Por que o Telegram foi bloqueado na Rússia e no Irã

Aplicativo foi alvo de polêmica e hoje é razão de passeatas e manifestações em defesa da sua preservação e contra o governo de Vladimir Putin

    Nesta terça-feira (1º), o Irã decidiu bloquear o acesso dos seus cidadãos ao aplicativo de mensagens Telegram. O país sozinho responde por aproximadamente 20% da base de usuários do app formada de cerca de 200 milhões no mundo todo.

    Com a medida, o Irã acompanha a decisão do país amigo, a Rússia, que também vem tentando bloquear o acesso da população ao aplicativo desde o dia 16 de abril, quando quase 18 milhões de usuários ficaram impedidos de usá-lo.

    O país sob o comando de Vladimir Putin tenta fazer cumprir a ordem judicial que exigiu o bloqueio do aplicativo após solicitar e não obter acesso ao conteúdo de mensagens privadas de certos usuários. O governo argumenta que o acesso é importante para combater organizações terroristas.

    No caso do Irã, o bloqueio também foi pedido pelo Judiciário, que ainda disse que o aplicativo coloca em risco a segurança nacional iraniana. Por lá, cidadãos comuns também não contam com acesso a outros meios de comunicação digitais, como Facebook e Twitter.

    Avião de papel

    Também na terça-feira, mais de 12 mil pessoas se reuniram em Moscou para protestar contra as tentativas de bloqueio do governo ao aplicativo. Organizado por meio da hashtag #DigitalResistance (resistência digital), o protesto contou com uma chuva de aviõezinhos de papel, ícone do aplicativo.

    O ato acontece um dia depois de vir a público um abaixo-assinado apoiado por pelo menos 26 organizações ligadas à defesa do direito à liberdade de expressão e privacidade dentro e fora da internet. Entre elas estão Anistia Internacional, Human Rights Watch, Artigo 19, Electronic Frontier Foundation, Access Now e Privacy Internacional.

    “Nós (...) condenamos veementemente as tentativas da Rússia de bloquear o serviço de mensagens Telegram, o que levou a extensas violações de liberdade de expressão e acesso à informação, incluindo um bloqueio colateral massiço de sites”, diz o documento, referindo-se à queda temporária de sites populares na Rússia como Yandex e Vkontakte, semelhantes ao Google e ao Facebook.

    “Fazemos um chamado à Rússia que pare de bloquear o Telegram e cesse seus ataques implacáveis à liberdade na internet de maneira geral”, continua o abaixo-assinado.

    Desde 2012, a Rússia vem aprovando leis que restringem a liberdade de expressão e a privacidade on-line, diz o texto. Naquele ano, o órgão regulador da internet no país mantém uma lista de sites proibidos. Em 2016, um pacote de leis chamado de leis Yarovaya tornou obrigatório que empresas donas de serviços digitais e provedores de conexão armazenassem dados de usuários no país e fornecessem chaves para desbloquear conversas encriptadas quando solicitado pelas autoridades russas.

    Em outubro de 2017, com base nessa legislação, o Telegram foi condenado a pagar 800 mil rublos russos (cerca de R$ 45 mil) após não entregar chaves de criptografia a autoridades. A empresa apelou na justiça, mas o recurso foi negado em março, desembocando no atual esforço do governo em bloquear o serviço.

    Eu não sou daqui

    Para tentar furar o bloqueio, cidadãos russos e iranianos têm apelado para serviços de VPN (redes privadas virtuais), que criam redes de acesso privadas dentro da internet pública e, assim, protegem a informação sobre a localização real do usuário conectado.

    Na Rússia, a atividade é arriscada. Isso porque o governo proibiu que serviços VPNs garantam acesso a sites e serviços banidos pela agência reguladora. Páginas na internet que oferecem instruções de como usar tais serviços podem ser bloqueadas pela mesma agência, de acordo com a legislação do país.

    No Brasil, o uso de VPNs ganhou popularidade nas ocasiões em que a Justiça exigiu o bloqueio temporário do Whatsapp. Nos casos brasileiros, as ordens foram dadas por motivo semelhantes: após solicitação das autoridades, a empresa responsável pelo aplicativo se recusou a descriptografar comunicações privadas e entregar seu conteúdo.

    Ponta a ponta

    O Telegram foi fundado pelo russo Pavel Durov (hoje exilado na Inglaterra) em 2013, quando ganhou notoriedade em razão dos escândalos de espionagem em massa revelados pelo americano Edward Snowden sobre as práticas da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA).

    No ano seguinte, após a notícia da compra do seu rival Whatsapp pelo Facebook, o número de usuários do Telegram explodiu. De acordo com a empresa, quase 5 milhões de pessoas aderiram ao serviço em busca de privacidade na época, fazendo dele o aplicativo mais baixado em 48 países.

    O Telegram ganhou fama valendo-se da privacidade do serviço oferecido por meio da implementação de criptografia de ponta a ponta (ou fim a fim) no conteúdo trocado entre seus usuários.

    Criptografia é o método largamente usado por serviços na internet que visam garantir segurança às suas informações. No caso do Telegram, toda a comunicação entre usuários é protegida por uma “chave” (uma sequência de dígitos aleatórios), que pode apenas ser vista e entendida por quem está nas pontas de uma conversa.

    Dessa forma, intermediários como autoridades governamentais ou mesmo a própria empresa responsável pelo aplicativo ficam impedidos de ter acesso ao seu conteúdo.

    O maior rival do Telegram, o Whatsapp, também faz uso de criptografia de ponta a ponta, mas o fato de pertencer ao Facebook gera desconfianças por parte dos usuários. Na última segunda-feira (30), a saída do último dos fundadores do Whatsapp, Jan Koum, reforçou tais desconfianças. O executivo decidiu abandonar a empresa sob a guarda do Facebook após um suposto desentendimento com Mark Zuckerberg sobre o sistema de criptografia do Whatsapp.

    O outro cofundador, Brian Acton, já havia deixado o Facebook em março de 2017 para se dedicar ao Signal, um serviço de mensagens focado em privacidade. Em março, Acton se juntou à lista de celebridades na campanha #DeleteFacebook, que incentivava as pessoas a deixaram a rede de Zuckerberg em meio ao maior escândalo recente de privacidade envolvendo a empresa.

    Em resposta à saída de Jan Koum, o fundador do Facebook se pronunciou a respeito do Whatsapp durante um evento a desenvolvedores nos Estados Unidos nesta terça (1º de maio). “Whatsapp não era totalmente encriptado quando o compramos. Inserimos criptografia nele depois disso. Comandamos a maior rede completamente encriptada do mundo”, disse Zuckerberg.

    Terrorismo e polêmica

    A garantia de segurança sobre mensagens conquistou usuários em busca de mais privacidade, mas também chamou atenção de grupos mal intencionados que passaram a usar o Telegram para fins escusos, caso de organizações terroristas como o Estado Islâmico.

    Em 2015, após o grupo jihadista protagonizar ataques em Paris, autoridades descobriram que os terroristas faziam uso do aplicativo para se comunicar por meio de grupos públicos, popularmente utilizados como canais de divulgação de notícias pelos usuários em geral.

    Em resposta, o fundador do Telegram coordenou o fechamento de 78 desses canais, usados para divulgação de atividades do grupo em até 12 idiomas. Anunciando a medida pelo Twitter, ele disse: “Nossa política é simples: a privacidade é soberana. Canais públicos, no entanto, não têm nada a ver com privacidade”, afirmou Pavel Durov.

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