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Por que a recuperação da economia brasileira está frustrando as projeções

Ministério da Fazenda prevê crescimento de 3% do PIB em 2018, mas mercado vem reduzindo estimativas futuras. Dados do primeiro trimestre decepcionam

     

    A recessão acabou no final de 2016, mas o mal-estar causado pela profunda crise econômica que o Brasil viveu ainda é sentido pela população. O fato é que, mais de um ano depois do fim oficial da recessão, a economia ainda é 6% menor do que era em 2014. Se considerarmos que a população cresceu nesse período, o país tem um bolo menor sendo dividido com mais gente - o que significa uma queda ainda maior do PIB (Produto Interno Bruto) per capita.

    O alívio para o mal-estar econômico só deve vir com a retomada do crescimento, com mais crédito e geração de empregos. Em 2017, o PIB cresceu 1% - número ainda insuficiente para que a população sinta os efeitos da saída da recessão.

    Lenta saída

     

    Para 2018, o crescimento deve ser maior. O Ministério da Fazenda trabalha com a possibilidade de uma expansão de 3%. Nas últimas semanas, porém, o número, que era também a previsão de empresas e bancos, começa ser revisado para baixo.

    Os sinais que abalam as projeções

    O PIB do primeiro trimestre de 2018 só será divulgado em junho, mas dados preliminares decepcionantes vêm motivando redução de projeções. A consultoria LCA, por exemplo, avisou a seus clientes na sexta-feira (4) que a “produção industrial surpreendeu negativamente outra vez em março e adiciona mais um viés negativo para a projeção do PIB em 2018”. A atual projeção da consultoria é de 2,7%, mas revisões para baixo são prováveis.

    Além da indústria, outro número preliminar que vem pressionando uma redução nas projeções é o de consumo. O varejo e o setor de serviços, que representam cerca de dois terços do PIB, não estão puxando a retomada da economia. Depois dos dados ruins, bancos como Bradesco e Itaú cortaram suas projeções para o primeiro trimestre praticamente pela metade.

    No boletim Focus, documento em que o Banco Central consulta semanalmente as projeções de agentes de mercado, a redução também aparece. No relatório divulgado na primeira semana de março, o crescimento do PIB projetado para 2018 era de 2,9%. Pouco mais de um mês depois, a mediana das projeções do Focus mais recente mostra 2,75% de crescimento.

    Instituições internacionais têm projeções ainda menores. O FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta uma expansão de 2,3%, pouco menos que os 2,4% do Banco Mundial.

    Travas da economia

    O governo de Michel Temer e sua equipe econômica, que até o início de abril era comandada pelo agora pré-candidato Henrique Meirelles, ressaltam melhorias no cenário para o Brasil ao longo dos últimos anos. O discurso oficial enfatiza, por exemplo, a queda da inflação e dos juros.

    A expectativa era de que, com as medidas tomadas pelo governo, houvesse uma melhora na confiança dos agentes econômicos - consumidores, investidores e empresários. Esse ânimo, aliado a medidas de controle das contas públicas e concessões, principalmente de infraestrutura, ao setor privado, serviria para que voltassem os investimentos na economia brasileira.

    Por enquanto, só parte da previsão se concretizou. Não há um aumento significativo e consistente no consumo das famílias ou uma melhora no mercado de trabalho. Os juros reais, diferença entre a taxa básica e a inflação, também estão baixos, mas isso ainda não foi o suficiente para que investidores voltem a aplicar seu dinheiro na economia real.

    Vai e vem

    Selic baixa, crédito caro

    Em outubro de 2016, a taxa básica de juros da economia estava em 14,25% ao ano. Um ano e meio depois, a Selic é menos da metade disso: 6,5%. A redução dos juros básicos, porém, não foi acompanhada pelos bancos no fornecimento de crédito ao consumidor final. Os baixos juros reais, diferença entre a taxa básica e a inflação, também não estimulou os investimentos na economia real como o governo esperava.

    Inflação baixa, desemprego alto

    A inflação é a mais baixa em mais de uma década, o que favorece o poder de compra da população. O desemprego, porém, continua em um patamar alto. Nos primeiros três meses de 2018, a taxa de desocupação ficou em 13,1%. Sem trabalho, o consumo das famílias não aumenta mesmo que os preços ajudem.

    Reformas pela metade

    O pacote fiscal do governo de Michel Temer ficou pela metade. O governo aprovou o teto de gastos, mas não conseguiu votar a reforma da Previdência - e não poderá votar enquanto durar a intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro. Sem novas soluções, continuam os problemas nas contas públicas para os próximos anos.

    Diante do cenário, o Nexo conversou com dois economistas para saber quais as perspectivas para a economia brasileira em um ano decisivo.

    • Felipe Rezende, diretor do programa de finanças e professor associado do Bard College e Levy Economics Institute, Nova York
    • Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

    O ritmo de recuperação da economia é frustrante?

    Felipe Rezende Para mim não há frustração nenhuma. A análise convencional negligenciou importantes variáveis financeiras da crise brasileira, as condições financeiras das empresas. Essa negligência levou à não previsão da rápida deterioração da economia brasileira em 2015. E agora também leva a uma frustração com o ritmo lento da recuperação.

    O endividamento no Brasil é relativamente baixo na comparação com outros países, mas o problema é que a velocidade de crescimento desse endividamento é muito maior.

    Quando se olha a condição financeira das empresas, se vê que não havia muito espaço para a recuperação econômica via investimento. Por isso agora o mecanismo convencional, de que queda de juros leva a retomada de investimento, não acontece por "ene" fatores.

    Monica de Bolle Para mim não é frustração, é a concretização da realidade. A minha visão sempre foi de que 2018 não seria muito diferente de 2017. Talvez que o Brasil pudesse crescer na faixa de 2%, mas eu nunca imaginei chegar a 3%. Simplesmente porque as forças para o crescimento não estão aí.

    O Brasil passou por um período surpreendentemente longo de excesso de otimismo com relação ao que poderia vir da recuperação em 2018. Olhando o que aconteceu em 2017 para ter aquele crescimento de 1%, uma boa parte teve motivo temporário: primeiro foi a safra recorde, depois a liberação do FGTS e o impacto que ela teve no consumo. Houve a queda da inflação, que é mais permanente, favorece a recuperação salarial, mas isso representa pouco com uma taxa de desemprego muito alta.

    Além disso, muita gente deixou de lado o enorme grau de incerteza política como um fator que impediria qualquer retomada mais forte da economia, sobretudo do investimento e da indústria.

    Por que a recuperação da economia não acontece como era esperado?

    Felipe Rezende Quando se olha para economias que sofreram deterioração forte dos balanços, do nível de endividamento de empresas, a recuperação é muito gradual. Essas economias não respondem tanto à queda de juros.

    A previsão de crescimento era de 3% e já vem caindo. A tendência é que seja entre 1,5% e 2%, sem conseguir gerar emprego como é preciso. Havia uma promessa de que, fazendo as reformas, se resolveria todos os problemas da economia brasileira. Não é bem assim. E isso não é ser contrário às reformas, é entender os limites da política.

    É difícil encontrar um economista que seja contra reforma fiscal, mas o que aconteceu na crise foi que governo cortou onde pôde, que é o investimento público. Desculpe, isso não é reforma. Naquela situação de crise, contração fiscal piora a situação.

    Monica De Bolle Houve uma supervalorização da capacidade de retomada do investimento privado, da capacidade de recuperação da indústria e do consumo das famílias. Se superestimou o efeito da queda inflacionária na capacidade das famílias de consumirem mais. Se superestimou o efeito da queda de juros nos investimentos privados.

    Embora tenha havido redução de juros, que ajuda um pouco, as empresas e as famílias ainda estão com sobreendividamento. Resolver isso demora, mesmo com queda acentuada dos juros. O que a gente vê é que a situação é complicada.

    Ainda há o fato novo, que também força a revisão de projeções, que é o ambiente internacional. Poucos meses atrás, todo mundo achava que o ambiente seria benigno. Aí o [Donald] Trump começou a fazer na área comercial o que ele prometeu na campanha. É incerteza externa, interna e incerteza política.

    O que ainda pode ser feito e que seria determinante para o crescimento 2018?

    Felipe Rezende A resposta, para 2018, é praticamente nada. O governo está operando com o teto de gastos, não há espaço para o governo fazer nada. Não vai haver supersafra, a economia deve andar de lado.

    Investimento privado não deve ter muito. Crédito para as famílias deve aquecer em alguns setores, como o imobiliário, mas insuficiente para puxar uma retomada sustentável. A economia global não vai ajudar.

    Os juros baixos estão na Selic, mesmo se chegar à ponta [não resolve]. O paciente acabou de ter um ataque cardíaco, é difícil pedir para ele correr de novo. Uma crise como essa traumatiza os agentes econômicos. Isso tanto para empresas quanto para famílias.

    Monica De Bolle [Redução de juros para o consumidor], com o quadro de endividamento, não vai adiantar muito. O que pode ser feito, no curto prazo, são medidas como a do FGTS de 2017.

    Eu preferia que isso fosse feito como uma reforma estrutural que acabe com essas poupanças forçadas, que causam uma série de distorções na economia, mas para isso precisa do Congresso. O governo tem falado em liberar esses recursos e isso pode dar alguma ajuda para a economia. Mas são medidas de fôlego curto.

    É decepcionante. Talvez o Brasil estivesse em condição um pouco melhor de enfrentar esse quadro internacional se lá em 2016 tivesse sido feita a reforma da Previdência. Foi um erro do governo fazer o teto dos gastos primeiro, naquela altura o governo tinha capital político.

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