, é arrastado de maneira apressada, como se tirado do caminho.

Um cavalo branco

Um cavalo branco e um cavaleiro encapuzado cruzam o segundo plano da imagem. É, talvez, uma referência ao primeiro cavaleiro do apocalipse, presente no “livro da revelação”, da Bíblia.

A corrida final

Na última sequência, Gambino sai em disparada com um grupo de pessoas (aparentemente brancas, embora apareçam fora de foco), em seu encalço (ou estariam correndo junto com ele?). A fuga tem sido relacionada ao filme “Corra!”, em que o apreço de brancos pela cultura e pela potência negras se converte em filme de terror.

 

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