Por que mais de 2.000 cientistas anunciaram boicote à revista Nature

Novo título da marca voltado para temas como inteligência artificial e robótica provocou revolta entre pesquisadores da área

    O lançamento de uma revista específica sobre inteligência artificial, em janeiro de 2019, sob a marca da Nature, uma das mais tradicionais publicações científicas do mundo, causou revolta entre aqueles que seriam os maiores interessados: os pesquisadores do assunto.

    Anunciada em novembro de 2017, a chamada Nature Machine Intelligence será uma revista on-line dedicada à publicação de pesquisas sobre inteligência artificial e robótica, “incluindo interação homem-robô, aprendizado de máquina e computação cognitiva”.

    O site da nova publicação contará ainda com uma “plataforma para discussão dos impactos da inteligência de máquinas na ciência, sociedade e indústria”.

    Após abrir chamado para inscrições de artigos científicos a serem publicados na nova publicação, o inesperado. Mais de 2,4 mil pesquisadores (incluindo cientistas brasileiros) assinam um abaixo-assinado dizendo que não irão “submeter, revisar ou editar para essa nova revista”.

    Entre os nomes estão pesquisadores de grande relevância na área, como Ian Goodfellow e Geoffrey Hinton, ambos cientistas do Google, além de Peter Norvig, diretor de toda a área de pesquisa da empresa. Além deles, Yann LeCun, diretor de IA no Facebook, também é signatário.

    Tudo porque a nova revista restringirá o acesso do seu conteúdo a assinantes.

    Além dela, diversas outras revistas da editora Springer Nature – que somam mais de 150 títulos próprios voltados a diferentes áreas do conhecimento como física, astronomia, biotecnologia ou neurociência – fazem uso de assinatura como modelo de negócio. Os valores cobrados para acesso digital vão de US$ 60 a US$ 250 anuais.

    Livre acesso

    À frente do levante científico está Thomas Dietterich, professor emérito e diretor do Instituto de Robótica Colaborativa e Sistemas Inteligentes da Universidade do Oregon, nos Estados Unidos. Autor do texto que encabeça a petição, ele diz:

    “Aprendizado de máquina tem sido a ponta de lança do movimento por acesso gratuito e aberto a pesquisas (...) Não vemos espaço para acesso fechado ou cobrança por publicação de autores no futuro das pesquisas de aprendizado de máquina, e acreditamos que a adoção dessa nova revista como um veículo de relevo para a comunidade [de pesquisadores] seria um passo para trás.”

    Abaixo-assinado contra a Nature Machine Intelligence

    O documento cita ainda exemplos de publicações acadêmicas de acesso livre voltadas ao assunto, com destaque para o JMLR (Journal of Machine Learning Research). A revista foi criada em 2001 por 40 pesquisadores que abandonaram uma publicação anterior da editora Springer, chamada “Machine Learning Journal”, que também cobrava por acesso.

    Em uma carta pública de demissão, os pesquisadores explicam o motivo da saída em massa: “Revistas científicas deveriam atender principalmente às necessidades da comunidade intelectual, em particular fornecendo acesso imediato e universal a artigos (...) a um custo que não exclui ninguém”.

    Pelo Twitter, a revista que ainda nem publicou sua primeira edição se manifestou, respondendo ao professor da Universidade do Oregon. Ela diz respeitar a posição do especialista e “apreciar o papel desempenhado por revistas de acesso gratuito e pelo arXiv”, referindo-se ao repositório aberto de artigos científicos de áreas como matemática, física, astronomia e ciências da computação.

    “Nós sentimos que a Nature MI [Machine Intelligence] pode coexistir, oferecendo um serviço – àqueles que tiverem interesse – que conecta diferentes campos, publicando trabalhos interdisciplinares e guiando um rigoroso processo de revisão”, disse.

    Conhecimento para todos

    A atitude rebelde dos pesquisadores reflete um quadro mais amplo formado por pessoas da comunidade científica e de militantes pelo livre acesso ao conhecimento contra o poder concentrado e restrito de editoras acadêmicas, grupo do qual faz parte a Springer Nature, resultado de uma fusão concluída em 2015.

    O mercado é visto como injusto por muitos pesquisadores, os quais não recebem financiamento dessas revistas, têm de ceder direitos autorais do seu trabalho, que só pode ser de fato acessado por assinaturas das mesmas revistas.

    Ao site The Next Web, o professor Thomas Dietterich argumentou sobre a relevância da iniciativa liderada por ele. “Isso é particularmente importante para estudantes e faculdades em países pobres onde não há dinheiro para a compra de assinaturas de revistas caras”, disse. “Tenha em mente que grande parte da pesquisa de aprendizado de máquina se dá nas universidade e são financiadas por impostos. Quem paga impostos deveria ter livre acesso ao resultado dessas publicações.”

    Marcos do movimento

    Conhecido nome defensor da bandeira contra o acesso restrito a artigos científicos, o ativista Aaron Swartz, que também foi cofundador do Reddit, deu notoriedade à pauta por meio da sua militância. Em 2011, o jovem com então 24 anos foi processado por baixar e divulgar milhões de artigos científicos da plataforma Jstor por meio da rede do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

    Condenado a pagar mais de US$ 1 milhão e correndo o risco de passar até 35 anos na prisão, Swartz tirou a própria vida em 2013, aos 26 anos. O jovem prodígio foi tema do documentário “O menino da internet” (2014), disponibilizado com acesso livre na internet. 

    Além de Swartz, o nome da neurocientista Alexandra Elbakyan, nascida no Cazaquistão, também ganhou notoriedade com o lançamento do site Sci-Hub, site que disponibiliza ilegalmente dezenas de milhões de artigos científicos de graça na internet.

    “O conhecimento científico deveria estar disponível para todo mundo, independentemente de renda, classe social ou localização geográfica. Advogamos pelo cancelamento da propriedade intelectual, ou das leis de copyright, para propósitos científicos e educacionais”, escreveu Elbakyan, no manifesto que justifica o site.

    ESTAVA ERRADO: A versão anterior deste texto afirmava que todas os títulos da editora que publica a Nature cobravam por acesso. Há, no entanto, exceções como a Nature Communications. O texto foi corrigido às 15h de 14 de maio de 2018.

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