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Quem indica e quem escolhe o vencedor do Nobel da Paz

Congressistas republicanos sugerem Trump para prêmio. Antigo ganhador enviou carta com nome de Lula

     

    Um grupo de 18 congressistas do Partido Republicano enviou nesta quarta-feira (2) uma carta aos responsáveis pelo Nobel da Paz, em Oslo, na Noruega, sugerindo que o prêmio de 2019 seja entregue ao presidente dos EUA, Donald Trump.

    A razão apresentada pelo grupo é a seguinte: desde que chegou à Casa Branca, em janeiro de 2017, Trump “trabalhou incansavelmente para aplicar máxima pressão sobre a Coreia do Norte, de maneira que o país encerrasse seu programa ilícito de armas [nucleares], levando a paz à região [da Península Coreana]”, dizem os congressistas americanos – todos eles da base de sustentação do atual governo americano e membros do mesmo partido político de Trump.

    A Coreia do Norte desenvolve desde os anos 1960 um programa nuclear que desafia sanções, embargos e outras formas de pressão internacional. Recentemente, o regime liderado por Kim Jong-un deu sinais consistentes de que pretende encerrar esse programa, mas ainda não fez nada de concreto a respeito.

    A carta menciona o sinal mais auspicioso até agora, uma reunião ocorrida no dia 27 de abril de 2018 entre os presidentes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte, na fronteira entre os dois países, que estão formalmente em guerra desde 1950.

    Um ex-ganhador do Nobel, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, enviou uma carta à comissão julgadora sugerindo que o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva seja premiado, em razão dos avanços de seu governo (2003-2010) para “tornar a humanidade menos desigual”.

    Lula está preso atualmente em Curitiba, cumprindo pena de 12 anos de detenção por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex. O petista, que lidera as pesquisas de intenção de voto na corrida presidencial de 2018, diz ser perseguido político.

    O que é o Prêmio Nobel da Paz

    O Prêmio Nobel foi criado a partir de uma herança deixada em 1895 por Alfred Nobel. Em seu testamento, ele expressou o desejo de que sua fortuna fosse usada para premiar os maiores expoentes das seguintes áreas: física, química, biologia, medicina, literatura e, de forma mais abrangente, "paz".

    Mais de 70 anos depois, em 1968, foi criada uma nova categoria de premiação, para ciências econômicas.

    Desde então, foram distribuídas 585 premiações para 923 pessoas, em todas essas categorias - algumas vezes a premiação foi dada a mais de uma personalidade ou a uma organização, em vez de uma pessoa.

    A primeira premiação ocorreu em 1901. Desde então, a única categoria que teve vencedores todos os anos foi a de economia. Todas as restantes têm registros de anos sem ganhador. No caso do Nobel da Paz, não houve ganhador nos seguintes anos: 1914, 1915, 1916, 1918, 1923, 1924, 1928, 1932, 1939, 1940, 1941, 1942, 1943, 1948, 1955, 1956, 1966, 1967 e 1972.

    Alguns desses anos correspondem a períodos de guerra, como entre 1914 e 1918 (Primeira Guerra Mundial) e entre 1939 e 1945 (Segunda Guerra Mundial). Há anos, entretanto, em que a comissão pode decidir que não houve um merecedor. Quando isso ocorre, o valor do prêmio permanece no fundo destinado a esse fim.

    O Prêmio Nobel da Paz é importante porque passou a representar ao longo dos anos o reconhecimento de uma parte importante do mundo às ideias e projetos que determinada personalidade ou organização encarna. O prêmio demonstra respaldo a projetos políticos que muitas vezes carecem da força necessária para serem realizados, de recursos financeiros e de visibilidade global para serem respeitados. Em outros casos, trata-se da coroação de projetos políticos suficientemente fortes, que já gozam de prestígio e respaldo na sociedade.

    Em 2017, o prêmio em dinheiro dado ao vencedor do Nobel da Paz foi o equivalente a pouco mais de US$ 1 milhão. O valor é semelhante para todas as categorias, e não é fixo. Ele pode variar a cada ano, em função do rendimento obtido pelo aporte inicial que Alfred Nobel deixou aplicado para esse fim, no século 19.

    Como funciona a escolha do ganhador

    O comitê responsável por nomear o premiado de cada ano recebe sugestões de nomes, que podem ser enviadas por: deputados, senadores, ministros, presidentes e premiês de qualquer país do mundo, além de membros da Corte Internacional de Justiça de Haia, professores de algumas disciplinas (como história, ciência política, teologia, entre outras), diretores e reitores universitários, ex-ganhadores do Nobel, membros do atual comitê ou de comitês anteriores e ex-assessores do comitê atual ou de comitês passados.

    Para o próximo prêmio, a ser entregue em cerimônia em dezembro de 2018, o comitê já recebeu 216 nomes de indivíduos e 114 nomes de organizações, considerando apenas as indicações para o Nobel da Paz. Esses nomes permanecem em segredo por 50 anos – a menos que os responsáveis pela sugestão tenham decidido, eles mesmos, tornar essa sugestão pública.

    Esta edição do Nobel da Paz é a que tem o segundo maior registro de nomes sugeridos. Apenas em 2016 houve mais indicados, quando o comitê recebeu 376 sugestões de indivíduos. 

    Os cinco jurados são escolhidos pelo Parlamento da Noruega para cumprir mandatos de seis anos, com direito a uma reeleição consecutiva. Cabe a eles escolher o ganhador.

    A composição do grupo “reflete a força relativa dos partidos políticos no Parlamento e, embora não seja uma exigência, todos os membros do comitê foram até hoje cidadãos noruegueses”.

    O prêmio prematuro dado a Obama

    Em outubro de 2009, o então presidente americano, Barack Obama, foi informado de que receberia o Nobel da Paz daquele ano por seus “extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”.

    Obama havia assumido a Casa Branca menos de um ano antes, no dia 20 de janeiro de 2009. Ele vinha defendendo desde a campanha eleitoral posições em defesa do acordo do clima e contra a proliferação de armas nucleares, mas, mesmo assim, a nomeação foi tomada como uma surpresa, dado o curto tempo de mandato.

    O presidente americano encarnava diversas esperanças de diálogo e de renovação, por ser o primeiro presidente negro da história dos EUA e por vir de uma família com origens na África muçulmana.

    Antes dele, outros três presidentes americanos haviam recebido o Nobel da Paz: Theodore Roosevelt (1906), Woodrow Wilson (1919) e Jimmy Carter (2002) – sendo que Carter foi o único a receber o prêmio depois de ter deixado a Casa Branca.

    Nunca nenhum brasileiro recebeu um Prêmio Nobel, em qualquer das categorias existentes.

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